Sei bem que com tamanho safanão na vida de todos, é natural que a classe política se tenha apressado a tentar estancar a proliferação da pandemia e a acudir aos seus efeitos mais próximos, principalmente os que afectam ou condicionam o valor mais relevante de todos que é a vida e saúde dos seus concidadãos.

A nota que podemos dar á intervenção dos órgãos de soberania nessa matéria é um “Suficiente-“, tanto foi o tempo perdido em lateralidades e a falta de coragem de assumir as evidentes essencialidades que a pandemia despoletou. No resto, sejam firmes em impor uma severa contenção social, porque o tempo é da política e não da politiquice que ainda subjaz a muitas intervenções públicas.

Mas o mais relevante, hoje, não é isto. O mais relevante é como vai ser depois, sabendo que temos um período ainda longo de luta pela frente.

E o que vai ser depois, em particular na vida das pessoas e das empresas. Também sou dos que advogam que nada vai mudar muito. Não vamos acordar numa rua, numa cidade ou num Mundo diferente. Seria bom, dizem que a memória dolorosa é normalmente curta, que todos levássemos ensinamentos desta crise. E que tenhamos crescido interiormente em valores que abandonamos como a partilha, a interajuda, a responsabilidade social, o sentido da ética e da cidadania activa, a solidariedade que tanto responsabiliza a liberdade.

Mas o mundo do nosso dia-a-dia, o mundo do trabalho e das empresas, com algum avanço no valor do teletrabalho e outras tecnologias que acentuam o caminho da era digital anterior ao Covid 19, só não será o mesmo porque o não estamos a preparar convenientemente.

A possibilidade de enfrentarmos números de desemprego devastadores é já muito grande. E no cenário de uma crise prolongada é quase inquestionável que tal ocorrerá. Principalmente se o Governo e o Presidente da República se entreterem a arranjar formas de nos entreter, ao invés de tentarem perceber e antecipar o que acontecerá às empresas se nada de relevante for feito.

Tenho ouvido alguns líderes associativos e de organizações socioprofissionais porem, com mais ou menos jeito, o dedo na ferida.

Para mim a equação é simples: ou se instala um clima de esperança, cumplicidade e confiança com a comunidade empresarial, ou o rastilho do “salve-se quem puder” pode começar a acender e a saída mais simples é desistir. O que provocará a destruição de muitas micro e pequenas empresas – as mais fáceis de desligar e de um número incalculável de postos de trabalho.

De que é que as empresas precisam para segurar os empregos, parece ser o busílis.

De dinheiro, claro! Mas de dinheiro dado como no modelo inglês ou, já sei que não somos ricos, emprestado sem complicações e sem juros, o mais rapidamente possível.

De moratórias no pagamento dos empréstimos que sejam firmes, rápidas e abrangentes.

Dou um exemplo, os chamados PME Invests foram o instrumento usado pelos sucessivos Governos para fazerem chegar dinheiro às empresas. Dinheiro emprestado pelos Bancos a juros mais baixos e avalizado pela SPGM (Sociedade de Garantia Mútua) através de uma das suas participadas financeiras. As empresas querem beneficiar de uma moratória no pagamento dessa divida, pelo menos enquanto se não recompõem. Os Bancos alinham conscientes que não pode ser de outra forma. Mas a verdade é que ainda ninguém se lembrou de impor à SPGM um novo quadro jurídico que faça desaparecer as insuportáveis penalidades que estão previstas na actual legislação no caso de reestruturação da divida.

Outro exemplo, o dos Incentivos comunitários. Claro que se pode ir mais longe!

 Desde logo fazendo um novo PME Invest (Covid ou Capitalizar) dedicado a todas as empresas e a taxa de juro zero. Afinal os bancos estão a financiar-se a taxas negativas. E todos os portugueses andam a financiar os bancos desde os idos de 2008.

Depois, resolvendo ativamente problemas concretos. Porque razão a agilização de pagamentos de incentivos se não alarga às iniciativas comunitárias como é o caso gritante do Interreg (Cooperação interregiões) onde as organizações aguardam um ou dois anos por pagamentos que deveriam ser feitos em 30 ou 60 dias? Porque razão se não alarga a agilização de pagamentos aos saldos de projectos já encerrados há dois ou três anos?

E o que deveria ser o primeiro exemplo de todos – o do financiamento ao “lay off” no que aos trabalhadores diz respeito. Com as empresas, fechadas e a braços com uma crise severa de tesouraria, a terem que adiantar o exíguo terço do valor que o Estado se propõe a suportar!! Entre isso e fechar…

Claro que isto são só exemplos. Há muitas questões concretas que deveriam ser agilizadas, simplificadas, disponibilizadas. Deem espaço ao Ministério da Economia e às suas estruturas intermédias. Porque as empresas estão a fugir. E precisam, de forma urgente e clara, que lhes sejam dados sinais de confiança, de parceria, de cumplicidade.

E ao Governo compete arranjar já essas soluções. A começar pelo mandato que, estou certo, todos os portugueses darão a António Costa para exigir no Conselho Europeu de amanhã, com ou sem coronabonds, uma Europa finalmente solidária e à procura de medidas que protejam a saúde e sobrevivência das pessoas, claro, mas agora também das empresas.

O sector agro-alimentar e do turismo que represento é dos mais fustigados. E, provavelmente, o que terá uma crise mais prolongada e resiliente, porque precisa de voltar a conquistar as pessoas.

Por isso me dirijo aos decisores desta forma veemente – Acordem!

Esta foi, a par com as indústrias de vocação exportadora, a galinha dos ovos de ouro da economia portuguesa nos últimos anos.

Falta muito pouco para darem cabo dela!

É tão urgente reconquistar a confiança das empresas como dizer ás pessoas que fiquem em casa!