Toda a gente se queixa das chamadas fake news e da sua proliferação na sociedade contemporânea. Há lamentos para todos os gostos, o mais comum sendo o que se manifesta de forma nostálgica: saudades do tempo em que a internet não existia e a informação que se recebia era transmitida unicamente pelos jornais, a rádio e a televisão. Face a isto, não custa admitir as singularidades do presente e as potencialidades do falso que as novas tecnologias trazem consigo. Mas, sem mesmo explorar o seu óbvio avesso, as possibilidades de acesso ao verdadeiro que oferece, algo há que convém ter sempre em mente: em tempos anteriores, o falso seguia perfeitamente o seu caminho coroado de sucessos sem precisar das “redes  sociais” para nada. Apenas a título de exemplo, a colossal impostura comunista beneficiou, ao longo do século XX, de uma espécie de imunidade em relação ao desmentido empírico que exactamente o grosso da televisão, dos jornais e da rádio lhe garantiam. Basta pensar no tempo que foi possível (em Portugal, por exemplo) negar a existência do Gulag, dos campos de concentração “soviéticos”. Aposto que ainda há, no PCP e talvez noutros lugares, quem o faça. O mundo é assim, sempre foi assim.

A mentira em política tem, é claro, uma longa história. Em todos os tempos se procurou uma visão das coisas que criasse um molde geral para todas as crenças, com vista a assegurar a estabilidade da sociedade ou com outros propósitos, sem preocupação especial pela sua verdade ou falsidade intrínsecas, mas apenas pela sua eficácia prática, que, no entanto, se apresentava como garantida pela verdade. Se era necessário mentir, apresentar o não-verdadeiro como verdadeiro, essa mentira era nobre. O tema da “nobre mentira”, da mentira que é suposta servir, por exemplo, o nobre propósito da preservação da sociedade, encontra-se explorado logo desde o início da filosofia política, na República de Platão.

Platão é infinitamente complexo, mas não é sem dúvida caricaturá-lo apresentar a sua posição, no exemplo da República, como a de defesa de um mito (o mito de Cadmo, fundador de Tebas, segundo o qual teriam nascido armados da própria terra, fruto da sua fecundação pelos dentes de um dragão morto, os antepassados das famílias nobres de Tebas) para justificar a crença na autoctonia. Os cidadãos nasceriam da própria terra, que seria quase literalmente a sua mãe, e seriam entre si irmãos. O mito é falso, no sentido banal em que não corresponde a uma verdade empírica, mas assinala, aos olhos de Platão, uma crença não só desejável como indispensável para a sociedade. Convencer os elementos mais importantes da sociedade da verdade literal do mito será obviamente uma tarefa difícil, Platão não o ignora, mas, enquanto projecto educativo para as gerações futuras, tal afigura-se exequível.

Mentir, por mais relutância que tal nos deva inspirar, é necessário para preservar a identidade cívica, a mentira é uma droga que deve imprescindivelmente ser administrada aos governados para o seu próprio benefício – uma droga útil, porque conducente à virtude. (Não há, em princípio, qualquer cinismo da parte de Platão: a sua tese da necessidade do recurso político à mentira é perfeitamente compatível com a sua outra afirmação da detestação filosófica pela mentira.)

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