E pronto, acabou-se a clássica tríade de F’s. Neste momento, o único F com futuro em Portugal é a Festa do Avante! O que, apesar de tudo, é um sinal de avanço, uma vez que os três F’s eram popularmente referidos, no pós 25 de Abril de 1974, como os pilares da ditadura de Salazar. Com Fátima e o Futebol fora de cena, pomos em definitivo para trás das costas a miserável ditadura salazarista e vislumbramos já a desprezível ditadura do proletariado! Uhu!

No meio de tudo isto, estou chocado com a inacção do Bloco de Esquerda. Como é possível que activistas com um instinto tão aguçado, que na natureza só encontra rival no instinto do besouro para rolar — não há outra forma de dizê-lo, porque é mesmo — cocó, deixem passar este caso escandaloso de discriminação? Quer dizer, dizem-se na linha da frente do combate ao preconceito contra tudo o que é L’s, G’s, B’s, T’s, Q’s e, inclusive, na vanguarda da luta contra a discriminação de símbolos matemáticos como o +, mas quando há um episódio vergonhoso de discriminação entre os próprios F’s os progressistas remetem-se a um cobarde silêncio.

Bom, mas o que interessa é que a Festa do Avante! vai acontecer, assim o deseje o PCP. E Jerónimo de Sousa já veio aquietar eventuais preocupações logísticas, garantindo que os comunistas são muito criativos. Confirmo. A começar no próprio secretário-geral. Ainda há dias, a propósito das comemorações dos 75 anos do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, afirmou Jerónimo de Sousa:

“Mas, se é preciso não deixar esquecer a origem, o caráter de classe e os hediondos crimes do nazifascismo, comemorar o dia da Vitória é também, e sobretudo, homenagear os que heroicamente o combateram, os milhões de homens, mulheres e jovens, que resistiram e lutaram, entregando as suas vidas, se necessário, para libertar o mundo da barbárie nazifascista.”

Só senti falta de um: “E a partir daquele dia de Maio de 1945, libertados do jugo nazifascista por capitalistas e comunistas, os povos de toda a Europa viveram em paz, com liberdade e prosperidade, felizes para sempre. Fim”. Mas não fiquei surpreendido com a omissão. Lá está, é a tal criatividade em que os comunistas são muito fortes, aqui aplicada à reescrita truncada da história.

Além da criatividade, o que impressionou nesta declaração foi o cuidado que Jerónimo de Sousa teve para não se enganar e não dizer “comunismo” e “comunista” em vez de “nazifascismo” e “nazifascista”. É que, tendo em conta que os hediondos crimes e a barbárie pontificaram de forma tão igualitária em ambos os regimes, torna-se mesmo muito fácil confundi-los.

Mas, calma. Não se pode baralhar comunismo e nazismo, porque os comunistas combateram os nazis. Quer dizer, poder pode. Por exemplo, imaginem que o nazismo é o Freddie Krueger e o comunismo é o Hannibal Lecter. Agora, visualizem os dois serial killers numa película (que urge ser feita) em que Hannibal Lecter domina Freddie Krueger — talvez atirando-lhe uma colecção de ímans de frigorífico que lhe manietam aquela garra –, acabando por papar-lhe a mioleira como era tanto do seu agrado. Ora, passa Hannibal Lecter a ser um indivíduo recomendável só porque contribuiu para um mundo melhor, livre do terror de Freddie Krueger? Hum. Talvez não.

Terminando num registo mais ligeirinho, para desenjoar, deparei-me com a seguinte curiosidade. Segundo a internet, entre os 8 países europeus com melhores sistemas públicos de saúde estão a Suécia, a Holanda e o Reino Unido. Ora, em todos estes países, a taxa de mortalidade pela Covid-19 é superior à dos Estados Unidos da América. Sendo que no Reino Unido, pátria do incensado NHS, esse valor é quase o dobro do norte-americano. Portanto, aguardo com expectativa o novo filme de Michael Moore a arrasar os miseráveis sistemas públicos de saúde europeus. Mas acho que antes ainda estreia a minha fita com o Freddie Krueger e o Hannibal Lecter.