Cá estava eu a escrever a minha crónica para hoje, sobre um tema que pode ficar para outro dia, e eis que mais uma vez não consegui livrar-me da sensação de que havia na sala um grande elefante de que era preciso falar.

Na semana passada, escrevi sobre o artigo do Giles Coren acerca da cozinha portuguesa, muito engraçado, mas também muito cruel. Embora o Giles reconhecesse subtilmente a sua ignorância, foi fabulosamente condescendente. É uma das coisas que mais me irrita, essa coisa de alguns ingleses não entenderem que o “estrangeiro” não lhes é inferior. Nota-se isso até nos mais esquerdistas, nos mais politicamente correctos (os opostos do Coren). Esse sentimento é partilhado pelos ingleses que se mudam para cá. Suspeito que muitos deles imaginam que uma inglesa a escrever em Portugal é o tipo de pessoa que produz artigos a elogiar campos de golfe para revistas turísticas, sentada numa espreguiçadeira ao lado da piscina, com uma camisa sem mangas, em cores de pastel, ténis de senhora e um chapéu de baseball.

Durante esta semana, o artigo de Gilles Coren infiltrou o resto da imprensa portuguesa e chegou aos Facebooks de vários chefs de cozinha. Os pingos de insultos contra ele e contra toda a comida inglesa (e contra todos os ingleses) tornaram-se um pequeno tsunami. Tenho a certeza de que 99% das pessoas que lhe dedicaram uma raiva a cheirar a sardinha não tinha lido o artigo dele (estava em inglês e atrás do paywall do Times), apenas o título da minha crónica ou das outras notícias sobre o tema, mas terá sido o suficiente (como previ) para as suas cabeças rebentaram. Não leram o que ele escreveu. Não sabem que ele foi igualmente cruel (embora subtilmente) para com a cozinha inglesa, a irlandesa e também a polaca.

É tão fácil atiçar guerras e xenofobias.

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Houve muitos comentários em muitos sítios (dei uma vista de olhos, claro). Houve muitos dirigidos pessoalmente contra Coren no Twitter, mas milhares e milhares mais em sítios que ele nunca há-de ler porque a) estão escritos em português, b) estão no Facebook e c) ele está-se nas tintas. Parece que existe uma necessidade primordial na sociedade portuguesa para escrever que a culinária inglesa é péssima e que os ingleses são umas bestas. A mesma coisa é verdade para os ingleses, com a sua tendência para gozar com os estrangeirinhos. Cada nação é uma pústula gigante de xenofobia que precisa de ser espremida de vez em quando.

O que me espanta, conhecendo os dois lados muito bem, é a paixão com que nós, aparentemente, nos odiamos uns aos outros.

“Fish and chips!! Fish and chips, seu filho da puta!!!” e “como é que um INGLÊS se atreve??”, ou “os ingleses não sabem NADA sobre culinária!!!, etc., etc., etc. – eis uma súmula do estado de espírito do lado português.

“HAHAHA!! O Coren tem razão!! e vejam lá como os patetas dos portugueses não têm sentido de humor” — é o resumo do lado inglês.

De início, pode ter piada. Depois, torna-se embaraçoso ver estes insultos aplicados liberalmente a todos os ingleses e a todos os portugueses, só porque um palerma com uma boca grande se permitiu gozar com Portugal.

Muitas vezes, sou acusada de ser xenófoba e racista por uns quantos leitores portugueses. Porquê? Porque não escrevo sobre os unicórnios e os arcos-íris de Portugal para revistas in-flight, como compete a um estrangeiro simpático e bem comportado. Sim, reparo nas bostas de cão nos passeios. Reparo porque estão lá, nos passeios, não porque seja uma inglesa convencida. A pústula de xenofobia não resiste muito à agulha quando eu digo algo menos elogioso sobre Portugal. É engraçado.

E já que enchi a vossa cabeça com imagens de pústulas, há mais uma coisa que quero dizer. É sobre o célebre prato inglês fish and chips, constantemente citado por alguns portugueses para dizer mal da cozinha inglesa.

