– Mãe, vou fugir de casa.

Olhou para o filho com impaciência e despachou-o com um gesto silencioso e incisivo, por estar online, em plena reunião de trabalho.

– Mãe, eu preciso de fugir!

E bateu com a porta do quarto onde a mãe estava na sua call profissional que, por sinal, não podia abandonar. Preocupada, ausentou-se por breves instantes, só para se certificar de que a porta da rua estava trancada e as chaves bem guardadas.  Como estava tudo em ordem, voltou a concentrar-se no trabalho. Só quando terminou a reunião lhe foi possível ir atrás do filho de 10 anos.

Não o encontrou e voltou a procurar. Foi então que viu a porta da casa de banho trancada. O filho emboscara-se lá dentro e levara com ele tudo o que achava que precisava para os seus dias de fuga: roupa, ténis, comida, um cobertor, a almofada, dois livros e uma lanterna. Depois de um braço de ferro, mais um na sequência de tantos outros que tem havido nesta família (e em todas as famílias do mundo em situação de confinamento!), o filho acedeu, destrancou a porta e saiu. Fuga abortada.

Não é anedota, não é um episódio da saga “O Menino Nicolau”, e também não exagero em nada, muito pelo contrário. Aconteceu na semana passada, numa família de seis, casal e quatro filhos, todos a viver numa casa que não é grande nem pequena, onde ainda não falta nada essencial, mas onde todos estão a tentar encontrar o seu espaço vital. Cada filho está numa fase desigual de evolução e cada um frequenta uma escola diferente, em ciclos distintos, com rotinas e exigências próprias que se têm revelado um quebra-cabeças diário.

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Noutra família, esta com 5 pessoas, também há filhos nos primeiros ciclos que assistem a aulas online e cumprem horários razoavelmente longos, com brevíssimas pausas para descansar. A mãe e o pai trabalham nos seus computadores porque têm a felicidade de não terem ficado sem emprego e, muito pelo contrário, o fluxo do seu trabalho acentuou-se, mas têm que dar apoio aos filhos, todos eles ainda muito pequenos.

Nesta e em todas as casas onde há pais e filhos – e a situação piora um pouco quando os filhos só têm em casa um dos pais ou, mais dramático ainda, nos lares e instituições onde as crianças e jovens nem sequer estão com os pais porque foram institucionalizados ou, numa realidade mais extrema, quando moram em bairros degradados, em situações que já eram miseráveis antes de qualquer pandemia – dizia eu que nesta e noutras casas, a realidade-real está longe daquilo que seria ideal para continuar a ir à escola, conseguir estudar e aprender.

– Mãeeeee! Páiiiiiii! Já fiz!!!

O grito é lancinante, também vem da casa de banho, e ouviu-se de certeza em todo o prédio. Os colegas de trabalho riem sem som porque ouvem os berros da criança por estarem a trabalhar em computadores ligados em rede. Todos sabem que quando estamos coordenados através de um ecrã só quem fala é que pode ter o seu microfone ligado. Era o caso. O filho gritou no preciso momento em que o computador de casa estava ‘on’. E lá foi o pai acudir à imperiosa chamada do filho mais pequeno, que não parava de berrar.

Podiam ser cenas cómicas, se não fossem meio trágicas. Se tudo isto que estamos a viver não fosse tão difícil de gerir hora a hora, dia após dia, noite após noite, uma semana atrás da outra. Atender a todos os filhos e a todas as suas necessidades, fisiológicas, educativas, recreativas e outras, tudo ao mesmo tempo, mantendo a casa em ordem, a sanidade mental, a compostura profissional e, até, a criatividade, é obra. E os exemplos sucedem-se, agravados, como disse, nos contextos mais vulneráveis onde nem sequer há pai e mãe em casa e, muito menos, dinheiro para comer, quanto mais computadores, tablets, smartphones ou écrãs para cada um se manter ligado à escola e à comunidade educativa.

Num tempo de distanciamento social imperativo, em que cada família é uma nação e cada caso um caso, muitas instituições de ensino estão a conseguir reorganizar-se de forma a manter as crianças e os jovens motivados e assíduos, atentos e dinâmicos, mas em muitas outras escolas e colégios vive-se uma utopia feita de exageros e estratégias absolutamente falíveis. Isto, claro, sem falar da sobreposição de horários, pela qual ninguém pode ser culpabilizado, nem do grau de exigência profissional dos que, insisto, têm a sorte de poder continuar a trabalhar a partir de casa.

