Eu acho que, “bem lá no fundo”, todos queremos mudar. Algumas coisas. Pelo menos. Porque todos, “bem lá no fundo”, temos noção de inúmeros pequenos-nada que se intrometeram na nossa vida. E a atrapalham. E se “enovelam”; uns nos outros. E a fazem ser “mais do mesmo”. Todos os dias.

Eu acho que, só depois de desabarem sobre os sonhos que não ousámos nem sequer eleger, percebemos, bem lá no fundo”, queescolher é renunciar. A não ter tudo. E que – à custa das escolhas prematuras que fizemos (ou daquelas que esperámos que a vida, atenciosamente, nos trouxesse) – quando, finalmente, nos sentimos habilitados para o fazer, cedo se tornou “tarde” para escolher. “Do princípio”. E que, à conta disso, sentimos que não temos a vida que queríamos. Nem as pessoas que, “clandestinamente”, desejámos. Nem a coragem para admitir “as nossas culpas” em tudo isso. Tal é o ror de vezes que, à luz dos nossos olhos, nos sentimos muitíssimo mais “vítimas” que co-responsáveis (ou, até, culpados) pelas escolhas que nos condicionam. E não nos “deixam” escolher.

Eu acho que, “bem lá no fundo”, todos queremos mudar. Quase tudo. Mas sem mexer em quase nada. É por isso que, quando um ano termina, mudar representa só uma lista de pequenos desejos. Como perder peso. Ir ao ginásio mais vezes. Ou viajar. Por exemplo. Como se, em relação a quaisquer transformações (que não sejam, unicamente, pequenos desejos), muito depressa se tenha tornado tarde demais.

É verdade que nunca se recomeça “do zero”. De novo. E que a transformação humana é uma escolha.  Diária. Quase ao minuto. Sem tréguas. Que exige humildade. Alguma capacidade de “sofrimento”. Determinação. Respeito por nós. Brio. E pessoas. Sobretudo, pessoas. Para quem as nossas transformações valham a pena. Mudar, muda-se com pequenos desejos. Pedidos a “incertos”. Transformar, transforma-nos com escolhas. Assumidas para nós. Em nome do bem que alguém que nos queira.

É por isso que, ao chegar um novo ano, não se fique pelos pequenos desejos. Ouse. E escolha! Escolha. E escolha. Hoje, no dia em que a vacina para o covid 19 celebra a vitória do conhecimento e da ciência, como se os rituais e a sua simbologia não fossem, igualmente, sabedoria e conhecimento (e, já agora, a própria vacina não representasse, simbolicamente — ela, também — aquilo de que somos capazes quando nos unimos contra o mal), dê às suas escolhas o valor duma segunda oportunidade. Daquilo que nos torna “donos de nós”. Pela primeira vez. Tão importante como o solstício de Inverno, que celebra, a noite mais longa do ano e o início da vitória da luz. Como o Natal, que celebra o advento até ao amor. O Carnaval, que celebra o “exorcismo” das tréguas, do frio, do escuro e da morte às mãos da vida. Ou como a Páscoa que, como o equinócio da Primavera, celebra a ressurreição. Por tudo isso, escolha! Da escolha nasce a transformação. A luz. O amor. E vida. Escolher nunca é tarde demais. Feliz Ano Novo!