Desafio maior da atualidade reside numa política que se revela muitíssimo mais ‘emburrecedora’ do que aborrecida. Antes aborrecida, porém credível, equilibrada entre certezas e dúvidas, sustentável na lógica dos factos e no decurso do tempo. Não é o que temos. Quanto mais ‘apelativa’ mais a política se distancia desses atributos. E devemos o menos mau à natureza humana por nascermos protegidos por instintos que se ativam por si mesmos em defesa da sanidade da espécie.

Recorro a um domínio paralelo. Quando provamos ou ingerimos um alimento deteriorado, o corpo pode reagir antes do pensamento. No campo político, um processo equivalente faz-nos, primeiro, desligar o botão do rádio, fazer zapping ou evitar certos jornais e, depois, racionalizar a razão do gesto instintivo. Pior será quando atingimos o estádio em que o segundo passo nem sequer é esboçado. Significa que se apagou o ânimo para discutirmos com os nossos instintos porque a razão atingiu o limite de tolerância ao absurdo.

Assinalo uma inferência sobre o campo político: as fontes tóxicas foram-se multiplicando, por via da comunicação social, muito para além do razoável para atingirmos um estádio em que a questão pode não ser resolúvel apenas se deixarmos que os instintos sequem tais fontes. Será necessário acrescentar uma dimensão racional, intencional, programada, discutida. É a forma de evitar o sacrifício da democracia ou, com maior propriedade, de contribuir para que se torne mais saudável. Acontece que ousar explicitar tal propósito comporta riscos, posto que nunca faltarão acusações de censura sempre legítimas. Mas é paradoxalmente em prol do combate à censura que o conteúdo deste texto não deve permanecer na penumbra.

Para facilitar a representação da política enquanto fenómeno social, posto que essa característica torna o seu significado decisivo, recorro à imagem de um rio que alimenta a vida de uma comunidade. Os seus agentes políticos especializados e os demais indivíduos comuns movem-se nas mesmas águas, empurrados pelo mesmo sentido das correntes.

É como se necessitássemos da salubridade e pureza das águas do Tejo, mas persistíssemos em jogar nelas despojos do quotidiano sem quaisquer cuidados ambientais entre esgotos não tratados, todo o tipo detritos, como plásticos, resíduos químicos, lixos de estaleiros navais ou de lavagens de porões de navios, descargas diretas de suiniculturas ou de oficinas de automóveis e outros. À medida que a água potável rareasse e que a saúde pública corresse riscos sérios pouco mais restaria do que o despovoamento de um dos núcleos significativos da razão de ser de um país e da sua inserção, ao longo dos séculos, num dado contexto civilizacional. Com sorte talvez sobrassem as tainhas.

No campo político, esboços de uma caminhada paralela manifestam-se quando, instintivamente, desligamos o botão do rádio, fazemos zapping ou evitamos determinados jornais. O fenómeno é recente. Seria improvável equacionar a atual dimensão da toxicidade política há duas, três ou mais décadas. Vamos esbarrando num obstáculo sedimentado ao longo do tempo debaixo dos nossos olhos sem que dele tivéssemos consciência.

É de supor que cada um de nós possa ilustrar o fenómeno com os tons das suas conveniências.

Por mim, cito o episódio que espoletou este texto. Numa sexta-feira recente, minutos antes das vinte horas, liguei a TSF para, pouco mais de um minuto passado, desligar o botão e continuar em silêncio os fazeres domésticos. Ao longo de muitos e muitos anos foi a TSF que me habituou a ouvir e respeitar as mais contraditórias perspetivas sobre a vida política, social ou cultural. Porém, num passado recente difícil de precisar terá sido a mesma estação de rádio que mais passou a ativar os meus instintos primários de autodefesa contra o campo político.

