A vida é feita de escolhas, muitas vezes difíceis. Aparentemente escolher a saúde e a vida deveria ser muito fácil, até intuitivo, mas sabemos que não é bem assim.

Sabemos, desde há décadas, que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em Portugal; sabemos também que a maioria destas mortes podem ser prevenidas e que são muitas vezes precedidas de eventos cardiovasculares não fatais, mas frequentemente geradores de incapacidade e redutores da qualidade de vida.

Nestes tempos excepcionais que vivemos, a questão que se coloca é: como proteger os doentes de risco da Covid-19 e, simultaneamente, continuar a lutar contra as doenças cardiovasculares e as suas consequências? Sabemos que não há respostas fáceis, mas há um conjunto de premissas e comportamentos que podem seguramente ajudar.

Logo que o novo coronavírus atingiu o continente europeu, o discurso dos media foi completamente capturado pelo tema: todos os dias ouvimos o número de novos infetados, de novos surtos, de novos desafios, num discurso que inevitavelmente gera receios e dúvidas, sobretudo entre os mais frágeis, precisamente aqueles que constituem os grupos de maior risco para as doenças cardiovasculares.

Desde que foi decretado o confinamento, que uma parte substancial e crítica da nossa população se encontra física e emocionalmente confinada, nos lares ou em suas casas, temendo o dia em que o vírus chegará e, inevitavelmente, lhes causará, primeiro, sofrimento e, depois, a morte. Estas pessoas temem o vírus, mas também qualquer interação com o sistema de saúde, muitas vezes faltando a consultas (o que pode levar à não renovação da medicação crónica) e não recorrendo ao serviço de urgência perante episódios agudos de descompensação, o que só contribui para agravar o seu estado de saúde e para que possam contribuir para o aumento da mortalidade não-Covid a que se tem vindo a assistir.

Neste Dia Mundial do Coração aqui ficam alguns conselhos úteis para os muitos doentes de risco cardiovascular:

  • pratique atividade física regular: caminhe diariamente pelo menos 30 minutos ao ritmo mais rápido que conseguir (de modo a ficar cansado – mas não exausto – e transpirado no final da caminhada). Faça-o sozinho ou com alguém que viva em sua casa, preferindo trajetos pouco frequentados e respeitando sempre as normas de proteção individual e distanciamento social;
  • controle o seu peso: a maior parte dos doentes cardiovasculares ganharam peso durante a pandemia porque comem o mesmo ou mais do que antes e fazem menos atividade física. Reduza a ingestão de fruta, pão, arroz, batatas e massa (pois têm muitas calorias e hidratos de carbono), elimine os doces e privilegie os legumes e vegetais, fazendo muitas refeições por dia, mas comendo pouco a cada refeição;
  • cumpra diariamente toda a sua medicação e, quando esta estiver a terminar, fale com o seu médico de família para a sua renovação atempada. Nunca deixe acabar a medicação crónica e não faça alterações da medicação sem falar com o seu médico assistente;
  • se tiver alguns sintomas de novo (dor no peito, sensação de arritmia, falta de ar, etc.), ligue 112 ou para o SNS 24 e siga as instruções que lhe derem;
  • não falte às consultas que tiver agendadas. Se o controlo do seu risco cardiovascular foi sempre importante, é ainda mais importante em tempos de pandemia;
  • evite comportamentos ansiosos ou depressivos. É natural que se sinta preocupado com a pandemia, mas a ansiedade e a depressão são inimigos da saúde cardiovascular. Promova pensamentos e atitudes positivas (a começar pela alimentação equilibrada e a prática regular de exercício físico), interaja com os seus familiares e amigos (presencialmente, cumprindo as regras sanitárias, ou à distância), desenvolva novos hobbies saudáveis, evite estar sempre a ver e ouvir coisas negativas na televisão ou nas redes sociais;
  • controle regularmente os seus fatores de risco: peso, tensão arterial, colesterol, açúcar no sangue. Se algum destes valores estiver fora dos valores adequados para si, consulte o seu médico assistente no sentido de lhe ser reforçada a medicação, ou corrigidos alguns erros de estilo de vida.

Em conclusão, a pandemia de Covid deve ser um tempo de reforço da saúde cardiovascular e não um tempo de medo ou de aversão aos cuidados de saúde. Entre a Covid e o risco cardiovascular, saibamos diariamente fazer a escolha certa: saúde!