No próximo Domingo, 29, a Guiné Bissau vai a votos para a eleição do Presidente da República. Os candidatos em presença são Domingos Simões Pereira e Umaro El Mokhtar Sissoco Embaló.

Simões Pereira é o actual líder do PAIGC, foi Ministro e Primeiro-ministro da Guiné-Bissau e Secretário-executivo da CPLP. É conhecido no país e no exterior como um político com experiência e moderação e respeitado nos meios político-diplomáticos europeus e africanos.

Sissoco, que se descreve como “cientista, político e militar”, apresenta um CV impressionante: uma licenciatura em Relações Internacionais (da qual não há registo) pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa (onde esteve de facto matriculado), um doutoramento pela prestigiada Universidade Complutense de Madrid (onde nada consta) e uma (também altamente duvidosa) promoção ao generalato.

Este apanhado de graus académicos e castrenses imaginados e imaginários não parece grande recomendação para a chefia de Estado – os casos semelhantes que tivemos em Portugal, ainda que menos exuberantes, também não deram grande resultado.

Outra prestidigitação de Sissoco é trazer no bolso um Príncipe saudita, um dos homens mais ricos do mundo. Segundo Umaro Sissoco o dito magnate ter-se-á comprometido a investir a módica quantia de um bilião de Dólares na Guiné, caso ele, Sissoco, ganhe a eleição. Será verdade? E se for, estarão os sauditas dispostos a comprar abertamente uma eleição num país africano? E estarão os guineenses dispostos a vender-se assim por um punhado (ainda que substancial) de Dólares?

É difícil de acreditar.

Umaro Sissoco tem também procurado apresentar-se como o escolhido pelos poderes regionais, exibindo apoios senegaleses, marfinianos nigerianos e de líderes muçulmanos da região e da CEDAO. Há mesmo a convicção declarada de alguns ministros do Senegal de que, se Sissoco for eleito, as relações entre os dois países irão ter uma franca melhoria, já que este “amigo do Senegal” estará pronto a facilitar, em nome da boa vizinhança, um acordo simpático para a partilha do petróleo nas fronteiras marítimas dos dois Estados.

Mas independentemente dos aspectos caricatos da eleição e da máquina de propaganda de Sissoco, o facto é que os outros candidatos, vencidos na primeira volta, se juntaram a ele para derrotar Simões Pereira, numa espécie de aliança que tem muito mais que ver com invejas e ressentimentos pessoais que com aspectos ideológicos ou doutrinários.

É claro que se os candidatos derrotados fossem senhores dos votos, Domingos Simões Pereira perderia: teve 40% na primeira volta, contra os 27% de Sissoco; e bastaria que os candidatos vencidos que se pronunciaram a favor de Umaro Sissoco – Nuno Nabian, José Mário Vaz e Carlos Gomes Júnior – somassem os seus votos aos dele para lhe darem a maioria.

Só que esta maioria conducente à eleição de Sissoco levantaria problemas: em primeiro lugar, semelhante coligação negativa, de tão diversa e frágil, iria entrar em crise interna forte no dia a seguir às eleições, agravando a instabilidade; mais, sendo o governo actual e a maioria parlamentar do PAIGC, o conflito com a Presidência iria manter o país na incerteza do poder em que tem vivido nos últimos quatro anos. E mais ainda, os apelos religiosos e tribais a que vem recorrendo Umaro Sissoco trazem a divisão entre muçulmanos e não muçulmanos e o confronto entre etnias; conflitos aos quais, até hoje, o país foi poupado.

De qualquer forma, embora a indicação de voto tenha a sua influência tendencial, a verdade é que entre os partidários dos candidatos afastados há divisões: na Assembleia do Povo Unido – Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB), de Nuno Nabian, parte da direcção dissociou-se da indicação de voto do líder em Umaro Sissoco e proclamou o seu apoio a Domingos Simões Pereira; e o mesmo aconteceu entre os partidários de Carlos Gomes Júnior (eleitores urbanos de Bissau) e de José Mário Vaz. Que “a transferência de votos a favor do candidato da oposição Umaro Sissoco Embaló está longe de estar garantida” é também o que se conclui no número especial sobre África da revista Jeune Afrique.