Rádio Observador

Imigração

Eles são como nós?

Autor
  • Inês Pina

Uma adolescente vive na França onde os avós chegaram há 40 anos, fala francês, tem amigos franceses, nunca foi à Argélia, devemos dizer-lhe que não pertence à França e tem de voltar para a Argélia?

Não há dia em que não se vejam noticias do surto de imigração que povoa o mundo. Seja seguindo as pisadas das caravanas gigantescas; seja mostrando imagens que nos fazem virar a cara e dizer, comodamente sentados no sofá, “nem consigo olhar para isto”.

Dói, porque por momentos, sabemos que qualquer um de nós pode vir a estar na mesma condição. Dói porque percebemos que somos uns sortudos, por ter nascido no lado certo do mundo!

Vivemos numa era globalizada, o que desde logo mitiga as diferenças culturais em todo o mundo. A British Airways oferece voos diários entre Deli e Londres, algo que não acontecia nos tempos do rei Alfredo, o Grande. Desta forma a Índia moderna tem menos diferenças com a Grã-Bretanha moderna, do que na época do império anglo-saxónico.

Não é rara a vez em que tecendo considerações sobre empresas ou até mesmo, sobre carreiras profissionais, resvalamos no chavão de “isto hoje é global, concorremos com todo o mundo”. Contudo, à medida que mais seres humanos cruzam a fronteira em busca de empregos, segurança cresce a necessidade de confrontar, assimilar ou expulsar.

Caiu no colo da Europa. E este é um dos grandes desafios.

Ora, a União Europeia, foi implementada com o objetivo de transcender as diferenças entre os alemães, franceses, italianos, alemães, ingleses…. Agora, parece que um dos projetos mais bem-sucedido da história da Humanidade pode colapsar, devido á sua incapacidade de conter as diferenças culturais, entre europeus, migrantes de África e do Médio Oriente. Por mais irónico que isto possa parecer, foi o próprio sucesso europeu em contruir um sistema multicultural e próspero que atraiu tantos migrantes. Os sírios querem migrar para a Alemanha e não para a Arábia Saudita, Irão, Rússia, não porque a Alemanha seja mais rica que qualquer um dos outros, mas sim porque a Alemanha tem mais oportunidades, mais liberdade e melhor capacidade de acolhimento.

Esta forte onda de migração provoca várias reações entre os europeus e dá azo a discussões amargas que colocam mesmo em causa o futuro europeu. Há quem peça que as portas sejam fechadas a cadeado, há quem implore que se abram de par a par por forma a respeitar os valores universais. O que se denota é que a nível político já se sente a deriva populista que se alimenta do ressentimento dos perdedores da globalização e dos que olham para os migrantes como resultado da pressão globalizadora. Medite-se sobre o exemplo da AfD, partido de extrema-direita alemão. Nunca passou de um partido marginal. A partir do momento em que fez das migrações o centro da sua política disparou de, conseguindo entrar no Bundestag – e em todos os parlamentos dos estados federados – à boleia da sua retórica anti-imigração e das suas críticas ferozes à política de porta aberta da chanceler Angela Merkel.

Esta conversa sobre migração acaba sempre numa conversa de surdos, onde todos gritam e ninguém se ouve. Cada um apregoa a sua verdade.

Coloquemos esta questão sob três premissas, como se fossem cláusulas de um contrato:

  • O país de acolhimento deixa os migrantes entrarem.
  • Por sua vez, os migrantes devem assimilar, pelo menos as normas essenciais do país que os acolhe. Sim obriga a ceder nos seus valores tradicionais.
  • Se os migrantes assimilarem o suficiente, com o tempo ganham direitos iguais aos cidadãos do país de acolhimento. Em bom rigor o “eles” passa para um “nós”.

Claro, que isto não é assim linear. Há as lestras pequeninas deste contrato que levantam muita discussão. Não basta rubricar.

Veja-se, o país que acolhe os migrantes faz um favor ou cumpre um dever? Pode entrar toda a gente, ou há o direito a escolher?

A globalização é para o bom e para o mal, portanto num mundo global temos obrigações para com todos os seres humanos. É impossível deter a migração, por mais muros que se edifiquem, portanto o que se está a fazer é a alimentar o tráfico de pessoas. Podemos mesmo, correr o risco de alimentar uma sociedade onde há cidadãos de primeira e cidadãos de segunda. Há quem defenda que com a força suficiente se contém estes movimentos, todavia estamos a falar de pessoas que se atiram de cabeça (literalmente) para chegarem ao ponto que pretendem. Contra a força de vontade humana, pouco ou nada há a fazer!

Sim, todos sabemos que para termos a nossa democracia lutamos muito, e fizemos muitos esforços para hoje usufruirmos da paz e da liberdade que tantos cobiçam. Logo, podemos dizer aos sírios que façam o mesmo. Voltamos, ao ciclo da globalização, eles sabem que do outro lado há algo melhor, não vão precisar de esperar gerações para viver com oportunidades!

Agora sobre a assimilação. Até onde se deve ir? Os migrantes devem abandonar as suas vestes tradicionais? Devem mudar hábitos de alimentação? Se forem parte de uma sociedade patriarcal devem tornar-se feministas numa sociedade liberal?

A Europa é forte pelo seu vasto espectro de valores e opiniões. Um dos grandes pilares europeus é mesmo a liberdade e a tolerância. Não se pretende que um muçulmano vir católico, quando muitos dos católicos europeus nem à igreja vão, certo? Sim, no meio de tanta tolerância podemos questionar onde fica a identidade do país acolhedor. Também se pode questionar se no meio da oferta total de liberdade não se pode pedir a assimilação total, pois caso algum migrante tenha problemas com alguma idiossincrasia da cultura sueca, inglesa, francesa…tem sempre a liberdade de ir para outro lado.

Importa refletir: haverá normas e valores especificamente dinamarqueses que devam ser aceites por qualquer pessoa que imigre para a Dinamarca? Não é a Tolerância um valor universal?

Aqui há muita divisão e este é o ponto essencial para que posamos chegar a um consenso.

Ora por último vamos ao ponto 3 do nosso contrato. Eles podem tornar-se num “nós” se fizerem tudo certinho. É um contrato argiloso, ao estilo dos contratos com os bancos ou seguradoras. Quanto tempo é necessário para os migrantes serem membros de uma sociedade por inteiro? As gerações seguintes são membros por inteiro da sociedade acolhedora? Suponhamos se os nossos avós chegaram há 40 anos e nós agora nos envolvermos em motins de rua, falhamos no teste?

O império romano, o califado muçulmano, os Estados Unidos da América demoraram séculos e não décadas para uma integração completa. Uma adolescente que vive na França depois dos avós terem chegada há 40 anos, fala francês, tem amigos franceses, nunca foi à Argélia, devemos dizer-lhe que não pertence à França e que tem de voltar para a Argélia?

Agora mais um ponto importante neste contrato de letras pequeninas, questão da contabilização. Quando avaliamos esta questão, quer se seja pró ou anti- migração, valoriza-se muito mais uma infração. Se 1 milhão de migrantes forem zelosos cumpridores e 100 participarem num ataque terrorista, estamos perante uma infração que tem de hipotecar toda a vida dos restantes? Se andarmos na rua mil vezes e em 10 vezes ouvirmos comentários ou insultos isso significa que a população nativa não nos aceita?

Ora, a clarificação de todos estes pontos irá definir que política vamos adotar face a esta realidade que hoje assume proporções gigantescas face à qual não podemos continuar de braços cruzados.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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