1 Ao fim de uns anos de aturadas pesquisas, mergulhados em apneia nos milhares de documentos, houve umas polícias, quero dizer uns jornalistas, que ficaram com a impressão de que a Sra. Eng. Isabel dos Santos poderia ter estado envolvida em negócios menos limpos, talvez com o usufruto próprio de dinheiros que deveriam ser da nação angolana. Tudo isto, claro, sem conhecimento do soba local da época que, por mero acaso, calhou ser o progenitor da referida dos Santos. Agora é que descobriram?

Há uns anos estive em Angola. Confesso que me impressionei com o seu Povo. Gente de uma generosidade incrível. De uma resiliência inigualável. Já naquele tempo, vão mais de 10 anos, a companhia de recolha do lixo era, diziam-me os luandinos, da “filha do presidente”. Havia lixo amontoado em todo o lado. Para ir à praia era preciso marcar esplanada e mesa nos caríssimos restaurantes da beira mar. As crianças rotas e descalças ficavam na porta a esmolar. O areal, os bocados onde não estavam os homens armados que guardavam os banhistas pagantes, era residência dos que nem no musseque tinham lugar. Ali, ao ar livre, tapados com trapos a que chamavam tendas. Os polícias, de quem me despedi no aeroporto, tudo fizeram para me pedir os dólares que me restassem. Com cuanzas não se comprava nada. Diziam-me que tinham família e o ordenado, nos meses em que era pago, não dava para comer.

O regime era dominado por generais com alcunhas. Agora são todos tecnocratas exemplares, homens de negócios, marxistas curados. Descobriram agora! Em África há corrupção e miséria? Há bandidos e clepocratas que os descolonizadores lá deixaram. Já se esqueceram dos diamantes que o Boukassa oferecia, do Mobutu que plantou um jato na Portela e do Kabila que saiu igual? E da Rodésia que passou a Zimbabwe para que um monstro a governasse? E também não se lembram do Idi Amin, dos massacres étnicos, da exploração do coaltar, das crianças escravizadas no Lago Volta? Vá lá que na CPLP temos o Sr. Teodoro Obiang, homem justo, impoluto e reconhecidamente de poucas posses.

Estarei enganado? Vejam lá se não há um leak que nos cause embaraços. Investiguem depressa, antes que haja mais alguma surpresa chocante.

2 Anda tudo excitadíssimo com a graçola, bem a propósito e até bem humorada, do deputado André Ventura. Sugeriu a possibilidade de trocar o património pilhado nas cubatas pela Dra. Joacine Moreira. Ficou tudo irritadíssimo. Bem, esteve a própria que não tugiu. Cada qual na sua dimensão.

Os gregos exigiam a devolução dos frisos do Parthenon, com muita razão, e os ingleses nunca ameaçaram com a devolução do Georgios Kyriacos Panayiotou. Antes os frisos do que o Varoufakis que os helenos tinham proposto devolver a Cambridge para a troca. Os egípcios querem, justamente, a Pedra de Rosetta (ou de Rashid), que os franceses também poderiam reclamar, mas o Liverpool não sugeriu, em compensação, devolver o Sr. Mohamed Mahrous Ghaly, mais conhecido pelo nome de Salah. Para já, ainda temos o Eusébio no Panteão, o tal que serviu de casa de jantar para geeks. Será que o Benfica, o clube do coração do Dr. Ventura, deixaria que os ossos (já não deve sobrar muito mais do que esqueleto) do ilustre futebolista, arquétipo do herói luso, fossem abrilhantar as aulas de anatomia na Faculdade de Medicina de Maputo (Lourenço Marques para os Conservadores)?

O Sr. Trump, sempre atento, é que não tem problemas com estas polémicas em torno de obras de arte clássica. Já mandou dizer ao Dr. Ferro Rodrigues que tem muita arte Africana, embora Americana, e não se importará de emprestar umas das peças que estão no Metropolitan, em Nova Iorque. Até fica com a deputada Joacine se for preciso. Já disse que a Ivanka aprecia reggae. Quanto ao Parthenon, a América é Great e tem um melhor, mais bonito, inteiro e bem conservado, em Nashville, no seu republicano Estado do Tennesse. Quer lá saber dos gregos e dos seus pedregulhos partidos. Piadas à parte, fica uma pergunta. Em que estado estaria a Porta de Ishtar se não tivesse sido levada para Berlin e guardada no Museu de Pérgamo? Ishtar, para quem não se recordar, fica no moderno Iraque. Lembram-se de Palmira? Era logo ali ao lado.

