Verdade que ao longo dos últimos anos tenho sentido que alguém tem estado a remexer o meu cérebro, a modificar a minha rede neuronal, a reprogramar a minha memória e a criar uma desconfortável (?) sensação de permanente vazio.

O argumento é de Nicholas Carr, em livro, com o título Os Superficiais (finalista do Prémio Pulitzer). Na verdade, a obra é mais uma coleção de ideias de forma estruturada do que ciência e evidência empírica sobre modificações efetivas nos nossos cérebros. Na prática, Carr está a dizer-me que a minha mente passou de calma e linear para mais ou menos acelerada e não linear.

Há, porém, constatações evidentes mas que não podem deixar-nos muito mais do que apenas atentos. Como em tudo na vida, não estamos necessariamente piores. Devemos recusar algum simplismo com que se classificam, negativamente, as tecnologias e seus efeitos no nosso cérebro e vidas. Até porque o mundo vai por aí e não por outro qualquer lado. E o livro é muito uma crítica aos efeitos perniciosos do computador e, em particular, de tudo quanto nos é facilitado pela internet. Mas se é aceitável a crítica, sempre, e se é aceitável a constatação de que há modificações drásticas na forma como fazemos as coisas, não me parece necessário dizer mais do que, e apenas, estamos diferentes.

No caso da minha vida, e aqui pessoalizo, o meu processo para me tornar superficial foi gradual e deveu-se a quatro grandes momentos, tendo estado sujeito a três enormes revoluções. Mas mais virão se por cá andar.

  1. a total ausência de tecnologia na minha infância; aqui eu era mesmo linear e essa linearidade, à distância, tomo-a como boa;
  2. depois, uma juventude totalmente analógica com livros, jornais, banda desenhada, discos de vinil, televisão com antena de orelhas de coelho, aparelhagem de som já com cassetes mas, computador, ainda misterioso, apenas quando entrei para o Instituto Superior Técnico (VAX-VMS). Essa foi a minha primeira grande revolução tecnológica.
    Quando uma sala imensa guarda um computador onde colocamos uma montanha de cartões perfurados e a “dita sala” se encarrega de nos devolver os mesmos cartões, como que por magia, com uma listagem no dia seguinte, na melhor das hipóteses, para podermos emendar uma linha de código mal pensada ou um parêntesis a menos ou a mais, está ditada a revolução (ninguém percebia bem o bicho na sala mas era um computador); no final da licenciatura já trabalhava com os primeiros ZX Spectrum para poder fazer alguns trabalhos de forma, digamos, mais profissional (computador com baixíssima capacidade mas que cabia em cima da secretária).
  3. mais à frente, numa primeira idade adulta quando fiz o doutoramento, diga-se que na ausência quase total de internet, com artigos comprados a empresas de documentação e com pesquisas complexíssimas e demoradas que surgiam pela análise da bibliografia de artigos que se iam lendo e por viagens, de saco às costas, a bibliotecas do Reino Unido, a livrarias dos EUA ou a temporadas passadas na Cranfield University. Bases de dados de artigos científicos? Pois…A segunda grande revolução tecnológica, minha, foi tomar posse, como meu, de um PC e também portátil (o conceito de portabilidade, bem vistas as coisas, era substancialmente diferente do de hoje e trabalhar em MS-DOS era uma senhora experiência) que ligava e desligava a meu belo prazer e ao meu ritmo e tempo, independente das filas para perfurar cartões ou usar ZX Spectruns;
  4. uma segunda idade adulta onde a internet domina os meus dias, onde as redes sociais são quase mandatórias (algumas), onde há portabilidade e smartphones, onde o acesso à informação está ao alcance de um search rápido, onde os feeds de notícias pululam, onde leio na diagonal e, agora com propriedade, sei o que são verdadeiramente as letras gordas e os títulos. A informação está à distância de poucos cliques. E há mesmo quem defenda que uma leitura online de pequenos fragmentos interligados se tornou bastante mais eficiente para expandir a mente do que a leitura de livros com 250 páginas. Com isto entrei na minha terceira revolução tecnológica: Office (com Excel e não apenas Lotus 1, 2, 3), bases de dados, aplicações variadíssimas, motores de busca, sites e mais sites, informação e mais informação, compras e banca on-line, WhatsApp com grupos e mais grupos, Linkedin para comentar e postar, vídeos on demand, música, enfim, um mundo novo. Com muito de AI e outros enigmas cujos algoritmos me fazem parar para pensar. Foi aqui que me tornei, definitivamente, superficial.

