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Na semana passada, fomos surpreendidos com uma entrevista de Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Competitividade, dizendo-nos que há várias empresas que querem contratar pessoas e não conseguem. Quando questionado sobre se isso se devia a um problema de qualificações dos portugueses, Pedro Ferraz da Costa foi contundente: as empresas não contratam porque as pessoas «não querem trabalhar».

Como é razoavelmente evidente, dizer isto que Ferraz da Costa disse é tão correcto como dizer que as empresas não contratam porque não querem pagar aos trabalhadores. Se há pessoas desempregadas — e lembro, como muito bem explicou a Susana Peralta, no Público, que em Portugal, por definição, só é considerado desempregado quem está à procura de emprego — e há lugares nas empresas por preencher, então, se o problema não é de falta de qualificações, uma explicação possível é que o salário que as empresas estão dispostas a pagar é inferior àquele que as pessoas consideram aceitável.

Esta queixa de que as empresas querem contratar pessoas mas não conseguem é recorrente. Ainda há umas semanas eu referia que a AHRESP — Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal — se queixava do mesmo. Na altura, a minha reacção foi semelhante: só têm dificuldades em contratar porque não querem pagar salários mais altos. A questão é: então porque não o fazem? Uma hipótese é que não querem pagar mais por novas contratações, porque isso implicaria pagar mais aos seus actuais trabalhadores. Ou seja, têm poucos trabalhadores como forma de pressionar os salários para baixo. Isto só é possível se as empresas tiverem algum poder de mercado no mercado de trabalho (passe a redundância). Ou seja, os mercados laborais não são competitivos, possibilitando às empresas pagar abaixo da produtividade dos seus trabalhadores.

Esta hipótese pode parecer meramente teórica, mas, na verdade, é uma hipótese que começa a ganhar tracção em vários estudos empíricos, quer para o Reino Unido quer para os Estados Unidos. O último que vi, posto a circular na semana passada, da autoria de Efraim Benmelech (Northwestern University), Nittai Bergman (Tel Aviv University) e Hyunseob Kim (Cornell University), conclui, usando dados que vão 1977 a 2009, que, de facto, empresas com poder de monopsónio no mercado de trabalho têm deprimido o crescimento dos salários reais: «the results are consistent with firms exploiting workers in the form of lower wages (than a competitive market level) in monopsonistic labor markets, particularly when labor bargaining power is weak and worker mobility is limited.» Eu traduzo: os resultados são consistentes com empresas em mercados laborais monopsonistas a explorarem os trabalhadores na forma de salários mais baixos (do que seriam em mercados competitivos), em particular quando o poder negocial dos trabalhadores, bem como a sua mobilidade, é limitada.

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E, para Portugal, há estudos sobre este assunto? Como certamente adivinharam, a resposta é sim e, como novamente adivinharam, a protagonista do estudo é uma antiga aluna minha, Sónia Félix. A Sónia trabalha, actualmente, no Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal e terminou, recentemente, o seu doutoramento na Nova School of Business and Economics. Da sua tese, retirou um artigo, escrito em co-autoria com Pedro Portugal (investigador do Banco de Portugal), sobre imperfeições no mercado de trabalho e política salarial das empresas. Neste artigo, os autores cruzam duas bases de dados, uma que inclui informações sobre virtualmente todas as empresas não financeiras e outra que inclui (virtualmente) todos os trabalhadores por conta de outrem.

A que conclusões chegam os autores? Em primeiro lugar, e directamente ligado ao tema desta crónica, o poder de monopsónio existe em Portugal. Ou seja, os salários são mais baixos do que seriam se os mercados fossem competitivos: as empresas conseguem que os trabalhadores recebam menos do que a sua produtividade. Usando linguagem marxista, dir-se-ia que conseguem capturar a mais-valia do trabalho. Em linguagem mais prosaica, as empresas, ao procurarem maximizar os seus lucros, esforçam-se por minimizar os custos, entre os quais os custos laborais.

A segunda conclusão é uma implicação da primeira. Havendo diferentes grupos de trabalhadores com capacidades negociais diferentes, as empresas irão pagar menos a quem, por algum motivo, tem menor capacidade reivindicativa. Por exemplo, se a disponibilidade das mulheres para trabalhar numa dada empresa for pouco sensível ao salário (porque, por exemplo, têm menos mobilidade, o que lhes diminui o raio de acção na procura de empregos alternativos), então o empregador pode aproveitar-se e pagar-lhes salários mais baixos. Sónia Félix e Pedro Portugal estudam esta possibilidade, analisando separadamente os determinantes dos salários dos trabalhadores e das trabalhadoras, chegando à conclusão que o poder de mercado que as empresas têm no mercado laboral prejudica mais as mulheres do que os homens.

Concluindo. Ao contrário de Ferraz da Costa, eu não tenho dúvidas de que parte das dificuldades das empresas em encontrarem trabalhadores adequados se deve a um problema de qualificações. Tendo a taxa de desemprego  atingido os 17% há poucos anos, é muito improvável que os novos empregos criados desde então sejam perfeitos para as pessoas que perderam o emprego no ciclo económico anterior. Empregos em sectores desgastados são substituídos por empregos em sectores mais dinâmicos, que, muitas vezes, exigem competências diferentes. Esta adaptação exige algum tempo e algum esforço quer por parte das empresas quer por parte dos trabalhadores. Mas declarações como as de Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Competitividade, dão a entender que uma parte dos empresários portugueses continua viciada em baixos salários. Estava na altura de serem mais competitivos, não?