Um velho comentador e estadista inglês, morto vai para cem anos, dizia que as etiquetas são a maneira de os tagarelas se pouparem ao trabalho de pensar. Infelizmente a lição não fez escola. Mas deixou ocasionais herdeiros. O Vasco Pulido Valente, por exemplo, com quem, durante um jantar, ameacei usar uma catalogação “ideológica”, estilo: “Se eu me considerar social-democrata…” Ou “conservador”. Ou outra coisa qualquer, que não era esse o ponto. O ponto é que o Vasco me interrompeu com um olhar que misturava susto e repulsa. Acho que ele nem disse nada. Não precisava de dizer fosse o que fosse para eu perceber o que ele pensava das pessoas que se definem assim. Ou das pessoas que se definem, ponto. Etiquetar politicamente alguém já é pobrezinho (e o próprio verbo é horrível). Etiquetarmo-nos é bastante ridículo.

Em meu abono, noto que esse momento com o Vasco constituiu um raro deslize. Por acaso ou sensatez inata (aposto na sensatez inata), nunca fui dado a semelhantes exercícios. Assinei centenas ou milhares de crónicas e julgo que em nenhuma me considerei politicamente isto ou aquilo. Mais relevante, nem no recato da minha cabecinha sou capaz de o fazer. As opiniões que temos e partilhamos devem ser reacções a cada acontecimento ou circunstância, movidas pelo bom senso (no meu caso abençoadamente ilimitado) e não pela necessidade de amassar a realidade até que esta caiba no formulário que escolhemos adoptar. Se o conjunto de reacções nos enfia numa gaveta, tanto pior. Por mim, prefiro que não enfiem. Logo, não me sinto especialmente de direita. Não me sinto conservador. Não me sinto progressista. Não me sinto – Deus seja louvado – socialista. Não me sinto liberal. E sinto muito que outros se sintam, e que o sintam com inabalável certeza, e sobretudo que anunciem o sentimento à primeira oportunidade.

Embora não pareça, isto vem a propósito do que se passa na Iniciativa Liberal, cujo nome é um programa e cuja prática se divide em inúmeros programinhas. A benefício da clareza, informo que votei na IL em duas eleições legislativas e nas últimas presidenciais. Das três vezes, votei no partido ou no candidato que julguei o mal menor, ou a alternativa plausível aos desvarios que mandam em nós e nos desgraçam. Ou seja, votei numa esperança de oposição, que a IL acabou por realizar de modo intermitente. Ao que me dizem, e a evidência comprova, parte dos esforços oposicionistas da IL é gasta em renhidos debates internos acerca das credenciais dos grupinhos que a compõem. Pelos vistos, o “liberal” no nome implica uma competição para aferir do grau de pureza do “liberalismo” dos seus membros.

Sempre que não estão a denunciar o desastre da TAP ou a desvalorizar a destruição cometida a pretexto da Covid, os senhores da IL estão a decidir quem, dentre eles, é digno de ostentar a nobre designação de “liberal”. E quem é indigno. A decisão não é fácil. Na épica batalha que opõe “trumpistas”, “lulistas”, “bloquistas” com noções de economia, inimigos figadais do Chega, “franchises” dos Tories britânicos, parodiantes LGBT, pragmáticos, contabilistas, “austríacos”, admiradores de Trudeau e gente francamente decente, não se adivinha um vencedor óbvio. Principalmente, não se advinha um vencedor susceptível de arranjar tempo para se dedicar ao que convinha ser o grande objectivo da IL: combater o socialismo.

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Enquanto se consomem a estabelecer o que o liberalismo é e o que o liberalismo não pode ser, os senhores da IL desperdiçam energias fundamentais para expor a criminosa governação do PS. Enquanto traçam linhas vermelhas e desfilam com o folclore “identitário”, os senhores da IL esquecem-se que, se calhar por falta de oportunidade, o sr. Trump e o dr. Ventura não contribuíram com uma gota para a miséria em que nos afundamos. Enquanto aceitam jogar um jogo que o dr. Costa inventou com as regras que o dr. Costa impôs, os senhores da IL permitem por omissão que a devastação da democracia avance com uma rapidez que custa acompanhar.

Para evitar acusações de ingenuidade, não ignoro que a luta ideológica na IL seja só o verniz que recobre, e mal, a luta pelo poder num partido que o começou a desfrutar, a razoável escala, desde Janeiro. Porém, a “nuance” não interessa. A única coisa que interessa nestas minudências da política, e que é o critério que torna os demais secundários, é a liberdade. Sem liberdade, não haverá riqueza, justiça, segurança e o resto dos conceitos lindos e solenes de que apenas usufruímos se formos livres. E pelos quais suspiramos se não formos. Se se deixar de infantilidades, a IL pode representar uma excepção e um alívio, modesto e precioso, ao sufoco de um país conquistado pelo Estado e ao Estado conquistado por um gangue partidário. Em suma, ou a IL existe para defender o que importa ou é uma redundância existir.

Termino com um minúsculo episódio. Há meia dúzia de anos cheguei atrasado a um serão de conversa com um punhado de amigos e conhecidos, de que alguns desaguariam em membros da IL. A medição de liberalismo ia animada. Um dos convivas voltou-se para mim: “Alberto, Fulano diz-se liberal-social, Sicrana é objectivista. E tu?” “Eu sou hipocondríaco”, respondi. A IL devia experimentar: é melhor do que estar doente.