Portugal tem uma paixão por obituários: uma criatura morre e sobe aos píncaros. Este banho lustral de água benta que proporcionamos aos mortos tem o seu reverso numa atitude chocarreira perante os vivos, atitude essa alimentada em não sei quantos espaços mediáticos em que se estimula ao vivo, em directo e com a conivência assertiva dos pivots, o lado pior de cada um de nós: só querem é poleiro; estão lá para se encher; são todos iguais…

Esta nossa fixação fúnebre tem sido alargada nos últimos anos à política: um ministro é péssimo, não vale nada, sabe-se lá no que está metido… pede a demissão, ou seja redime-se do pecado original de estar na política activa, e passa a herói nacional. Miguel Macedo é o último protagonista deste percurso que leva alguns portugueses do patamar da nulidade ao de grande político (ou de “maravilhoso ser humano” como dizem os membros desse fantástico clube que dá pelo nome de famosos).

Desculpem mas não entendo por que se elogia Miguel Macedo neste momento. Das duas uma: ou tem de facto responsabilidades nos casos de corrupção – neste momento nada o indica – e nesse caso a demissão seria uma forma de branquear o seu comportamento menos adequado, ou não tem responsabilidade alguma e, numa jogada de estratégia política, demite-se. O mundo político-comentador, sobretudo essa estranha sub-espécie de políticos-comentadores que surgiu e se multiplicou nos estúdios de televisão portugueses, comoveu-se e aplaudiu o pedido de demissão de Miguel Macedo. As oposições ficaram igualmente felizes porque tendo de se conformar com o facto de o Governo não cair em bloco na rua passou a apostar na estratégia da queda pecinha a pecinha por força dos escândalos. E Miguel Macedo era uma pecinha importante! Uma espécie daqueles lego que conjugam peças de diferentes tamanhos.

O Governo não fica propriamente infeliz com a demissão do MAI, quanto mais não seja porque uma vez na vida foi elogiado. Infelizmente no meio desta felicidade geral sobramos nós, cidadãos comuns. E nós não ganhámos nada de bom: vamos ter um novo ministro numa pasta sensível e sobretudo mais uma vez vimos triunfar esta irresponsável mas consensual ideia de que ao primeiro problema sério os responsáveis se demitem.

Não por acaso pedir demissões é um desporto nacional e um desporto em que quem solicita a queda nem sequer é confrontado com as consequência do que diz: o que teríamos nós ganho se Nuno Crato se tivesse demitido em plena crise de colocação de professores? Nós nada. As corporações do sector tudo. E agora que a crise da legionella está a chegar ao fim e Paulo Macedo é unanimemente elogiado convém recordar os sucessivos pedidos de demissão do ministro da Saúde. Teria sido mesmo melhor que Paulo Macedo se tivesse demitido, como por exemplo têm exigido o Movimento de Cidadãos pela Defesa dos Serviços Públicos de Saúde do Algarve e João Semedo do BE?

Aliás para boa parte da sociedade portuguesa que manifesta uma óbvia dificuldade em aceitar os resultados eleitorais quando estes não confirmam a sua superioridade moral, a única decisão que lhes merece apoio por parte dos governantes é a demissão. Logo, um governante de um governo democraticamente eleito quando se demite sem que para tal exista razão, tem de pensar que esse seu gesto implica ceder à rua, ao diz que disse e à insinuação.

Por fim mas não por último não vamos falar de refrescos a propósito dos governos. O refresco é uma bebida e o refrescamento o resultado das correntes de ar ou do ar condicionado. Logo vir a propósito desta ou doutra demissão com a tese de que serve para o Governo se refrescar é uma daquelas coisas que ao certo não quer dizer nada mas se repete muito porque mediaticamente faz sempre efeito. Os Governos governam (ou pelo menos tal se deseja) e se os comentadores e jornalistas querem tratar contínuas entradas e saídas é melhor trocarem o mundo da política pelo do futebol ou das novelas com as suas espectaculares contratações e rescisões.

Não condeno Miguel Macedo por se ter demitido: pessoalmente não teria paciência para aturar um centésimo daquilo que implica ser político em Portugal, sobretudo se não for respectivamente do PCP, do BE ou do CDS. Mas também não o elogio. Não acho que Miguel Macedo tenha posto a fasquia mais alta quando se demitiu. Antes pelo contrário, tal como Jorge Coelho quando pediu a demissão por causa da queda de uma ponte com a qual nada tinha a ver, Miguel Macedo pôs a fasquia mais baixa: ao nível da reportagem ululante e do comentário do popular indignado que pedem responsabilidades com a mesma atrabiliária fúria com que nos filme do Tarzan os feiticeiros exigem o sacrifício de um membro da tribo pala aplacar os vulcões.

Deste caso dos vistos gold todos recordaremos que o ministro se demitiu. E isso serve para quê? Infelizmente até pode servir para que se atenue a pressão sobre os responsáveis: lembram-se da satisfação pátria porque em Entre-os-Rios a culpa não podia morrer solteira e à falta de melhor candidato Jorge Coelho prometeu-lhe casamento e demitiu-se? A quem já não se recordar lembro que após um complicado processo ninguém foi condenado pelo desastre da ponte. Continuamos sem nada saber sobre extracção de areias e conservação de pontes. Mas a Pátria rejubilou e rejubila porque a culpa não morreu solteira. Pois não, para nossa desgraça continua a andar por aí à procura de incauto noivo enquanto a sua verdadeira família descansa e cresce.

Demitir-se por aquilo que não é da sua responsabilidade não é difícil para um político. Em resumo, Miguel Macedo fez bem a si mesmo quando se demitiu. O que humanamente se entende, politicamente foi bem visto mas que na verdade não nos resolveu problema algum. Antes pelo contrário.