Aposto que a maioria dos leitores portugueses desta crónica nunca comeu fish and chips. Não, não vou dizer que fish and chips é o melhor prato do mundo e que estão a perder uma grande coisa. Nada disso. O que quero dizer é só isto: fish and chips são filetes de peixe com batatas fritas. Mais nada. E a ironia cheia de gordura é que, tal como todas essas outras coisas tipicamente inglesas que os ingleses têm de agradecer aos portugueses (chá, malaguetas, doce de laranja), também foram os portugueses que introduziram a ideia de peixe frito com polme em Inglaterra.

Fish and chips: a culpa é dos portugueses.

(texto original inglês traduzido pela autora)

Fish and chips are the fault of Portugal

There I was, again, writing this week’s crónica about something that can keep for another day, when I couldn’t shake the feeling that there was a vast elephant in the room that I needed to mention.

Last Monday, I wrote about Giles Coren’s very funny but very nasty column about Portuguese food. It was funny, but yes, it did irritate me. As much as Giles subtly acknowledged his own ignorance, he was wildly patronising about Portugal. It’s one of my bugbears that many English people do have a tendency to not understand that “abroad” isn’t inferior to them. You can see it even in the leftiest, most politically correct amongst them (i.e. the polar opposite of Coren). That extends to the people who move here. I expect that many would imagine that some English woman writing in Portugal isn’t the civilised kind of foreigner that has the good taste to take up residence in London, but the kind of person who writes puff pieces about golf courses for tourism magazines, sitting by a pool in the Algarve, wearing pastel coloured sleeveless shirts, lady trainers and a sun visor.

During the week, Coren’s column filtered through to much of the rest of the Portuguese press and to some of the celebrity chefs and their facebook pages, and the initial trickle of insults towards him and all English food (and English people) gathered into a minor internet tsunami. You can be sure that 99% of people who launched their delicious-grilled-sardine-smoked ire at him hadn’t read his column (because it’s behind a damned paywall…) and just read either my headline or those elsewhere and maybe one or two paragraphs before (as I predicted) their heads exploded. They didn’t read what he actually wrote. They didn’t read that he was just as (albeit subtly) rude about English, Irish and Polish cookery.

How easy it is, I realised, to stoke up a xenophobic fire.

There were so many comments in so many places (yes, of course I was watching). There were many, of course, directed at Coren on Twitter, but thousands and thousands more elsewhere, that he would never read as they were a. in Portuguese and b. they were in facebook and c. he doesn’t remotely care. It seems like there is a primal need to shout about how dreadful English food is and how horrible the English are, at someone who will never read what you wrote, to vent your angry spleen. The same goes for the English, with a need to take the piss out of the funny little foreigners. Each nation a pustulant boil of xenophobia that needs to be expressed from time to time.

What amazes me, knowing both sides very well, is the passion with which we all apparently hate each other so very much, how very filled to bursting those boils are.

“Fish and chips! Fish and chips, you filho da puta!!” and “how DARE an ENGLISHMAN, the English know NOTHING about food, etc etc etc…” pretty much sum up the mood of the Portuguese side.

“HAHAHA! Coren was right! and look at those pathetic humourless Portuguese!” pretty much sums up the mood English side.

At first, it was amusing. Then it became embarrassing. Insults liberally applied to all the English and all the Portuguese because one shouty gobshite had taken the piss.

I am often angrily accused of being a xenophobe and a racist by Portuguese readers. Why? Because I don’t write about the unicorns and rainbows of Portugal for in-flight magazines, like a good, nicely behaved foreigner is, apparently, supposed to. I point out the dog shit on the pavement. I point it out because it’s there, though, not because I am a snooty English woman. The pustulant boil of xenophobia doesn’t take much of a pin prick when I say something negative about Portugal. Funny.

Now that I have filled your head with the image of pustulant boils, there’s just one more thing… it’s about fish and chips, which some Portuguese are always coming up with to badmouth English cooking.

1. I bet you’ve never even eaten fish and chips. No, I’m not saying they’re good and that you’re missing out. They’re not, and you’re not. I’m just saying that I bet you’ve never even eaten them.

2. What the hell do you think filetes de peixe are? And filetes com batata frita…. HELLO?

3.. The fabulously greasy irony is that, as well as all the other typically English things that the English have to thank the Portuguese for, i.e. tea and chillies and marmalade, and be reminded of on a weekly basis, it was the Portuguese who helped introduced the idea of fish fried in batter to the English. http://news.bbc.co.uk/2/hi/8419026.stm

Fish and chips? They’re Portugal’s fault.