3 Está? Professor Marcelo? Como está, benzinho? Pois, estas constipações são uma maçada. Sim, eu sei que não precisa de médico. Siiiim, já sei que tem sempre comprimidos no bolso. Não, não liguei para lhe perguntar pela saúde. Bem sei, é tabu até ao anúncio da recandidatura. Sim, claro. Há que manter a gente entretida a inventar candidatos. Oiça, não tem que me explicar mais nada, eu já entendi que sem notícias ninguém vive. É que eu estava a rever um filme do Indiana Jones e lembrei-me de si. É. Não é? Também é professor e não pára quieto.

Ora bem. A coisa passava-se no Egipto e de repente lembrei-me de lhe perguntar se já tinha dado medalha ao Manelés Josethon. Quem? Ó Professor…o nosso Fárao da bola. Sim, esse mesmo, o Manuel José. Estava a brincar, não leve a mal. É que o homem ganhou tudo o que havia para ganhar em África e o Professor, que até lá deixou o coração, deu uma condecoração ao Jesus e esqueceu-se do José. Não? Vendo bem este Manuel fez muito mais por África do que o Jesus pelo Brasil. Já tem? Olhe que já não me lembrava. É que tem sido tanta medalhação que lhes perdi o rasto. E não dava para lhe subir o grau? É que isto anda já cheio de comendadores. Vai ver? Obrigado. Agradeço muito o seu cuidado. Se eu também quero uma? Não, deixe estar, já tenho. Obrigado na mesma. Se a quero devolver? Não!! Porquê? Deixe lá isso do Berardo que toda gente sabe que é um homem seríssimo. Nããão… Não tem importância. Ele que fique com a dele que eu guardo a minha. Ah, precisava que eu a emprestasse. Percebo, já vão faltando para o 10 de junho.

4 Em Portugal está tudo pronto para recebermos o mais recente mutante de coronavírus. Não falta nada. Bem, faltam os infetados para que possamos demonstrar a nossa enorme prontidão. Agora é que o Francisco, como eu carinhosamente chamo ao meu amigo George, estaria nas sete quintas. Confesso que já tenho saudades de como ele explicava bem estas coisas. Não, este George não é o Michael, o tal que poderia ter sido moeda de troca pelas pedras do quarto de Athena.

Há lá coisa melhor do que uma epidemia para a Saúde Pública brilhar? Na China constroem um hospital novo. E já vão a caminho do segundo. Bem sabemos que aquilo vai cair tudo, mas até lá é melhor interná-los do que tê-los, aos aterrorizados chineses, a gritar de um prédio para o outro. Em Portugal temos 14 quartos em prontidão. Bravo. Se a epidemia chegar a Portugal, com uma taxa de ataque que até poderá ser alta, não me parece que com as catorze camitas se arrumem muitos dos afetados.

Mas estamos prontos e se a Senhora Ministra o diz, quem somos nós para duvidar. Para já, lá seguiram os folhetos da gripe, com o nome de influenza trocado por corona. Não, não são os do Ébola porque esse vírus é passado no sangue e este vai na saliva. Pior, transmite-se em fase pré-patogénica. Ainda pior, é possível que existam larguíssimos milhares de portadores sem sintomatologia. Alguém, no seu perfeito juízo, acredita que será possível, sem vacinação, conter uma infeção de transmissão aérea com mascarilhas de farmácia? Na China, com uma democracia plena e popular, conseguem-se fechar cidades. No mundo livre, parece-me que será difícil.

5 E quanto às agressões a profissionais de saúde, o melhor que conseguiram foi prometer (ainda se terá de fazer a lei e isso é coisa para uma legislatura) dar-lhe estatuto prioritário. Não se percebeu se às agressões ou se aos eventuais, longos e absolventes, julgamentos dos supostos, sempre supostos, agressores. Foi um passo decisivo depois da habitual constituição de “comissão para acompanhar o problema”. Esta até tem um nome bem catita; Observatório Nacional da Violência Contra os Profissionais de Saúde no Local de Trabalho, cuja sigla é ONVCPSLT. Tentem lá dizer isto. Uma violência. Queriam tudo FIFA, não? Mais seguranças nos locais de atendimento? Seria caro. Penas mais pesadas para os batedores? Atentaria contra os brandos costumes do governo ou ofenderia a liberdade de expressão e seria um atentado às etnias oriundas de um qualquer confim, uma prepotência inqualificável.

No fundo é importante que o profissional da saúde sinta o que é ter dor. Levar uns estalos bem assentes nunca fez mal à educação de um patriota. Há lá coisa mais patriótica do que trabalhar no SNS e, já que o salário é pequeno, levar uns tabefes como gorjeta?

Com cinco parágrafos cheios de ironia, só me resta esperar um voto de protesto ou, pelo princípio da mais elementar justiça, um férreo raspanete em conferência de líderes. Acho que já mereço! Por favor, não se esqueçam de mim, tirem-me desta minha desventura!