O sentimento de desamparo é a sensação mais antiga relacionada com o sentimento de insegurança e medo. Acontece quando o bebé receia cair do colo da mãe. Um bebé, para se sentir seguro, precisa de ser contido, abrigado nos braços da sua figura protetora. O bebé precisa de um ambiente cuidador que satisfaça as suas necessidades vitais de alimentação e conforto. Precisa que a mãe (ou uma figura substituta) traduza as suas angústias, para lhes poder fazer face e as superar. Quando tal não acontece, o sentimento de desproteção surge. Perante a falha nos cuidados, o bebé sente-se abandonado na e à sua angústia.

Quando ocorrem estas primeiras experiências de desalento, antecipamos que, no futuro, quando nos confrontarmos com situações emocionais similares de perda de pessoas estruturantes, a dor do sentimento de privação será vivida com maior intensidade devido à reativação das situações traumáticas primordiais.

Viver o desamparo é um acontecimento catastrófico para a identidade psíquica. Traz o medo da fuga debaixo dos pés e da queda. Nos gabinetes de consultas psicológicas, assistimos a como este núcleo traumático está presente na manifestação dos sentimentos de carência relatados aquando da representação do sofrimento. O maior sofrimento expressa–se pela vivência de não ter sido correspondido e nutrido afetivamente. Um ser pequeno, dependente dos cuidados dos outros, tendo a infelicidade de não ser bem segurado física e psicologicamente, corre o risco de tombar numa espiral vertiginosa.

É a sustentação por parte dos adultos cuidadores que encoraja a criança a dar os primeiros passos (mesmo com algum desequilíbrio inicial). Avança a explorar o mundo pelos próprios pés, experimentando o chão como o segundo território de sustentação. E, quanto melhor foi vivida a experiência de ser contido pelos braços e mãos quentes dos pais, mais ela se arrisca na exploração e arrisca passos maiores. Já na década de 1950, no artigo “Ansiedade associada à insegurança”, o psicanalista inglês Donald Winnicott explicou bem a importância da experiência relacional com “mães suficientemente boas”, contentoras, capazes de compreender e corresponder às necessidades, que permitem crescimentos confiantes e seguros. Oferecem-se como um lugar (externo e real) de proteção, onde se pode fundear a âncora.

No adulto, observa-se como a separação ou a perda do ser amado desampara a pessoa que se sente abandonada. Enquanto não for elaborado esse luto (pela morte da pessoa ou pela perda do seu amor), a dor psíquica não passa. E, claro está, quanto menos forem elaboradas as situações de perda anteriores, mais difícil será o processo de reconstituição do sujeito. Quanto menos retaguarda de bons colos do passado existir, mais difícil será a superação.

A falta de alguém significativo origina uma tremenda angústia e suscita a dúvida de se conseguir sobreviver perante a falta, pois até então a ideia de dependência em relação ao outro era predominante.  Podem surgir sensações de queda num precipício, aparecerem sintomas e sensações de desintegração (a pessoa sente-se a partir-se), de despersonalização (deixa de se sentir, como se não existisse), de intensas somatizações (tonturas, dores de cabeça e no peito, dificuldades respiratórias).

O estado permanente de desamparo pode levar a dificuldades psicológicas com valor clínico e, nesses casos, será benéfica uma abordagem psicoterapêutica. Contudo, tratando-se de estados transitórios que não comprometem a nossa vida emocional, podem servir como momentos e oportunidades para a identificação dos lugares de ancoragem a que podemos recorrer quando sacudidos pela tempestade. É importante lembrar-se que, na falta da possibilidade de amparo em alguém, por mais penoso que tal seja, tem-se a si mesmo; enquanto adulto encontra-se menos vulnerável e reúne outras ferramentas que em criança eram inalcançáveis.