Crónica

Episódios da política portuguesa /premium

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Uma conversa em Belém. Outra na São Caetano à Lapa. E um telefonema por causa da Web Summit. Não se assustem: qualquer semelhança entres estes episódios e a realidade é pura coincidência.

Primeiro episódio.

No fim de Julho, Pedro Duarte entra no gabinete do Presidente da República em Belém. A meio da conversa, o Presidente afirma: “Pedro você devia avançar para a liderança do PSD. O Rio é uma desgraça, isto assim não vai lá. O homem é incapaz de fazer oposição. Vai dar a maioria absoluta ao Costa.”

Pedro Duarte respondeu ainda meio surpreendido: “Mas Presidente só passaram seis meses desde a eleição do Rui Rio e na altura não me candidatei por razões profissionais.”

“Pedro já ninguém se lembra disso. A memória das pessoas é curta. Diga que está disponível. As pessoas gostam que se mostre disponibilidade mesmo prejudicando a vida profissional. Além disso, afasta a atenção da imprensa em relação ao novo partido do Santana. Olhe, dê uma entrevista ao Expresso.“
Pedro Duarte abandona Belém convencido pelos argumentos de Marcelo Rebelo de Sousa. Mal o novo ‘candidato’ à liderança do PSD sai do seu gabinete, o Presidente chama o Chefe da Casa Civil: “Fernando, este tipo está doido. Veja lá que se quer candidatar à liderança do PSD e vai dar uma entrevista ao Expresso. Ligue-me à Ângela. Tenho que lhe dizer que estou preocupado com a unidade do PSD e que esta não é a altura para provocar divisões.“

Segundo episódio.

Rui Rio conversa com o seu número dois anónimo. “O Lopes está maluco. Aquilo do partido novo não vai a lado nenhum. Vai ter só alguns votos na Corte de Lisboa. No resto do país nada. Nem um deputado vai eleger.”

Responde o número dois anónimo: ”Rui, eu seria mais cauteloso. O Santana tem mel. Nas eleições internas partiu quase com um ano de atraso em relação a nós e mesmo assim chegou aos 45%. Cuidado. Devias ter mantido o acordo com ele.”

Rio eleva a voz: “Qual acordo? Não houve acordo. Eu fui eleito Presidente. Eu é que mando. Avisei logo que as coisas iam mudar. Eu sei lidar com esses sulistas, elitistas e liberais. Sei que estou a citar o Menezes mas ele nisso tem razão. Temos que pôr aqueles lisboetas na ordem.”

O número dois anónimo não desistiu: “Olha e se o Santana faz um acordo com o Rui Moreira. O Santana apresenta listas em Lisboa e no sul, e o Moreira aqui no Porto e no norte. Podem tirar mais de 5% ao PSD. Se um novo partido ultrapassa os 5% e o PS ganha com mais de 10 pontos em relação a nós, não te aguentas à frente do partido.”

Terceiro episódio.

António Costa conversa ao telefone com Paddy Cosgrove, organizador do Web Summit em Portugal. “Olá Paddy como estás? Ouve, a Marine Le Pen não pode vir ao Web Summit. Em ano de eleições, não dá. Se ela vem, não posso ir lá falar.”

O pobre do Paddy fica aflito: “Mas senhor PM, o Web Summit é uma iniciativa pluralista. Devemos ouvir opiniões diferentes. Eu não concordo com as ideias da senhora Le Pen, mas devemos confrontá-la. A senhora Le Pen participa em conferências em França e na Europa.”

António Costa não quer ser duro com o rapaz, com o qual simpatiza: “Paddy, não leves isto a mal. Também sou um pluralista e defendo a liberdade de opinião. A melhor maneira de combater as ideias da Len Pen não é através da censura. Concordo contigo Paddy. Mas o Bloco de Esquerda e o PCP estão a fazer barulho por causa disto e não se vão calar. Não quero ter mais problemas com eles. Já andam cheios de ciúmes do líder do PSD. Estão com medo que me alie ao Rio. Além disso, dizem que o Estado português financia o Web Summit e o dinheiro dos contribuintes não deve pagar a participação de uma pessoa como a Le Pen.”

Paddy ainda tenta resistir: “Senhor PM eu agradeço muito o apoio do governo e em particular o seu apoio, o que é muito importante para nós, mas na Irlanda o governo também apoia algumas iniciativas e não diz aos organizadores quem deve ser, ou não ser, convidado.”

Mas Costa usa todo o seu charme: “Paddy sabes que gosto de ti e quero apoiar o Web Summit, uma iniciativa fundamental para Portugal. Mas não posso ter problemas políticos, sobretudo em ano de eleições. Vais ter todo o nosso apoio e vais brilhar outra vez. Em Portugal tratam-te como uma estrela. Qual é o outro país que te trata assim? Desconfio que nem a Irlanda.”

Por fim, Paddy desiste: “Okay senhor PM. Vou retirar o convite à senhora Le Pen. Não se fala mais do assunto. E conto com o senhor PM no evento.”

Feliz, Costa termina a conversa com um pedido e uma pergunta: “Paddy és um tipo impecável. Sabia que podia contar contigo e conta comigo para tudo o que precisares. Mas olha, não vale a pena dizer que te pedi para retirares o convite à Le Pen. Só ia criar mais barulho e a Web Summit é uma iniciativa independente. Tu é que decides. Olha, só mais uma coisa. Convidaste o Presidente da República?”

“Sim, sim convidei. Aliás o senhor Presidente disse-me logo o ano passado que também vinha este ano.”
Costa aceita com resignação: ”Já calculava. Ele vai a todos os sítios onde eu vou. Paddy mesmo antes do início do Web Summit, vens aqui a São Bento almoçar comigo. Temos que combinar bem a minha participação de modo a ter o maior impacto possível.”

“Eu sei senhor PM, é ano de eleições.“

“É isso mesmo Paddy. Estás a ver como percebes.”

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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