Devo, com isto, concordar que estou a ler bastante menos. Que leio mais na diagonal. Que tenho menos paciência para argumentações longas. Que estou muito mais anglo-saxónico no vocabulário e na forma como sou straight-to-the-point.

A minha mente mais linear, mais calma, focada, atenta, está a ser afastada por um novo tipo de mente que quer e precisa de receber e distribuir informação em pequenos soluços descoordenados e muitas vezes sobrepostos – quanto mais rápido melhor.

Algures […/…] uma dúvida começou a insinuar-se no meu paraíso informático. Comecei a notar que a internet exercia uma influência muito mais forte e vasta sobre mim do que alguma vez o meu velho computador tinha exercido. Não era só o facto de estar a gastar tanto tempo a olhar para o ecrã do computador. Não era só o facto de tantos dos meus hábitos e rotinas estarem a mudar, à medida que eu me tornava mais habituado e dependente de sites e serviços internet. O próprio modo como o meu cérebro trabalhava parecia estar a mudar. Foi aí que eu comecei a preocupar-me com a minha incapacidade de estar atento a alguma coisa por mais de alguns minutos […/…] e quanto mais era alimentado, mais esfomeado ficava. Mesmo quando estava longe do computador tinha desejos de consultar o correio eletrónico, clicar em hiperligações, fazer pesquisas no Google. Eu queria estar ligado.”

Mas, dito isto, não estamos necessariamente piores. Estamos mais ligados, estamos seguramente diferentes. E, segundo Carr, estamos mais superficiais.

O importante destas chamadas de atenção, como a d’Os Superficiais, em livro, é para os trade-offs que se geram e para os processos de alteração por que passamos. Mas mais ainda. Talvez seja um bom “call for action” relativamente à necessidade que devemos ainda sentir – e da disciplina que nos devemos impor –  de ler um bom livro, com muitas páginas, e de o percorrer em todo o seu encadeado, todo o seu articulado e todo o seu esplendor. E há livros que não podemos deixar de ler na nossa vida porquanto sem eles nos tornamos menos completos. Para dar alguns exemplos, precisamos mesmo de nos deter num Anna Karenina, num Cem Anos de Solidão, num Ulisses, numa Madame Bovary, numa Divina Comédia, num Crime e Castigo, n’Os Maias, num 1984, nas Mil e uma Noites, entre tantos outros.

Os Superficiais levanta muitas e boas questões e chama a atenção para a questão dos trade-offs. E também como alerta para a necessidade de ler, pelo menos, alguns clássicos – e de fazer esse esforço, de A a Z – para levar a contenda a bom porto. Saber apreciar um bom livro continua a ser de um prazer imenso.

Penso, porém, que o caminho para a superficialidade pode ser uma opção traçada se nada mais fizermos que pulular entre sites e gordas de notícias e posts de redes sociais. Agora, há e haverá vantagens nisso e o cérebro evolui, como tem sempre evoluído na humanidade, para melhor. Não acredito, a médio longo prazo, em ciclos não virtuosos. Por isso, venha a tecnologia. Mais e mais. Cá estaremos para passar de superficiais a, quiçá, mais criativos, mais reflexivos, mais solucionadores de problemas. Apenas o futuro o dirá. Por enquanto, por enquanto estamos apenas em transição. E já somos, no mínimo, Superficiais. Eu sou.