Governo

Eles os dois

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Foi Marcelo quem sinalizou a passagem à nova qualidade de vigilante: acção governativa com medidas calendarizadas, contas certas, respostas em tempo. Nova vida para um governo em máxima fragilização.

1. António Costa é mais dado à facilidade leve das coisas, à boa notícia, a gente feliz sem lágrimas. Com vento de feição, ei-lo seguro de si, pisando forte. Com ventanias contrárias, perde de imediato o norte e com ele o critério e, depois, as boas maneiras. É como se entrasse em desregulação e testemunhámos isso: apanhado na tormenta, o primeiro-ministro reage sempre mal. Estamos lembrados da sua total e fatal insegurança e dos (alguns irremediáveis) erros que ela produziu. O espectáculo que deu de si mesmo — politicamente, humanamente, socialmente, comunicacionalmente – transformou-lhe a vida num inferno. Afinal nem tudo eram rosas. Que longe estava a tão louvada “habilidade” para lidar com a geringonça, o funcionalismo público feliz com reversões e aumentos, a esquerda à sua esquerda idem, as boas sondagens.

Mas agora tratava-se não já da sua considerável fatia de poder e influência, mas do país que de repente o abocanhava e mordia, e mesmo o Presidente — falsa bela adormecida — acordava do seu ficcional sono e virava-lhe o dente. Tudo de repente corria mal. A ele, sobretudo. Estamos lembrados, sim: o povo de Pedrogão disse-lhe que não o queria lá este Natal.

2. O princípio da bonança – ou assim o tomou António Costa – veio com a eleição do ministro das Finanças para o Eurogrupo (num passe de mágica entre o político que em Lisboa agrada e acede a comunistas e bloquistas que tudo abominam na UE, o titular das Finanças comprometido até ao osso em Bruxelas com a ortodoxia financeira vigente e o folião que não desdenha selfizar-se com uma socialite platinada).

Seja como for, Costa rejubilou com a eleição do ministro, reivindicou para si uma boa quota parte dela e voltou a agir com aquele inconfundível sorriso das favas contadas. Não sei se serão, mas até lá a vida política do primeiro ministro será um caminho de pedras. Os distraídos discordarão — então as boas notícias na frente económica não garantirão por si só uma viagem política sem escolhos? –, porque os distraídos talvez não tenham reparado na viragem do Presidente da República: o “companheiro” virou agora um “vigilante”.

Ter um Chefe de Estado à perna é um pavoroso constrangimento político (pior que saber que haja o que houver se usará, durante dois anos, uns sapatos três números abaixo). E se o Chefe de Estado é Marcelo nem se sabe a que exemplo de, digamos, inconforto político se poderia recorrer para explicar como a “forma mentis” do Presidente da República e o seu invulgar modo der ser tornarão mais complexa a vida do chefe do governo, pretendendo embora sempre o contrário (mas Marcelo é exímio no “não parecer”). Há coisas irremovíveis e cento e muitos mortos por clamoroso falhanço do Estado é uma delas: irremovíveis das memórias e da nossa vergonha colectiva e ninguém sabe isto melhor que o Presidente da República. Foi no seu mandato que elas ocorreram e, pior, foi a ele que o país ouviu dizer, duas horas depois, ainda sem balanço credível ou dados sérios, que “tudo tinha sido feito” quando muito falhara e pouco se fizera naqueles brasidos.

3. Vi sem surpresa — foi aliás diante de nós que ele despiu uma pele e vestiu outra — esta troca do Presidente da República de companheiro para vigilante. Tempos atrás o companheiro acolhia com (infantil) alegria o chapéu de chuva que Costa, com (grotesca) solicitude, lhe estendia numa tarde de má memória em Paris. Hoje o companheiro – embora sempre de “serviço” — está mais recatado e o vigilante mais activo.

Nada disto era de resto imprevisível, havia de chegar “o” dia. Chegou pelas piores razões mesmo que até ao início do Verão passado ambos rissem muito, andassem como siameses, viajassem (desnecessariamente) juntos, e nos intervalos até cimentassem tão esbarrombante cumplicidade entretendo-se a contar histórias caricaturadas de Passos Coelho que nenhum percebe e ambos temem. Costa, é claro, sempre desconfiou de tanta fartura presidencial, como o pobre quando a esmola se agiganta, mas dizia em privado que “cada dia era um dia”: a geringonça fluía e ele também.

Agora não. Foi o próprio Marcelo quem sinalizou e depois publicitou a passagem à sua nova qualidade de vigilante: acção governativa com medidas calendarizadas, prazos, contas certas, respostas em tempo, responsabilidade. Nova vida para um governo no seu mais baixo grau de fragilização, descomunicação e desnorte. E a contas com a aplicação de um Orçamento que privilegia quem não deve e não atende a quem serve de combustível ao motor da nossa economia.

4. É certo que o “companheiro” não pode deixar o acompanhado. É até imperativo que de vez em quando entre em cena e sorria para o Governo, mais vale prevenir que remediar, tudo menos uma grave “chatice” política daqui até às eleições: o Presidente da República tem um horror visceral a situações que não controla e lhe escorregam das mãos. O vigilante vigiará mas quando for preciso um gesto cúmplice ou uma benção mais ungida, o “companheiro” há-de mostrar-se à altura do jogo: é campeão mundial na modalidade.

5. Seja como for, deixámos de ter dois políticos que por vezes não se importavam que os confundíssemos com dois adolescentes estarolas (revejam-se as imagens) para ter um Presidente da República “ocupado” pela sua própria consciência dos estragos de 2017 e querendo (bem) agir em conformidade e um primeiro ministro sob vigilância.

Eis o que muda alguma coisa nas coisas tal como elas eram.

6. Não gosto de “grandes palavras”, duvido até da sua utilidade. Não ouvi o Presidente no fim do ano mas vi a palavra “reinventar” (o “futuro” não era?) estampada mil vezes em papel ou écrans. Deve ter caído bem com tanta a gente a explicar como se “re-inventa”, eu achei-a um enfeite de Natal. Não é preciso reinventar, mas sim cumprir. Não é preciso reinventar o Estado, é preciso que ele cumpra bem as funções já há muito “inventadas” para ele. Não é preciso que o ministro da Defesa se reinvente é só necessário que — na impossibilidade de nos sair da frente — cumpra a sua tarefa e nos informe sobre ela. Não é preciso reinventar o Serviço Nacional de Saúde, bastaria só que ele funcionasse como no tempo de Paulo Macedo que tinha bem menos euros à disposição que o pobre dr. Adalberto (com “pannes” em todo o lado, a todas as horas e a todos os níveis de funcionamento, sem que isso pareça aflijir o governante, o governo, os dos écrans ou a media que agora prefere o sono dos (in)justos).

Reinventar é um semi disfarce, cumprir é sempre uma meta.

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