Separar a verdade da mentira nunca foi tão difícil, e em simultâneo tão urgente. Segundo um inquérito sobre o impacto da pandemia no jornalismo nacional, de entre os problemas sentidos durante a pandemia, os jornalistas destacaram a dificuldade na triagem da informação credível sobre a Covid-19 (52%), a falta de colaboração das fontes de informação (14%), a dificuldade no acesso à informação do dia (12%), e a escassez de informação relevante e credível sobre a doença (6%).

A credibilidade é uma perceção que resulta da avaliação do nível de confiança e de competência de algo ou alguém. No contexto da informação online, é clara a sua relação com as chamadas fake news: quem são as fontes e autores verdadeiramente credíveis?

Recentemente Trump chocou o mundo ao sugerir que se injetasse lixívia como tratamento para a Covid-19. Sem surpresas, uma parte da população mais frágil, menos informada ou mais desesperada, seguiu o conselho do alto representante do governo. O resultado? Horas depois do comunicado, dezenas de pessoas afluíram aos hospitais devido a envenenamento por ingestão de desinfetantes.

Alguns terão tomado a Miracle Mineral Solution, ou MMS, que consiste numa poderosa lixívia, o dióxido de cloro, e que clama ter “restaurado parcial ou totalmente a saúde de centenas de milhares de pessoas que sofriam de cancro, diabetes, hepatite A, B e C, doença de Lyme, MRSA, esclerose múltipla, Parkinson, Alzheimer, HIV/SIDA, malária, autismo, infeções de todos os tipos, artrite, colesterol elevado, refluxo gastroesofágico, doenças do fígado ou dos rins, dores, alergias, infeções do trato urinário, problemas digestivos, doenças oculares, infeções nos ouvidos, dengue, problemas de pele, problemas dentários, problemas com as próstata [ou] disfunção erétil”. E a lista continua.

Como é que alguém é capaz de se aproveitar de pessoas doentes e desesperadas para vender um produto que as pode matar? Mais desconcertante ainda é o facto deste produto não ser novo, sendo já já bem conhecido pelas autoridades de saúde a nível mundial. O website da MMS está online pelo menos desde 2007, e não se vislumbra uma entidade legal com autoridade para fechar o website em definitivo.

Também o Twitter tem sido protagonista de uma polémica relacionada: o lançamento de uma feature para verificação de factos que se estreou curiosamente num tweet de Donald Trump, gerando uma resposta irascível por parte deste. Na verdade aquilo que a plataforma fez foi facilitar a verificação de factos pelos utilizadores, ao colocar uma hiperligação para uma página que agrega informação relacionada de fontes verificadas. Dificilmente poderá ser considerada censura ou manipulação de informação.

Há umas semanas, a União Europeia pediu medidas mais robustas contra a desinformação ao Google e ao Twitter. E muito se tem falado também sobre o Facebook. No fundo o que a UE está a fazer é a relegar para empresas privadas o ónus de proteção dos seus cidadãos em relação a informação falsa e potencialmente prejudicial.

Reconheço que o advento da web é recente e ainda estamos a descobrir as suas potencialidades e limitações. Mas a questão impõe-se: por que motivo devemos relegar para a mão de privados um tema tão estrutural e com potencial de disrupção social ou até de ignição de conflitos internacionais?

É urgente a criação de mecanismos que nos protejam da informação falsa que circula online, sob a orientação e escrutínio de entidades reconhecidas para o efeito. Não podemos estar dependentes de empresas orientadas ao lucro, para implementarem medidas que lhes podem ser prejudiciais. É uma organização, como a que em 2018 esteve no centro do escândalo Cambridge Analytica, que vai resolver o problema da desinformação?

Esperemos que as soluções, a virem, não se resumam a imposições legais ridículas que degradam a experiência dos utilizadores, sem contribuírem efetivamente para a resolução do problema central. Pense-se nas ineficazes políticas de cookies e na lei de dados da UE (RGPD), bem como nos intermináveis termos e condições que ninguém lê. Para quando?

Mafalda Sequeira é Senior Product Designer no Grupo OLX e dirige e leciona na Pós-graduação em Digital Experience Design, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Passou por Startups tecnológicas, entre elas a Landing.jobs e a Uniplaces, e já deu aulas e workshops em diversas organizações, incluindo a DesignLab, baseada nos Estados Unidos. É mestre em Design de Comunicação e Novos Media pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, tendo desenvolvido a sua dissertação acerca do tema da credibilidade online.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.