Uma das passagens mais justamente célebres da História da Guerra do Peloponeso de Tucídides é aquela em que Nícias e Alcibíades opõem argumentos, face a uma assembleia de Atenienses, quanto à oportunidade de uma expedição destinada a conquistar a Sicília. Nícias opunha-se-lhe e Alcibíades era favorável a que ela tivesse lugar. Como sempre, Tucídides é admirável e o texto lê-se quase como um tratado sobre a persuasão política. No fim, por muito sólidos que fossem os argumentos de Nícias, é Alcibíades que convence a assembleia. A expedição tem lugar. E é o princípio do fim de Atenas.

Alexis Tsipras é a última flor que resolveram adorar os descendentes imaginários daqueles que se sentaram, em Setembro de 1789, à esquerda do sr. Clermont-Tonerre, na sala dos Pequenos Prazeres do palácio de Versalhes. A esquerda pegou-se de amores por Tsipras, embora os êxtases outrora reservados a Alcibíades sejam, segundo se lê, agora dedicados não a Tsipras mas ao seu ministro das Finanças, Varoufakis. Como tudo o que ouvi da boca de Tsipras foram coisas contraditórias entre si, aproveitei a oportunidade de um livro em que ele colabora para buscar detalhes.

O livro, traduzido em português na Relógio D’Água, e intitulado O que quer a Europa?, é, de facto, constituído por textos de um autor croata, Srecko Horvat, de quem, confesso, nunca tinha ouvido falar, e do intelectual esloveno Slavoj Zizek, de quem ouço falar imenso, e até já li. A sua edição original data de 2013. As contribuições de Tsipras limitam-se ao prefácio, a uma entrevista e a um diálogo com Zizek.

Ninguém, é claro, é responsável pelas opiniões dos outros, mas prefaciar um livro exige, em princípio, alguma afinidade com o autor prefaciado – uma afinidade que, de resto, é patente no diálogo. Estou longe de ser uma autoridade em Zizek, e Deus proteger-me-á, estou certo, de algum dia o vier a ser. Mas a afinidade com um autor que reivindica abertamente a reabilitação da violência e que, em perfeita coerência, escreveu uma fervorosa introdução a uma selecção de textos de Robespierre, não anuncia nada de bom.

Eu sei que Zizek, que gosta de adoptar uma postura de intelectual-clown (William Saroyan diria: festivo-fascista), pretende tanto divertir quanto convencer. E não se pode acusá-lo de não tentar divertir. No diálogo com Tsipras, diz, por exemplo: “Segundo a minha maneira de ver o futuro democrático, todos os que não apoiassem o Syriza deveriam ser enviados em primeira classe, mas com um bilhete só de ida, para o Gulag!”. É um brincalhão, embora a graça possa parecer pesada. O que parece não incomodar muitos leitores. A busca da sofisticação intelectual não anda forçosamente de mão dada com a sensibilidade. Como vários autores, acerta mais quando está desprevenido. Pessoalmente, gostei muito da passagem, num capítulo do livro, em que sugere, para o Verão de 2014, um “turismo solidário” na Grécia. Não se percebe se é como com o Gulag, com bilhete só de ida.

Mas esqueçamos o inesquecível Zizek, e procuremos o pensamento de Tsipras para além das declarações, com bravata e sem gravata, a que os jornais nos habituaram. Tsipras não é um intelectual-bufão como Zizek. Em geral, limita-se a propor, como se diz, uma narrativa segundo a qual “os mercados”, com propósito explícito e consciente, afinco e determinação, visam a destruição da democracia. A coisa releva, ele di-lo naturalmente, do “espírito perverso do neoliberalismo global”. A Grécia é apenas a “primeira etapa” do vasto projecto concebido pelos “espíritos neoliberais mais iníquos”.

Contra isto, a Grécia deverá denunciar o Memorando. E, bem entendido, definir bem o inimigo. Com absoluta originalidade, o verdadeiro conflito é determinado: “O conflito na Europa não é entre países. É entre o capital e os mercados, por um lado, e os trabalhadores, por outro.” Ele lá o sabe. Mas os jornais não dizem exactamente isso. “Aquilo que precisamos é de uma Primavera Mediterrânica – como a Primavera Árabe”. Bom…

Exemplos a seguir? Para além, é claro, da Síria, onde a Primavera anda particularmente vibrante. Tsipras refere de passagem Mário Soares, o que infelizmente deve dar prazer a este, e, é claro, Hugo Chávez. Vindo do funeral de Chávez: “A Venezuela de Chávez é o brilhante exemplo de um país que combina o crescimento económico com uma redução das desigualdades sociais”. Tal sociedade “continua a ser um modelo para nós, como para a esquerda de todo o mundo”.

Teremos uma Venezuela dos Balcãs? O Oráculo de Delfos será substituído pelo Passarinho de Maduro? Ou uma Argentina, cujo exemplo Tsipras também aprecia? Ninguém sabe. Uma coisa, no entanto, se sabe. Tsipras não fará o mesmo que Alcibíades, que, depois de ter conduzido Atenas ao desastre, se passou para o lado de Esparta. Em 2013, prometeu que, no caso de aceder ao poder, o poder não o modificaria nem o “assimilaria”. Nada de “concessões e compromissos contra os nossos princípios”.

É claro que os gregos têm muitas razões de queixa contra o mundo. A União Europeia seguiu um caminho, com o euro, em que a soberania possível se foi estiolando. E, por razões que a construção europeia perfeitamente obliterou, as comunidades políticas vivem mal sem a soberania. O progresso da extrema-esquerda e da extrema-direita tem muito a ver com isso. Bem como o aumento das tentações nacionalistas e outras coisas muito feias.

Mas têm, desculpe-se, muito mais razões de queixa contra si mesmos. E isto não é moralismo nenhum, nem absurda Schadenfreude. Viveram alegremente em regime de elevada corrupção durante décadas, e acabaram com uma cereja em cima do bolo: elegeram um partido populista de extrema-esquerda, que se associou, para formar governo, com um muito pouco recomendável partido de direita. O Syriza jura com toda a força que vai dar uma surra na corrupção e pôr tudo na ordem. Não parece assim lá muito verosímil. O que se arrisca a fazer é conduzir a população a uma desgraça ainda maior. Neste caso, a Sicília está dentro de Atenas.