Peço que me permitam usar a famosa obra de José Saramago (Ensaio Sobre a Cegueira) como analogia sobre os dias que vivemos. Tempos caóticos, causados por uma pandemia que, aparentemente, nos deixou cegos e despertou tanto o melhor quanto o pior no que significa ser um humano. Uns ficaram cegos de vez, outros míopes, mas os piores são aqueles que veem perfeitamente e fingem a cegueira (como a mulher do médico) e sobre esses já Dante Alighieri perdera algum tempo a escrever no passado.

Dizia-se, no início da pandemia, que a situação iria despertar em nós um humanismo nunca antes presenciado. De facto, viram-se ações de total abnegação onde se ajudava o próximo tanto em dinheiro, em espécie e até psicologicamente. Aplaudiram-se os profissionais de saúde e por todo o lado se ouviam mensagens de apoio e de encorajamento – ações que estavam em voga na primeira vaga, pois, como é sabido, nesta segunda vaga já não existe gente necessitada. No entanto, aquilo que ninguém esperava, seria a ideia de que o Sr. Covid mostrasse também a parte que os humanos tanto negam e escondem. Ficou provado que a natureza humana não obedece nem às teorias de Rousseau (de que o Homem nasce bom, mas a vil sociedade o corrompe) ,nem às de Maquiavel (o Homem nasce mau, mas é bom quando lhe convém), podendo estar, na verdade, sujeita à influência de ambas.

Vimos o ódio crescer nas ruas dos EUA – com protestos sanguinolentos e comentários explosivos -, vimos os extremistas, em Portugal, aproveitarem-se da situação, como animais necrófagos, para ganharem um pouco de protagonismo, vimos a violência doméstica crescer exponencialmente, vimos o presidente do maior país da América do Sul a dizer que os seus concidadãos não apanhavam Covid-19 porque tomavam banho no esgoto, vimos o último ditador da Europa a “vencer” as eleições legislativas com 80% dos votos (levando a intensas manifestações e desaparecimentos “misteriosos”) e por aí vai.

Mas apesar de tudo isto, o que mais me surpreendeu foi o crescimento de teorias da conspiração paranoicas e dignas de um ataque coletivo de esquizofrenia – creio que nem H.P. Lovecraft seria capaz de imaginar tais bizarrices. Sempre existiram, é certo, mas nunca com tamanho peso e poder de conversão. Teorias como a do QAnon, que apregoa que uma organização maléfica, liderada por atores de Hollywood e por Bill Gates, rapta e trafica criancinhas para os seus membros poderem obter a eterna juventude e, não ficando por aí, querem usar as máscaras para controlar as massas que nem carneiros (dizem os espíritos livres que passam os seus dias a alimentarem-se de reality shows) e querem utilizar a vacina contra o coronavírus para implantarem microchips e modificarem o ADN das pessoas, tendo como antagonista ninguém menos que Donald Trump (esse herói mítico que poderia ter saído da mente de Stan Lee). Toda esta adorável história – que mais parece ter saído de um pesadelo de um Franz Kafka após ter consumido drogas pesadas – tem tantos seguidores, que nas últimas eleições dos Estados Unidos da América, Marjorie Taylor Greene (fervorosa devota da já referida fábula) foi eleita congressista. Sim, o pessoal que usa tachos na cabeça para para impedir os E.T.s de ler os pensamentos, está a ganhar poder. É com um lúgubre interesse que observo como um tema ideal para um sketch dos Monty Python se torna horripilante quando trazido para a realidade.

Pois escandalizem-se os mais ingénuos, tais ideias chegaram à nossa pátria! Perto do fim do mês de Outubro houve uma manifestação antimáscara, antivacina, antissistema opressor – e, acima de tudo, pró-Covid – onde se ouviam, entre os gritos de liberdade e de defesa da verdade, alguns murmúrios baixinhos sobre o Bill Gates, alterações de ADN e os ressuscitados Illuminati. Ainda um pouco antes, um cidadão de bem interpelara corajosamente o Presidente da República mostrando-lhe que sabe que o “Dr. Marcelo está a ser controlado pelos Illuminati” e que o Bill Gates nos quer transformar a todos em gado, ficando tudo registado em vídeo e disponível no YouTube.

Parece que a cegueira começou a alastrar, o ódio ganhou um novo eugenismo onde se apoiar e o absurdo é visto como um caminho válido. Algo positivo e que zela pela nossa saúde, como o uso de máscaras e a descoberta de uma vacina, é visto como o mais vil dos planos, quando essas mesmas vozes se encontram alienadas – basta ver as reações dessas mesmas pessoas ao estado de saúde de Cristiano Ronaldo, enquanto os seus vizinhos morrem com a mesma doença e sofrem com os resultados da crise económica.

Não se devem esquecer ideias igualmente descabidas, como o Grande Salto em Frente e o surgimento do Terceiro Reich, assim como as suas nefastas consequências. Cabe-nos a nós manter os olhos bem abertos, guardando e segurando o maior garante da cordura e dos direitos humanos: a democracia.