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O início de um novo ano escolar constitui uma oportunidade para a discussão dos paradigmas e sistemas de educação nossos contemporâneos, e suas relações com o universo de possibilidades oriundo do campo da técnica e do desenvolvimento tecnológico. Trata-se de uma temática acerca da qual se acumulam e intersectam visões de diferente polaridade, espelhando variações de optimismo ou distância, discursos de reverberação tecnofílica ou, em sentido oposto, que acentuam implicações dúbias ou nefastas, em particular no plano da inclusão e do agravamento das desigualdades sociais. Nada de inteiramente novo poderá invocar-se, porquanto o pensamento crítico das relações entre educação e tecnologia tende a acompanhar o desenvolvimento das sociedades e dos modelos de organização da economia.

Dada a crescente ancoragem das abordagens ao desenvolvimento económico na utilização e exploração da informação, e a visão da economia e das relações sociais como espaços constituídos a partir de fluxos e de redes, a expansão das potencialidades técnicas encontra eco público e quotidiano em processos de digitalização das relações sociais e económicas, circunstância acelerada e intensificada pelo actual contexto pandémico. Se num passado não muito longínquo, falar de tecnologia poderia equivaler a enaltecer as virtudes de um transístor ou de um aparelho de televisão, falar de tecnologia equivale, hoje, num conjunto crescente de contextos, a considerar as potencialidades de tecnologias de informação e comunicação crescentemente desmaterializadas. O tempo é de transformação, de liderança, de solução digital. O presente e o futuro são, serão, crescentemente digitais – é dito, em mote laudatório por uns, céptico e hifenizado, por outros -, porquanto a tecnologia digital poderá constituir-se enquanto condição de viabilização de relações sociais, nos elementos de portabilidade, leveza e ubiquidade que as tendem a descrever, no presente.

A literacia e a educação tecnológica aproximam-se, neste sentido, do domínio das propriedades e da virtudes decorrentes do uso de uma solução digital e são crescentemente apresentadas como condição para exercício pleno de cidadania, veículo de possíveis desenvolvimentos económicos quaternários – novos serviços disponibilizados a partir de serviços terciários tradicionais. 

No referente ao universo da educação e da modelação dos percursos formativos associados ao domínio tecnológico, o escrutínio das virtudes da literacia e da capacitação digital, do impacto e dos riscos associados à digitalização de interacções sociais, e das possibilidades inerentes à digitalização de práticas e relações pedagógicas, foi intensificado em contexto pandémico. Trata-se de uma linha de discussão da maior importância (educar para a tecnologia) na circunstância presente, pós-fordista, pós-industrial, na perspectiva de uma empresa que se apresente como gerador de emprego qualificado, fazendo uso das virtudes referidas.

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A preparação para quotidianos de actividade que contemplam a adopção de tecnologia e a digitalização de processos e de relações de trabalho como vector de desenvolvimento organizacional, detém hoje uma importância primordial, algo particularmente revelado em contexto pandémico: a oportunidade existente e o trabalho ainda por realizar por instituições e agentes de educação na ligação à tecnologia, à formação que a considera e às soluções que esta pode veicular. De acordo com dados recentes (2020) do Índice de Digitalidade da Economia e da Sociedade, a literacia digital em Portugal encontra-se significativamente abaixo (10%) da média europeia, acrescendo a este dado a circunstância das políticas de educação pouco terem mudado em tempos recentes. Acesso a internet, largura de banda, computadores e demais utensilagem de operação, serão, por certo, condição relevante, necessária no desenho de uma política educativa, afigurando-se, contudo, insuficiente para assegurar mudanças sociais e culturais, associadas ao uso e aos modos de apropriação de uma solução tecnológica. As consequências desta intersecção podem encontrar reflexo na reduzida actualização dos percursos, conteúdos e metodologias formativas, menor adequação às necessidades existentes, menor capacidade de exploração de oportunidades de emprego e qualificação presentes e futuras.

Existirá tanto de necessidade como de oportunidade, num cenário social e económico que assim se apresenta. 52% é a percentagem de adultos europeus que carecem de requalificação devido às mudanças no mercado de trabalho, segundo dados do EC Digital Scoreboard 2020. A isto acresce que 42% dos adultos não detêm competências digitais básicas. Isto cria um diferencial ao nível do mercado de trabalho, entre o que as empresas procuram e as competências dos trabalhadores, já que 90% dos empregos na Europa exigem, no tempo presente, a detenção de competências digitais básicas e se perfilam, num futuro próximo, novas jazidas de ocupação e emprego, ainda por definir no seu declive concreto.

Num tempo em que as palavras-lema no mercado de trabalho gravitam crescentemente em torno da necessidade de dotar as populações e os trabalhadores de crescente capacitação digital, a par da valorização de perfis de comportamento marcados pela agilidade e pela capacidade de adaptação e de colaboração em ambientes fluidos e indeterminados, as crianças e os jovens continuam a ser educados para uma realidade de contorno distinto. A recomposição e diversificação de soluções e trajectos educativos, e a consideração, não apenas do acesso, mas também dos modos de apropriação da tecnologia, permitirá que esta se apresente não apenas como aos diferentes interesses e capacidades dos alunos, mas também como dispositivo e recurso útil no plano da sua integração social e profissional futura.

As relações entre educação e tecnologia apresentam-se, deste modo, em termos biunívocos, enquanto tema de interesse e oportunidade de aproximação às crianças e jovens, e fonte de preparação para um futuro que se vê densa e predominantemente digital.

Para o meu avô Sílvio, coração imorredouro de engenheiro, 91 anos a querer saber porquê.