No mundo das startups, o estatuto de unicórnio vale ouro. Esse “chifre” corresponde a uma avaliação dourada que pode superar os mil milhões de dólares. Ainda recentemente a Feedzai foi apontada como um potencial animal deste tipo.

Mas, na minha opinião e na de muitos outros especialistas de renome, os unicórnios são bastante voláteis e raramente alcançam os resultados tangíveis que muitos esperam. Na verdade, devíamos centrar a nossa atenção não na criatura mitológica mas no animal real, o chamado coelho, cujo nome em inglês (Rabbit) denota, neste contexto, um “Real Actual Business Building Interesting Technology” – ou seja, algo como um “Negócio Factualmente Real que Cria Tecnologia Interessante”. O que aqui importa realçar é o termo “real”, no sentido de “receita real”. A avaliação de um unicórnio assenta exclusivamente no seu potencial, não na receita factualmente gerada. E, na realidade, muitos unicórnios da tecnologia, tão míticos como o animal epónimo, não chegam a atingir o seu potencial, fazendo-nos questionar se alguma vez existiram realmente.

No mundo da finança, empresas como a Square e a Stripe têm um modelo em que a receita assenta no volume de transações – é este o tipo de modelo que devemos procurar imitar e replicar. É esse o modelo que defendo na empresa que lidero, pelas seguintes razões: o que é um coelho, e por que razão têm estas criaturas mais possibilidades de singrar no universo das empresas FinTech?

Um coelho denota, como vimos, um “Negócio Factualmente Real que Cria Tecnologia Interessante”. Os coelhos podem não ter tanto glamour, sendo mais realistas e muito menos espampanantes, mas esta abordagem costuma dar frutos.

Os cinco principais atributos de um coelho são:

1) Um coelho constrói o seu negócio a um ritmo lento mas constante

2) Mantém as despesas frívolas e desnecessárias sob controlo

3) Minimiza os riscos em todos os aspetos do seu negócio

4) Traz mais-valias reais à sua indústria

5) Tem uma base de clientes real

Um bom exemplo de um coelho que tem andado a saltitar pelos prados de Silicon Valley há quase uma década é a Square, empresa especializada em soluções de pagamento. Embora exista há já algum tempo, a Square só abriu o seu capital em novembro do ano passado, com a cotação de 9 dólares por ação. As ações da empresa estão em alta e são atualmente negociadas a 11,94 dólares: o seu futuro parece brilhante. Mas o que fez a empresa para alcançar esta posição?

A Square cresceu de forma gradual e ponderada, oferecendo às empresas e aos consumidores um produto de que ambos necessitavam. A Square também pensou no futuro. A sua transição do plástico e do numerário para os pagamentos móveis preparou a empresa para um crescimento exponencial. Os seus produtos e tecnologias são úteis, transparentes, e a direção da empresa tem vindo a tomar decisões realistas – e francamente corretas – acerca da trajetória a seguir.

Outro coelho que se destaca na área das soluções de pagamento é a Stripe, uma empresa tecnológica irlandesa que desenvolveu um conjunto de APIs para que outras empresas possam oferecer aos seus consumidores uma forma simples de fazer pagamentos online. O produto preenche um vazio real e é muito fácil de utilizar. A Stripe tem também uma visão muito clara acerca do futuro da indústria em que se move. A empresa lançou recentemente um novo produto, chamado Stripe Atlas, que permite aos empresários estrangeiros realizar operações bancárias nos EUA com grande facilidade. Tal como a Square, a Stripe está a oferecer um produto e um serviço para os quais existe uma procura real, introduzindo-os de forma ponderada, realista e rentável. Podem não ter grande glamour, mas estes coelhos saíram da toca e conhecem um caminho seguro para o banco.

Ser um coelho na indústria FinTech é extremamente importante, uma vez que não há espaço para descuidos. A indústria lida com dinheiro, fraudes e questões verdadeiramente importantes que podem afetar a vida das pessoas. Se olharmos para a lista de unicórnios da CBInsights, percebemos imediatamente que muitas das empresas aí reunidas fornecem produtos ou serviços que estão longe de ser necessários. Será que eu conseguiria sobreviver sem acesso ao Snapchat, ao Uber ou à Airbnb? Sim. Podia não ser tão conveniente, mas a vida seguia em frente. O universo FinTech não pode dar-se a esse luxo: caso não consigam trazer mais-valias reais, adaptar-se rapidamente e responder às transformações da nossa indústria, as empresas não conseguem sobreviver.

Voltando aos unicórnios…

Tal como a própria criatura, a definição de unicórnio raia a mitologia. Muitas vezes, os unicórnios não produzem produtos reais, não têm um negócio real e/ou não alcançam resultados reais. Podem ser criaturas gigantes e mitológicas para as quais as pessoas gostam de olhar, mas com as quais não sabem muito bem o que fazer (Snapchat).

O cinco principais atributos de um unicórnio são:

1) O unicórnio cresce muito rapidamente

2) Na maior parte dos casos, está carregado de dinheiro proveniente de capitais de risco

3) A sua principal preocupação é alcançar massa crítica

4) Gasta dinheiro de forma leviana

5) Não é rentável

Muitos unicórnios socorrem-se de uma retórica própria dos políticos. Irrompem pelo palco adentro e prometem o impossível… o inimaginável… a solução para todos os nossos problemas! Mas até que ponto isto é verdade? Tomemos o exemplo da Theranos. Esta empresa, que fornece exames de sangue diretamente ao consumidor, recebeu uma avaliação de quase 9 mil milhões de dólares – a quintessência do estatuto de unicórnio. Em janeiro, porém, o Centro de Serviços Medicare e Medicaid (CMS) detetou graves problemas a nível do controlo de qualidade no laboratório da empresa, levantando dúvidas sobre a viabilidade do equipamento desenvolvido para a realização de testes de sangue domésticos. Em outubro do ano passado, o Wall Street Journal revelou que a Theranos não usa a sua própria tecnologia para realizar os testes oferecidos pela empresa.

Saber identificar um unicórnio ou um coelho é crucial para saber onde investir – seja tempo ou dinheiro. Nos tempos que correm, a propaganda costuma ser maior do que a realidade, e por norma é difícil distinguir uma da outra. Não deixe que um unicórnio se mascare de coelho. Esteja atento, mantenha o seu percurso, e afaste os chifres brilhantes do seu horizonte.

Nuno Sebastião é CEO da Feedzai