Portugal atravessa hoje a neblina da pandemia que assolou o mundo e que nos remeteu, a quase todos, para o interior de quatro paredes, diminuindo a propagação do vírus e garantindo a eficácia do combate à Covid-19.

As ruas estão desertas. As pessoas fechadas. Os edifícios públicos de porta entreaberta. As empresas vedadas ao exterior.

Se é verdade que a paisagem mudou e que o vazio é a nova normalidade, não é menos verdade que dentro de quatro paredes há um país que continua a mexer, ainda que se locomova com menos intensidade e com os motores a meio gás.

E é aqui que reside a esperança: estamos a ser, enquanto sociedade, capazes de nos adaptarmos sem aviso prévio para garantir que o país não fecha para férias e que, quando chegar a hora da recuperação, as máquinas estão prontas a trabalhar na potência máxima porque não pararam por completo.

O vírus trouxe-nos duas certezas. A primeira é que boa parte da nossa relação com o Estado pode ser digital. A segunda é que existe um infindável número de profissões cujas atividades diárias são compatíveis com o trabalho à distância.

Fazer do vírus modernidade é garantir que, assim que possamos retornar à normalidade, o Estado e as Empresas começam a trabalhar para preparar as suas estruturas para uma modernização administrativa e laboral a sério.

Ao Estado exige-se que olhe para os bons exemplos que já existem e que digitalize o máximo possível a sua relação com o cidadão e com as empresas.

Veja-se a forma como a Estónia galopou a digitalização dos seus sistemas Estatais desde que se tornou um Estado independente e como hoje é possível ao cidadão do sítio mais ermo do país resolver todos os seus assuntos públicos online.

Naquele país 99% dos serviços públicos encontram-se online, mantendo ainda assim o seu suporte físico para aqueles que não conseguem aceder virtualmente. Os impostos, a saúde, a educação, a justiça, a mobilidade e a banca são tudo áreas em que o cidadão consegue, através de um computador ou smart-phone, comunicar com o Estado e resolver a maioria dos problemas que lhe possam surgir e é por isso que a Estónia é também conhecida por e-Estonia.

Um Estado que baseia a sua relação com o cidadão e as empresas no mundo digital, é um Estado mais eficaz, mais próximo, mais transparente e com uma capacidade de resposta mais rápida e com menos custos para os contribuintes.

O Estado Português tem de compreender que é imprescindível facilitar as relações entre o próprio, os cidadãos e as empresas e que essa simplificação só é possível com uma modernização administrativa profunda e voltada para o digital.

Às empresas exige-se que olhem para este momento e compreendam que os seus funcionários podem cumprir com muitas das suas obrigações profissionais sem ter de passar os cinco dias da semana num escritório.

Os trabalhadores devem poder, no futuro e nos casos em que seja possível, optar por trabalhar a partir de casa pelo menos um dia da semana.

Isto significaria um aumento substantivo na qualidade de vida das pessoas, uma diminuição das horas que muitas delas passam em transportes no trajeto casa-trabalho, um aumento na motivação e, consequentemente, um aumento na produtividade e no desempenho do trabalhador.

As empresas têm de compreender que um trabalhador feliz é um trabalhador que está mais disponível para fazer mais e melhor. E um trabalhador ficará certamente mais feliz se, em pelo menos um dos dias da semana laboral, puder trabalhar na sua casa, num jardim, numa esplanada, ou em qualquer outro lugar que não o sítio onde passa atualmente 40h (ou mais) por semana.

A aposta no trabalho à distância é um passo fundamental rumo a uma transformação profunda do nosso mercado de trabalho, que tenha como eixo o balanço entre a atividade profissional e a vida para além do trabalho.

E se para o Estado a transformação que se exige é muito grande, para as empresas a mudança seria mínima e sem custos. Os sistemas já existem, os processos já existem e a única coisa que se encontra entre o estado das coisas pré-Covid e uma modernização do trabalho é a tomada da decisão.

Fazer do vírus modernidade é colocar o foco na pessoa e na sua felicidade. É usar uma catástrofe como a que atravessamos neste momento e usá-la como pretexto para as transformações que sempre tivemos medo de levar a efeito.

É quebrar com a burocracia que esmaga a relação entre o Estado, o cidadão e as empresas e digitalizá-la ao máximo, para que essa mesma relação não seja um fardo, mas antes uma coisa tão simples quanto um click.

É deixar de lado o paradigma de trabalho que persiste há décadas e dar o primeiro passo rumo à sua transformação, olhando para a felicidade, qualidade de vida e motivação do trabalhador como ativos imprescindíveis à empresa.

Fazer do vírus modernidade é ter os cidadãos, as empresas e o Estado de mãos dadas no caminho da modernização e digitalização das relações entre eles, colocando a qualidade de vida no centro do eixo.

No fim da pandemia, façamos do vírus modernidade.