Dizem que os americanos nunca se deixaram seduzir pelo futebol por causa dessa instância filosófica que é o empate. Ora, sem o empate o futebol seria um desporto como outro qualquer.

Já se sabe que, por altura de uma grande competição em que esteja envolvida a selecção portuguesa, nenhum comentador faltará ao encontro com a reflexão sobre a nossa bipolaridade: “os portugueses passam rapidamente da euforia à depressão, do oito ao oitenta”, dizem, como se essa flutuação, ao ritmo natural dos resultados, fosse uma particularidade lusitana. São afirmações que dispensam pensamento ou provas. Não são reflexão, são reflexo.

Um empate, melhor, dois empates seguidos que, porém, ainda não condenaram a equipa, dificultam o recurso à lengalenga preguiçosa. É verdade que o empate nos soube um pouco a derrota, como também é verdade que, vendo as reacções dos austríacos, para eles teve um gostinho a vitória. No entanto, como tudo ficou em aberto para a última jornada e, ao contrário do que os indefectíveis do cliché já afirmaram, ainda não temos de “sacar da calculadora”, o empate teve o sabor a… empate. É uma espécie de tofu futebolístico, neutro, suave. Ninguém fica com vontade de apanhar uma bebedeira para festejar ou de beber para esquecer a desilusão. Com um empate apetece beber com moderação, de preferência um filosófico copo de vinho, meditando sobre a existência, a inexplicável omnipresença de Ricardo Carvalho ou o que terá dito Ricardo Quaresma ao árbitro para ver o cartão amarelo.

Até este Europeu Fernando Santos ainda não tinha empatado nenhum jogo com a selecção. Desde que o torneio começou, dois empates. Foi como se os jogos anteriores tivessem sido um tirocínio para chegar à fórmula infalível para o empate. É uma tarefa difícil: exige concentração absoluta para acertarmos invariavelmente nos postes ou nas pernas dos adversários, substituições tardias, Éder. A vantagem é que descobrimos um ponto de equilíbrio a meio caminho entre a depressão e a euforia, uma aurea mediocritas que nos poupa à exibição sempre lamentável de celebrações insensatas e à não menos lamentável exibição precoce de um desespero injustificado.

Eis a prova de que o empate é o mais civilizado dos resultados: reprime a selvajaria dos festejos e congela a fúria provocada pelas derrotas. Graças à generosidade de meios das nossas televisões, vi como os nossos compatriotas, aglomerados em praças e de olhares suplicantes cravados no altar do ecrã gigante, regressaram a casa introspectivos como adeptos de xadrez. Surpreendentemente, conseguiam expor o raciocínio sem que fossem interrompidos por companheiros emocional e etilicamente alterados. Mais uns empates e estes directos televisivos ainda serão estudados nas aulas de filosofia.

Já agora

“Penso em francês, mas irrito-me em espanhol, não sei porquê”, disse o avançado francês Antoine Griezmann que, desde os treze anos, joga em Espanha. Ainda ninguém, dentro ou fora do relvado, dissera algo tão profundo. Na sua peculiar auto-biografia intelectual, o crítico George Steiner declarou-se igualmente nativo em inglês, francês e alemão. “Quase invariavelmente, sonho na língua em que falei nesse dia ou na língua que mais ouvi.” Mas em que língua se irritará Steiner? Depende: “mesmo em momentos de pânico ou choque, a língua que uso é contextual, é a da pessoa com quem falo ou do local em que me encontro”. Por isso, a dupla pertença de Griezmann – à língua que é a do país que representa e à língua do país em que cresceu e onde joga, à língua com que pensa e à língua com que se irrita – é muito relevante. Esta não é apenas uma questão linguística ou cultural. É também futebolística. Não há verdadeiramente estilos nacionais (a não ser que consideremos a nossa incapacidade de marcar golos uma característica identitária). Todas as equipas estão contaminadas seja pela experiência dos melhores jogadores que actuam fora dos respectivos campeonatos nacionais, seja pela circulação de ideias importadas pelos treinadores ou até pelo recrutamento tardio de atletas que nunca jogaram no país pelo qual jogam, como sucede com o lateral-esquerdo Raphaël Guerreiro, um dos nossos melhores. Nenhuma equipa é insular, nem mesmo a insular e diminuta Islândia. A retórica exaltada do nacionalismo sobrevive melhor no ambiente insalubre de algumas bancadas do que nos relvados. Enquanto alguns adeptos gritam sempre na mesma língua – o esperanto do ódio – os jogadores trazem as suas múltiplas experiências, as suas híbridas formas de expressão. Aceito que os jogadores portugueses pensem em francês, insultem em crioulo e até, se for mesmo necessário, falem em português. Peço-lhes apenas que, tendo a oportunidade, concretizem em alemão.