Celebram-se este Domingo as quartas eleições legislativas espanholas em quatro anos (!). Nas primerias ganhou o PP de Rajoy, mas ambição do Ciudadanos e o “no es no” do PSOE de Pedro Sánchez levou o país a novas eleições. Nessas, voltou a ganhar o PP de Rajoy aumentando a sua vantagem face aos socialistas, e lá conseguiu formar Governo com o apoio parlamentar dos liberais. Pelo meio, o PSOE reelege Pedro Sánchez como Secretário Geral e remete uma mais centrista Susana Dáz para a caderneta dos derrotados.

A novela política espanhola continuou e no Verão de 2018, o PSOE, na sequência da sentença judicial (condenatória) do caso Gürtel – um escândalo de corrupção que envolveu o PP – juntamente com o agora (Unidas) Podemos mais os vários partidos independentistas e nacionalistas, aprovaram uma moção de censura e o Governo cai. No debate dessa moção de censura, Rajoy aproveitou para ir almoçar e reaparece no Congresso dos Deputados já no final. Com isto, o apupado de okupa Pedro Sánchez torna-se Presidente do Governo com o apoio de gente que viria a cobrar esse mesmo apoio meses mais tarde. E assim foi: numa tentativa de aprovação do Orçamento Geral do Estado, Pedro Sánchez percebeu que só teria o apoio dos independentistas e nacionalistas da Catalunha se se comprometesse a indultar os 13 (hoje) condenados catalães por tentativa de Golpe de Estado de 1 Outubro de 2017.

Ora, o Orçamento do PSOE/Unidas Podemos foi chumbado e país foi chamado a novas eleições em Abril deste ano. Desta vez o PSOE ganhou mas não conseguiu (ou melhor dito, não quis) formar Governo e provocou novas eleições. As deste Domingo. No meio de tudo isto, (felizmente) continuamos com o Orçamento do PP de Rajoy.

Escrito que está o contexto que nos trouxe até Novembro de 2019 há vários pontos a destacar. Primeiro, temos hoje novas lideranças, novos Partidos e novos(as) protagonistas. O PP rejuvenesceu, o Ciudadanos cresceu, o Podemos fez um rebranding  e hoje chama-se “Unidas Podemos” e perdeu um dos seus fundadores (Íñigo Errejón que formou um novo partido de extrema-esquerda: Más País), o PSOE radicalizou-se e o Vox apareceu de rompante.

Segundo, direitas e esquerdas estão hoje mais fragmentadas que nunca. Concordam em pouco ou nada, divergem em tudo, e competem pela melhor capa de jornal e pelo melhor soundbite. O ambiente político tornou-se de tal modo tóxico, que provavelmente não teremos uma solução de Governo depois de Domingo. Mas, foquemos este texto no que se passa à direita.

Se a partir do final dos anos 80 o PP de Fraga era a única alternativa à direita do PSOE, 30 anos depois essa alternativa dividiu-se em três: (do centro à direita) Ciudadanos, PP e Vox – uma espécia de produto do PSOE e do Unidas Podemos. Dos partidos independentistas e nacionalistas e não de uma divisão estrutural do PP.

O Vox é uma agremiação de pijos (betinhos em português) e ex-marxistas tatuados com ícones do comunismo pop do século XX como Ernesto Che Guevara. Uma aglomeração gente que consegue ser, dizer e (pensar) tudo e o seu contrário. Numa palavra, uma confusão de oportunistas que se reclamam defensores dos marginalizados, dos esquecidos e dos pobres coitados vítimas do multiculturalismo e da globalização. São uma espécie de Fidesz de Viktor Orbán em esteróides. Ulta-católicos, umas vezes (e para umas coisas) ultra-conservadores e ultra-liberais e provincianos. Mas serão de extrema-direita? Daquela extrema-direita fascista, nazi, racista, xenófoba, de bigode e com farda militar? Depende a quem perguntamos.

Para o PSOE e demais agremiações de inspiração bolivariana a resposta é clara: o Vox é de extrema-direita e todos os seus simpatizantes, votantes e eleitores são fascistas. Daqueles que a um estrangeiro e imigrante como eu a viver em Madrid, mandariam para um qualquer Tarrafal nas Canárias. O Vox, claro está, ganha tempo de antena e agradece à esquerda.

Em paralelo, para grande parte dos media de referência, o Vox também é fascista, perigoso, ultrapassado, saudosista e franquista. O Vox, de novo, agradece a publicidade.

Com isto, em 12 meses, um partido marginal, fundado por basco de barba com fetiche por cavalos em campos andaluzes, torna-se no quinto maior partido político espanhol podendo chegar ao pódio dos três primeiros este domingo e conseguir mais de 1/7 dos deputados do Congresso dos Deputados. Ora, à pergunta como foi possível, respondo com o que já escrevi: o Vox é um produto do PSOE e do Unidas Podemos; dos partidos independentistas e nacionalistas e não de uma divisão estrutural do PP. É uma reacção à contemporânea ditadura do políticamente correcto; à inaptiadão e falta de resposta dos partidos mainstream às tensões regionais na Catalunha; à falta de clareza e firmeza do PSOE à violência e à ditadura das ruas que se vive em Barcelona, San Sebástian, Bilbao ou Girona. Em suma, é o resultado do espaço vazio deixado pelo Unidas Podemos quando trocou as ruas e praças pelos cargos e instituições. Sim, não se enganem. O Vox não é mais do que o fenómeno actual que consegue juntar falangistas, ex-comunistas, gente comum desencantada com o PSOE e com o Unidas Podemos, fartos e cansados do politicamente correcto.

Ora, fui ler o programa do Vox, ouvi os vários debates entre os cinco maiores partidos e devo dizer que não há nada que se afaste mais do modelo de sociedade e país em que acredito do que o Vox, sobretudo em matéria de costumes ou temas ditos “sociais”. Mas sejamos sérios ou arriscamo-nos a cair do rídiculo dos lugares comuns do politicamente correcto: nem o Vox é de extrema-direita nem os seus votantes, como repete todos os dias o PSOE, são perigosos fascistas, franquistas, machistas e agressores de mulheres e gays. Tenho vários amigos e colegas de trabalho, gente educada e informada, que já votou Vox e prepara-se para voltar a fazer o mesmo Domingo.

Posto isto, o que fazer? Excluir o Vox do debate político? Ignorar a sua existência e ofender os seus eleitores? Gritar uma e outra vez “fascistas franquistas”? Criar uma espécie de muro higiénico entre “eles” e “nós”? Para muitos a melhor (e a única) resposta para o combate aos populismos é a sua exclusão do sistema. Eles agradecem. Para mim a razão do sucesso do Vox (e de partidos deste tipo como o Chega em Portugal) reside precisamente nesse facto: na sua tentativa de exclusão e nos discursos políticos sumários sobre os mesmos. Com isto, o PSOE e o EL PAIS  só abrem caminho ao partido de Santiago Abascal para que se vitimize, para que regimente as tropas e assuste os mais distraídos.

Em suma, ridicularizar o Vox e os seus votantes como se fossem caricaturas bafientas do século passado só promove o seu crescimento e a sua consolidação. Já vimos isso no Brasil de Bolsonaro, na América de Trump ou na Inglaterra profunda de Farage. A técnica da ofensa e dos rótulos fascista e nazi abre portas à vitimização destes partidos e só atrai resultados contrários. Queremos mesmo combater o populismo com as mesmas receitas que o criaram? Se a resposta é sim, e a bem de um ambiente político menos tóxico e mais sofisticado, há que normalizar a sua existência e integrá-los no sistema. Veremos se assim não se esfumarão em pouco tempo.