A coisa mais espantosa do Natal é a sua carnalidade. A narração do nascimento de Jesus não é um acontecimento esotérico, numa terra distante ou num tempo perdido. Lucas conta um acontecimento perfeitamente identificável no tempo e no espaço.

Jesus nasceu quando César Augusto era imperador, Herodes rei dos Judeus e Quirino governador da Síria. Caio Júlio César Octaviano Augusto dispensa apresentações: sobrinho-neto de Caio Júlio César, adoptado por este no seu testamento, funda o principado ao derrotar António em Ácio. Herodes, o Grande, é também um personagem importante do seu tempo. Filho de um general indumeu, fiel a Roma e a César, havia de conquistar o poder com o apoio de Roma e seria um dos poucos não-romanos a comandar legiões. Foi um dos mais importantes reis clientes na guerra entre António e Augusto. Quirino não só é mais desconhecido, como é aquele que levanta um problema de datas, uma vez que só terá sido governador da Síria após a morte de Herodes. Há a hipótese de ter havido um Quirino anterior ou de o Evangelista ter confundido o nome com Quintilio Varo, o famoso infame general, que foi procurador da Síria, antes do desastre de Teutoburgo.

Se as pessoas permitem identificar o tempo, também ajudam a identificar o local. Jesus nasceu no império Romano, no território semi-independente da Judeia, dependente do governador da Síria. Lucas identifica a terra dos seus pais, Nazaré e explica porque motivo eles foram até Belém, onde Jesus veio a nascer. Ambas as terras continuam no mesmo sítio e, através da tradição de dois mil anos, é possível identificar o local do nascimento de Jesus.

E é isto o Natal, a celebração de um acontecimento histórico. Aliás, antes de mais, é isto o cristianismo. Um homem cuja existência é verificável pela literatura coeva, pelos indícios arqueológicos e pela tradição ininterrupta de dois milénios.

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Existe uma tendência, nos nossos dias, de querer festejar o Natal sem Jesus. De reduzir o Natal a uma festa de bons sentimentos, a um evento espiritual. No fundo, muito parecido com a redução actual do cristianismo a uma moral espiritual e de Jesus a um guru. Mas uma das belezas do Natal, tal como do cristianismo, é que pela sua natureza é irredutível a uma mera espiritualidade. Neste dia celebramos algo de profundamente carnal: o nascimento de um bebé. Um facto histórico, claramente identificado, como os idos de Março ou a queda da Bastilha.

Evidentemente que cada um festeja o Natal da forma que prefere. E eu não tenho qualquer problema com isso. Aliás nunca consegui compreender quem perde tempo a irritar-se com o Pai Natal, com os presentes, ou até com a patetice da festa de Inverno. Tudo isto são formas, ainda que imperfeitas, de assinalar este acontecimento essencial que é o nascimento de Jesus. O Natal é o nascimento de Cristo, quer as pessoas o reconheçam quer não. E quem o festeja, celebra esse nascimento, porque os acontecimentos são indiferentes à nossa opinião sobre eles: ou aconteceu ou não aconteceu, independentemente de eu o reconhecer.

Eu pessoalmente gosto de tudo no Natal (talvez com excepção da Popota). Gosto do Adesti Fidelis e do White Christmas, do presépio e do Pai Natal, da missa do Galo e dos presentes, das orações e das refeições. E gosto que as pessoas se alegrem com o nascimento de Jesus, mesmo que não saibam que é por isso que se alegram. E quanto ao Natal inclusivo e outras modernices que vão aparecendo por essa Europa fora, pouco me preocupam. A mim chega-me a sabedoria do nosso povo: Eu hei-de m’ir ao Presépio, e assentar-me num cantinho a ver como o Deus Menino nasceu lá tão pobrezinho. O resto vem por acréscimo.