Naquele pouco mais de um minuto de resistência, o comentador de um dos programas de política incapazes de ir além da espuma do dia (o plural quase deixou de fazer sentido), Pedro Adão e Silva (mas poderia ser o seu parceiro de debate, Pedro Marques Lopes, como tantos outros), propunha-se explicar por que razões o anterior primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, não percebia de social-democracia. Autoconfiante, o comentador político informava e formava o auditório (isto é, transformava pela enésima vez a política em fenómeno social) afirmando que Pedro Passos Coelho estava a recandidatar-se à liderança do PSD para ambicionar apostar na social-democracia mas, acrescentava, “a social-democracia não é isso” que supostamente o ex-primeiro-ministro julgava que era. Remeti o rádio ao silêncio para, neste texto, procurar explicar, a partir de um exemplo, as razões de ser cada vez menos capaz de travar os instintos que me fazem despovoar o território contaminado da política.

Será que alguém pode insinuar possuir o “verdadeiro” significado de social-democracia? Será que a social-democracia pode ser insinuada como uma qualquer entidade estática imune a pessoas concretas ou à passagem irrepetível do tempo? Como é que alguém pode soar tão taxativo-normativo numa sociedade aberta sem emburrecer quem o ouve? Como é que uma rádio pode, em simultâneo, ambicionar ser de referência e contribuir para a toxicidade do pensamento social?

Além das peculiaridades portuguesas de um termo, conceito e fenómeno político e social (tudo ao mesmo tempo) com conotação diversa em relação à sua matriz europeia, impor interpretações redutoras de social-democracia para fazer valer argumentos de circunstância arruína os significados que podem e devem ser equacionados. Balizada em certos limites, a social-democracia só existe se permitir a articulação entre o que aparente pode ser contraditório e que, por certas artimanhas retóricas, pode ser apresentado como composto por um conjunto aleatório de peças soltas irreconciliáveis sem uma história que sustente o funcionamento desse universo.

Ou a inteligência é capaz de gerir com complexidade o que é por natureza complexo ou entramos no domínio da negação ostensiva da inteligência atentando contra noções elementares de cultura cívica.

Os significados de social-democracia que servem de referência a Pedro Passos Coelho serão tão seguros, certos, iluminados ou dinâmicos (ou o inverso) quanto a ideia de social-democracia que paira na cabeça iluminada e no verbo autoconfiante do comentador de política da TSF. O que emburrece é a ousadia de um em desautorizar categoricamente o outro, sintoma das dificuldades em deixarmos para trás uma idade média da indigência intelectual.

De resto, dotes intelectuais medianos intuem que a social-democracia (o socialismo democrático ou a tendência democrática ou progressista norte-americana), como a democracia-cristã (correspondente à tendência republicana ou conservadora norte-americana), para serem captadas e interpretadas implicam ter em conta alguns aspetos nucleares que anulam quaisquer veleidades de ‘pureza’. Conta não apenas o que possa estar teorizado em livros e demais escritos, mas também o percurso histórico dos líderes de referência dessas áreas políticas nas suas singularidades. Bem mais do que isso, também conta, no caso da definição ou tipificação da social-democracia (como de outras pertenças políticas), o modo como os indivíduos comuns que a ela genuinamente se filiam pensam, por eles mesmos, um conjunto de assuntos que em determinados momentos se consideram relevantes para o destino coletivo. Seja o papel do estado na economia, os impostos, a justiça, o ensino, a religião, o exercício de autoridade, as minorias, o terrorismo, a defesa e por aí adiante.

Não é porque a última dimensão tem sido a menos considerada que o seu valor fica diminuído. Ou o fenómeno político é tratado contemplando no seu âmago conteúdos sociais concretos tal como existem e manifestam no quotidiano; ou a política estará a ser tratada como um domínio da vida coletiva em que se despreza o essencial em prol do acessório. Mesmo no último caso, nada legitima a propagação de argumentos que emburrecem as sociedades.

Gostaria de voltar a desativar o instinto que agora me faz vezes demais desligar a TSF, mesmo e sobretudo para poder ouvir o que discordo quase em absoluto. Isso é sempre possível e sinal da qualidade da democracia. Apenas deixou de o ser porque muita da comunicação social não quer perceber as razões de se ter transformado num falhanço democrático e, com isso, num falhanço civilizacional.

Investigador