Ainda que possamos debater acerca da nossa política e dos políticos, decorre que há algo intrínseco a todo o movimento político. A decepção que causa naqueles que, de alguma forma, tiveram fé… É o fado do mundo político corromper-se enquanto se confirma. Vemos isso em Bolsonaro que, eleito para acabar com a corrupção e com os abusos do estado, entrou num condição de putrefação política e é, hoje, sinónimo de imprudência. Provou que o seu discurso estava certo acima de tudo, sendo a sua vez de o provar. Vemos isso com Marcelo que, por ser um homem respeitado, foi eleito para unir os portugueses, da esquerda à direita e, neste severo momento, não cumpriu, provando que os portugueses que o elegeram estavam certos ao querer união, segurança e liderança. Estavam certos no querer, errados na escolha.

Chogyam diria que temos que saltar de cabeça para a decepção, os nossos esforços na sua completude são medidos pelo seu tamanho. Visto deste ponto de vista, a decepção que os nossos líderes têm oferecido até pode ter sido uma boa prenda.

Possamos nós ver a importância dos líderes que escolhemos, além do fanatismo ideológico, especialmente aqueles que, por fanatismo, tecem grandes silogismos contra Trump pelas suas calinadas, mas se recusam a admitir que ele poderá ter razão no que toca às mentiras da China.  Aqueles que criticam Boris Johnson pelas medidas tardias, não olham para o prodígio Macron. E hoje, a esquerda moderada esquece a Suécia, porque já não convém lembrar.

Somos todos, em algum momento, arrastados pela ideologia e esquecemo-nos de avaliar o homem por detrás. Alguns foram levados a hastear bandeiras por Macron para derrotar a extrema direita, Sanchez e Costa foram a resposta à austeridade. Da mesma maneira, houve aqueles que foram atrás de Trump na luta contra o politicamente correto, Nigel contra o globalismo e Bolsonaro contra o comunismo. A esperança encheu o coração destes dois grupos e como sempre o mundo real é descolorido quando comparado ao mundo das ideias.

Se olharmos com profundidade vemos a diferença entre o fanatismo e a esperança. A esperança inferior,aquela que é unicamente assente na contraideologia, poderá tornar-nos fanáticos e, por isso, a esperança nem sempre é algo bom. A esperança de acabar com algo, seja o politicamente correto ou a austeridade, todos casos de campanhas quixotescas para dividir e conquistar.

E o mais interessante é que a nossa própria cultura nos incentiva na procura desenfreada dessa esperança, e é-nos apresentada como solução. Já todos nós caímos nela… O mais difícil é admitir que estamos a um passo do fanatismo, de forçar soluções, o ímpeto da ideologia, até a policiar o comportamento de outros. Nietzsche, que afirmava que é este o resultado do moralismo, talvez tivesse razão… são os ideólogos que pensam sobre como o mundo deveria ser que mais rapidamente ficam agarrados ao fanatismo quando vêem que o mundo se desviou da sua visão. Porque, mais do que ter a nossa visão de mundo e fanatismo na ideia, o mundo de hoje tem fanáticos na certeza de que a outra visão está errada. O vício da pregação está em nós, o arquétipo do salvador está enterrado no nosso ser mais inconsciente, cada um de nós espera o momento para dizer- alguma coisa. Para avisar o mundo dos seus pecados e da sua salvação.

De facto, todas as ideias são apartidárias à nascença, ficam depois tomadas pelo oportunismo de alguns seres que se forçam a estar dum lado da trincheira e não vêem que é possível perceber que há, em cada lado, o que elogiar e criticar. O ser humano estará irremediavelmente preso à idolatria. Substituímos os Deuses pela (nossa) razão, por alguns autores que a confirmam e políticos que a usam. E temos, no século XXI, a mitologia dos políticos e ativistas. A santa Greta, o profeta Al Gore, e dependendo do espectro, Bolsonaro o Rei David. É a capacidade de o ser humano idolatrar, que por definição é a deposição da esperança em pessoas, ou nas ideias de algumas pessoas, que leva aos seus maiores crimes, mesmo que no processo se sinta um benfeitor. Aquele que ama incondicionalmente e vê beleza divina nos passos do seu amante deseja que todos vejam essa beleza.

Não esqueçamos que todos os extremos alcançados pelo endeusamento de alguma ideologia, saída do mais brilhante uso da lógica, o estado nação, a raça e a igualdade são parentes nada distantes da inquisição. Estamos tão próximos de Nero e Tibério, como de Salazar e Estaline, e não tão longe de todos como gostaríamos de imaginar, quando não damos o mínimo de consideração com as outras ideias e atribuímos a divindade à nossa razão.

Não consigo ouvir alguém falar de nós, os bons, e deles, os maus, sem sentir o gosto a tirano aprisionado. Aprisionados pelos erros que cometemos no passado e não queremos voltar a cometer. E se alguns são óbvios e condenáveis à priori, como usar grupos específicos para crescer politicamente, outros são ainda pior, porque são puramente racionais e não têm nos seus inimigos uma cor ou um lugar, mas uma ideia e todos os que a partilham. Confio, indubitavelmente, mais em Diógenes que em Gandhi, porque a sabedoria dos simples é mais segura que as boutades da santidade. São estes que enquanto plantam a semente da esperança, do mundo que não vêm, quando levam a mão ao peito para gabar as virtudes das suas ideias, olham também com desdém para aqueles que não as entendem. Gabam os céus, a cruz, a europa, os mercados, a cultura nacional e podem ter certeza que, como a história mostrou, não desaprovam o sangue, porque não entendem, do alto da sua genialidade e bondade, que não aceitemos o seu mundo platônico.

E é sempre assim que começa, como no mundo que temos hoje do Trump e do Bolsonaro, em outros tempos Nicholau e Luís, que alguns idealizam um mundo diferente e proclamam a sua verdade, passando essa esperança incorruptível para os outros, não entendendo que não vivamos espelhados no seu arrebatamento e não participemos na histeria. Quando alguém que foi possuído por esse sentimento não sentir necessidade de o partilhar, ou implantar, é um alienígena ou um idiota. Vejamos os exemplos que dei e verá o mundo cheio de padres a pregar aos peixes. Não conseguem ver é que são ao mesmo tempo padres e peixes, dependendo do ângulo.

Coloca-se,então, a questão de se não haverá espaço para a esperança, não só por nós, mas também pelo optimismo da sociedade. Não podemos ter esperança num mundo melhor, sem ficar presos às amarras da fixação ideológica que nos levam ao tribalismo?