Estava eu ontem a almoçar num restaurante, enquanto lia uma boa revista, quando, da mesa ao lado, me chegou um início de conversa: “Então, viste o Sócrates? Fino como um alho!”. Não ouvi o resto, mas a coisa tinha sido dita naquele tão frequente tom de admiração cúmplice que muita gente tem pela capacidade de vigarizar o outro que certos animais humanos exibem em abundância. E lembrei-me de quantas vezes, exactamente a propósito do mesmo Sócrates, ouvi aquele tom. O mesmo deleite com a habilidade em se esquivar ao que não interessa, o mesmo gozo com o gosto plebeu da afirmação da força, o mesmo comprazimento com a inventividade do ludíbrio. “Fino como um alho!”. As pessoas não mudam.

Sócrates, sem dúvida, não mudou. Basta ver a linguagem que se ouviu na sua entrevista da TVI, a sua feroz linguagem de sempre, desta vez aplicada quase exclusivamente ao Ministério Público e à procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal. “Campanha de difamação”, “campanha de denegrimento”, “operação de terror”, “terrorismo”, “cinismo”, “dimensão selvática”, “selvajaria”, “brutalidade”, “ódio pessoal”, “interesse venal”, “deslealdade”, “sordidez”, “insinuações”, “perseguição”, “devassa” e por aí adiante. Uma linguagem de uma passionalidade ininterrupta em que o “detestável eu”, como dizia o outro, ocupa todo o lugar. Ao ponto de, atribuindo a decisão do Ministério Público de o manter em prisão à vontade de prejudicar eleitoralmente o PS, sugerir simultaneamente uma explicação mais profunda: o inevitável “ódio pessoal” ao seu ser.

O que, é claro, não o impediu de fingir que não era assim, que tudo o que dizia relevava da mais funda racionalidade: “Vou guardar os meus estados de alma para outra altura”, disse às tantas. Uma pessoa treme só de pensar o que se passará nessa “outra altura”. É de recear que, nessa exibição a vir dos “estados de alma”, não haja sequer lugar para as referências eruditas, como desta vez ainda houve: René Char (comparando a decisão de não aceitar a “pulseira electrónica” com a entrada de Char na resistência francesa aos nazis – nada menos do que isso!), Montesquieu, e, finalmente, Goethe e Walter Benjamin, escritores entre os quais oscilou na atribuição da autoria de “As afinidades electivas”.

(Como se sabe, foi Goethe quem escreveu o livro, e Benjamin dedicou à obra um texto célebre. Mas, enfim, não é grave, e seria pedante, além de excessivamente ridículo, censurar a Sócrates as suas imperfeições culturais. Estranho verdadeiramente foi ver a historiadora Raquel Varela, em comentário à entrevista, no mesmo canal, classificar Benjamin como um dos filósofos mais importantes da Europa do pós-guerra. Já que Benjamin se suicidou, fugindo dos nazis, em 1940, na pequena localidade espanhola de Portbou, estaria ela a pensar na guerra de 14-18?)

A entrada em nossas casas dos eflúvios agressivos desta curiosa, e por mim já quase esquecida, mónada psíquica foi facilitada pela singular atitude do entrevistador, José Alberto Carvalho. Nada me move contra José Alberto Carvalho, ou a TVI, mas ambos inventaram um género televisivo inédito: a entrevista sem perguntas. Num estilo intimista, Sérgio Figueiredo, director de informação da TVI, resumiu no Diário de Notícias a entrevista da seguinte maneira: “Zé questiona, Zé responde. Zé pergunta, Zé reage”. Francamente, há aqui um balanço entre os dois intervenientes que não se viu. Quando muito, o primeiro Zé tentou, sem muita convicção, questionar. Mas mesmo esses modestos contributos, somando tudo achegantes, o segundo Zé quase não os permitia, porque logo, passadas as primeiras sílabas, roubava ao primeiro a palavra. Não sei porque carga d’água a coisa foi feita assim. Imposição do segundo Zé? Talvez. Mas devia a TVI ter aceite fabricar um produto de tal modo esquisito? Não.

Mas tanto a entrevista como, em muitos aspectos, o próprio Sócrates, são coisas pouco importantes. Como a maior parte dos portugueses, suponho, quero é que a justiça faça o seu trabalho e que Sócrates aguarde, nas melhores condições e, na medida das suas possibilidades, sem nos chatear, o trabalho da justiça. O que me preocupa, nesta história, é o “fino como um alho!”. Porque esta apreciação de certos indivíduos diz algo de mau da nossa relação com a justiça. Sem querer brincar com os nomes – o que neste caso seria particularmente obsceno -, tal relação com a justiça é exactamente uma daquelas que Sócrates combate no Livro I da República (o único genuinamente “socrático” da obra). Trasímaco, o sofista, defende duas teses. A primeira é de que a justiça é puramente convencional e representa o interesse dos mais fortes. A segunda, mais radical, e não perfeitamente coerente com a primeira, é que a justiça é uma coisa estúpida e a injustiça é pagante. É a segunda tese que mais profundamente exprime o pensamento de Trasímaco.

É esta mesma convicção de Trasímaco – a justiça é uma coisa estúpida e devemos ser injustos, se quisermos, como devemos querer, o nosso benefício pessoal – que está por detrás do “fino como um alho!”. A cúmplice admiração para com o segundo Zé é a expressão de um desejo de ser como se imagina que ele é: esperto, capaz de “dar a volta” às coisas, desinteressando-se em absoluto da verdade e capaz de ludíbrio hábil. Tal admiração sempre me fez impressão, até porque ela é muito difundida e, inevitavelmente, acaba por guiar as vidas de quem nela vive, poluindo a existência em sociedade. Sócrates diz-nos que não é com essa crença que devemos viver as nossas vidas. E não é. Sócrates tem razão, e Trasímaco, “fino como um alho”, não.

A propósito. Trasímaco, a acreditar em Platão, também era um “animal feroz”, como os adeptos do nosso Sócrates o imaginam ser. “Ora, muitas vezes, mesmo enquanto conversávamos, Trasímaco tentara assenhorear-se da argumentação, mas logo os circunstantes o haviam impedido, pois queriam ouvi-la até ao fim. Assim que parámos e eu disse aquelas palavras, não mais ficou sossegado, mas, formando salto, lançou-se sobre nós como uma fera, para nos dilacerar” (tradução de Maria Helena Rocha Pereira).