Quem está a conseguir calibrar tudo isto com razoável êxito são os que conseguem estabelecer e cumprir rotinas e horários com sensibilidade e bom-senso. Sublinho o bom-senso. Parece um critério vago, muito subjetivo, e de facto é. Mas é o que permite uma afinação permanente, um ajustamento à realidade-real de cada pessoa, no seu contexto pessoal, profissional e familiar.

Não basta continuar a dar aulas e estabelecer trabalhos de casa. Tornou-se imperativo providenciar um conjunto de apoios efetivos, assim como dar tempo ao tempo e indicar quais as ferramentas mais necessárias para ajudar a viver neste ‘recolher obrigatório’. De que adianta estabelecer horários para as aulas e evoluir nas matérias se estas não forem assimiladas pelos alunos?

Sei de escolas e colégios que apostam em preencher milimetricamente o tempo das crianças julgando que estas serão capazes de acompanhar o ritmo que lhes é imposto. Penso até que quem age nesta lógica, age por bem e certamente motivado para ajudar os pais a terem os filhos ‘entretidos’. Acontece que a sobrecarga não funciona. É uma ilusão.

Por tudo isto, de que falamos quando falamos de bom-senso para produzir ou adquirir conhecimentos online? Quando pretendemos transmitir matérias e consolidar aprendizagens sem a presença física de professores e pares? Quando queremos manter a motivação e o envolvimento de alunos e professores, pais e educadores, estando todos ‘esticados’ por muitos lados?

O bom-senso é, por definição, subjetivo, pois o que faz sentido para uns chega a ser bizarro para outros, mas há pontos de equilíbrio e há situações que aumentam a eficácia e a produtividade. Talvez o bom-senso se torne mais evidente quando contrastado com a falta dele.

Dou exemplos concretos, reais: os colégios e escolas que assumem que as suas crianças do pré-escolar, de 3, 4 e 5 anos se ligam à net e se mantêm ligadas e atentas nos horários estabelecidos estão a potenciar a insanidade parental. Existem escolas e colégios que estão a fazer isto, acreditando que é uma estratégia eficaz. Talvez seja aplicável a pais de filhos únicos, ou até a casais em que um dos dois se pode dar ao luxo de ficar exclusivamente dedicado à educação dos filhos. Mesmo assim, duvido que seja possível acompanhar mais do que um filho na sua aprendizagem quotidiana, em modo remoto, com horários tão sobrecarregados.

Não vale a pena ficar a enunciar casos, porque esta realidade está a ser experimentada diariamente pela esmagadora maioria de famílias com filhos pequenos, ainda sem autonomia e com pouca capacidade para perceber que a escola passou a ser um ecrã que não dá desenhos animados, mas ao qual têm que estar ligadas durante muito tempo ao longo do dia, todos os dias. As crianças desinteressam-se rapidamente e aquilo que algumas escolas programam para cerca de uma hora, nunca deveria ultrapassar os quinze minutos seguidos. E têm que fazer pausas, muitas pausas para deixar as crianças encontrar o seu equilíbrio e, se possível, voltar ao seu ritmo neste novo enquadramento familiar em que estão todos em casa ao mesmo tempo, mas cada um a fazer as suas coisas.

Os adolescentes e os universitários têm outros níveis de atenção, mas nos primeiros ciclos é impensável contar com o seu foco. Hoje escrevo a pensar nos primeiros anos, por serem os mais difíceis de conjugar em família, dada a exigência própria de cada criança, mas também porque hoje mesmo inauguramos um ciclo de conversas sobre o futuro da Educação, partindo do presente e da atual incerteza que nos atravessa a todos. A partir das 18:30 estaremos em direto a falar de boas práticas educativas, a dar a conhecer exemplos concretos de estratégias que estão a resultar, mas também a tentar perceber melhor o que não está a funcionar.

Não teremos tempo para falar de tudo aquilo que nos interpela a todos, certamente. Também não será possível ter a participação da audiência, porque estaremos cada um em sua casa, mas vale a pena aproveitarmos o início das férias da Páscoa para falar com espírito construtivo de um tempo em que nada é como era e em que a realidade ultrapassa a ficção. No melhor e no pior dos sentidos.