Durante a campanha eleitoral para as eleições gerais de 10 de novembro, Pedro Sánchez pediu aos eleitores que falassem claro. Os resultados eleitorais mostraram que o eleitorado lhe fez a vontade, embora pareça questionável que, no calor da vitória, seja essa a interpretação do líder do PSOE.

Assim, acima de tudo, os eleitores deixaram claro que querem manter a unidade territorial de Espanha. Daí a derrota do independentismo catalão. Uma humilhação cravada no coração separatista por conta da vitória do constitucionalista PSC-PSOE na capital da Catalunha. Uma derrota que, no entanto, acabou por ter efeitos colaterais ao contribuir para alimentar o populismo cultural ou identitário que explica a meteórica ascensão do VOX.

Na realidade, Santiago Abascal soube aproveitar as condições objetivas que os nacionalistas catalães lhe proporcionaram. Os mais de 3 milhões e 600 mil votos e os 52 deputados não fazem do VOX apenas a terceira força partidária com mais representação na câmara baixa. Evidenciam que o populismo sabe cavalgar a onda do descontentamento social. Basta que os partidos do sistema e a inépcia do Governo, como ficou patente na questão da exumação de Franco, lhe concedam espaço para a afirmação.

Aliás, já tinha sido assim há alguns anos quando Pablo Iglésias criou o Podemos, capitalizando o mediatismo e fazendo-se arauto do populismo dito de esquerda. Um populismo que, na verdade, começou por ser antissistema para depois assumir a forma de luta desenfreada pelo direito a fazer parte do Governo.

Também neste caso os eleitores voltaram a falar claro, penalizando o Podemos. Os atuais 35 deputados mostram que já vão longe – e sem recuperação possível no curto prazo – os tempos em que a mensagem populista proveniente da Universidade Complutense de Madrid colhia junto do eleitorado. Os espanhóis não aceitaram as lutas pelo poder dentro do partido, mas sobretudo a forma interesseira como o Podemos procurou abandonar a via antissistema, assente na denúncia da casta, para manifestar o desejo quase obsessivo de integrar essa mesma casta.

Outro exemplo de que os espanhóis falaram claro, prende-se com o quase desaparecimento do Ciudadanos. Rivera, tal como Cristas em Portugal, despediu-se da chefia do partido na noite eleitoral. Uma saída pela porta pequena, depois de ter sonhado muito alto, sem ter falado suficientemente claro. Ao fim de tantos atos eleitorais num curto espaço de tempo, os cidadãos fartaram-se da indefinição de quem, pelo menos na designação, dizia representá-los. Arrimadas vai, muito provavelmente, ter muito trabalho e pouco dinheiro para arrumar a casa.

Finalmente, a noite eleitoral, para além da magra vitória socialista e da forte subida de um PP em fase de renovação, também deixou claro que há que tomar na devida conta a presença de um tão elevado número de representantes de partidos nacionalistas e regionalistas no Parlamento.

Ora, para não trair o seu eleitorado, Sánchez sabe que está impedido de se coligar ou aceitar o apoio, ainda que através da abstenção, dos partidos independentistas. Resta-lhe, portanto, a única solução que devolverá a estabilidade governativa a Espanha. Assim, mesmo contra vontade, terá de mostrar disponibilidade para uma coligação com o PP e aceitar negociar tendo em conta que está a perder votos e que o PP ainda tem presente a travessia do deserto. Por isso, Pablo Casado não se mostrará disponível para o conhecido «abraço de urso» que devolveria o PP à crise de que acaba de sair.

Um cenário que não pressupõe facilidades, mas que decorre da necessidade. Ao fim de cinco eleições em quatro anos, o interesse de Espanha terá de falar mais alto do que as agendas partidárias e pessoais.

Tempos de crise exigem soluções extraordinárias. O Bloco Central é, de momento, a única saída para manter a unidade territorial de Espanha, controlar o avanço do populismo e, quando a poeira revolucionária e populista começar a assentar, repensar, com equilíbrio, a questão das autonomias regionais. Depois, a médio prazo, cada partido seguirá o seu caminho próprio.