A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia prevê — e de acordo com os seus valores fundantes de respeito pela dignidade humana, liberdade, democracia, igualdade, estado de direito e respeito pelos direitos humanos –, um conjunto de direitos pessoais, cívicos, políticos, económicos e sociais dos seus cidadãos e residentes comuns nos países que livremente a integram.

A Hungria de Viktor Orbán tem vindo a rasurar esta Carta em vários, senão todos os seus capítulos, sem contemplação pelo retrocesso civilizacional dessa rasura, o precedente que abre, e as más relações que estabelece: com os valores da extrema direita; com os regimes em perda democrática, como a Polónia; e os radicalismos religiosos.

O terceiro capítulo da Carta é sobre a igualdade. Igualdade perante a lei, entre homens e mulheres, não discriminação, respeito pela diversidade cultural e religiosa, e direitos da criança – entre outros. No entanto, o parlamento húngaro aprovou a exclusão de casais do mesmo sexo da adopção de crianças – com a infâmia acrescida de assemelhar esse processo à pedofilia e pela voz desse arauto da moral e dos bons costumes, József Szájer, detido há poucos dias de literais calças na mão, em fuga da all-male-orgy em que participava, portanto, em claro desrespeito pelo, chamemos-lhe, distanciamento social.

Como se a exclusão da adopção não fosse suficientemente grave somada à proibição, desde 2011, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, justifica-se o todo normativamente: uma família é sempre, um pai, o homem, uma mãe, a mulher, e os filhos cujo género  é inequívoca e permanentemente definido pelo sexo e cromossomas de nascença para que estejam “protegidos de interferências ideológicas do mundo ocidental moderno”, e em conformidade com o ideário cristão do país – onde a necessária e estruturante separação igreja-estado se dilui em simultâneo com a pluralidade religiosa. São curiosas as afinidades e comportamentos gemelares entre o Fidesz, a extrema direita húngara dita cristã, e os islamitas radicais de França ou da Nigéria.

A Europa é, antes de qualquer outra coisa, uma ideia de civilização. Uma Atenas onde, e por primazia da razão, Jerusalém, a fé, qualquer Jerusalém devocional e aspiracional se pode realizar precisamente por esse primado que o garante, e também o da laicidade e dos bens que dela decorrem, cidadania, liberdade, igualdade.

Que à União Europeia não falte Europa.