Rádio Observador

Futuro da Grécia

Foi a Albânia senhores, foi a Albânia

Autor
2.205

Pouco a pouco a Grécia desapareceria das notícias, porque estas não confirmariam o que a esquerda tinha sonhado. E quando a esquerda não vê os sonhos confirmados faz de conta que nunca aconteceu nada.

Quem comandou as negociações em Bruxelas não foi a Alemanha, não foi a França nem o Eurogrupo ou o Conselho Europeu. Foi simplesmente a Albânia. Como foi isso possível? A Albânia não faz parte da UE. A Albânia é paupérrima. Ninguém conta com a Albânia para nada. Por isso mesmo. Tsipras é grego e sabe bem que a Albânia seria o futuro do Grécia caso ele não chegasse a acordo com os credores.

Uma coisa é ser demagogo, fazer bluff, levar o povo para aventuras desastrosas. Tudo isso Tsipras fez mas cedeu quando percebeu que, se não assinasse um acordo com os credores, só lhe restava ver a Grécia transformada no próximo parque temático dos esquerdistas europeus. E esse destino os gregos conhecem-no bem pois têm-no ali mesmo ao lado, na Albânia.

A Albânia que não cedeu ao capitalismo, a Albânia que lutou contra o revisionismo. A Albânia que estava contra os grandes blocos. A Albânia que disse não. A Albânia que acabou tão irrelevante e tão pobre que os albaneses nem têm direito a que se fale da sua crise humanitária, pois a miséria que na Grécia comove, na Albânia chama-se qualidade de vida. Traço pitoresco nas notas dos viajantes, relato de jornalistas em busca do “autêntico”.

Os gregos de direita e de esquerda aldrabaram as contas do país e acharam que os credores os tinham de sustentar porque eles já deviam imenso, mas todas essas tropelias visavam arranjar dinheiro para os bolsos dos gregos. Jamais os gregos estiveram interessados em sair do sistema. Antes pelo contrário. Se possível viver à conta dele mas sempre dentro dele, pois melhor ainda não se inventou.

Sem petróleo como a Venezuela (o que não quer dizer que dentro de poucos anos a Grécia não esteja a explorar intensivamente gás) e sem uma forte agricultura como tem a Argentina, à Grécia em ruptura com os credores restava tornar-se economicamente uma nova Albânia. Nas primeiras semanas não lhe faltaria a boa imprensa. Foi assim com a “libertação” do Vietnam e do Cambodja. Foi assim com as “zonas libertadas” da Guiné. Foi assim com os “movimentos de libertação” de Moçambique e Angola. Tem sido assim com a Faixa de Gaza. E o comandante Marcos que depois de libertar Chiapas ia libertar o México? E Guantanamo que ia fechar? E a primavera árabe?… Depois a Grécia seria rapidamente esquecida, como sucede com todas as causas das almas que se dizem progressistas e que até há pouco faziam cordões humanos semana sim semana não. Agora já não dão as mãos, escrevem sobre a malvadez da “senhora Merkel” (porque não haverá o “senhor Hollande”?) nas redes sociais enquanto escolhem compotas biológicas e embalagens de quinoa em espaços gourmet.

Durante o Verão alguns eurodeputados iriam descontrair dançando o sirtaki nas suas rentrées. Já mais para o Outono alguns professores universitários europeus iriam fazer umas palestras em Atenas. Nas reportagens de rua os jornalistas disputariam o mesmo velho grego que diriam símbolo do orgulho indestrutível dos descendentes de Péricles. Depois todos arrumariam a mala e debandariam para outras paragens. Pouco a pouco a Grécia iria desaparecer das notícias, porque as notícias não confirmavam o que a esquerda tinha sonhado para a Grécia. E quando a esquerda não vê os seus sonhos confirmados faz de conta que nunca aconteceu nada e logo se dedica afanosamente a outra libertação.

Mas Tsipras não lhes fez a vontade. Não por uma questão ideológica. Foi simplesmente manha e pragmatismo: a não ser os credores do costume ninguém pôs dinheiro na mesa dos gregos e estes em nome de ideologia alguma estão dispostos a vê-la vazia. Acreditaram primeiro que “bater o pé à Merkel” seria a solução. Viram que não era e por ironia não só se confrontaram com a revolta dos pequenos países da UE como a proposta alemã de saída temporária da Grécia do euro talvez fosse a que melhor servia os interesses gregos. Por fim a Grécia ficou no euro. Tsipras perdeu o Syriza e o respeito de Varoufakis, mas os multibancos vão voltar a ter dinheiro. Lá mais para o fim do Verão a esquerda há-de arranjar uma nova causa – a independência da Catalunha? –, a França continuará a apostar em estratégias suicidas para enfraquecer a Alemanha (o euro destinava-se segundo Miterrand a combater a hegemonia alemã!), a Grécia fará de conta que reforma… Só a Albânia continuará pobre e ignorada.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Polémica

A ostraca /premium

Helena Matos
1.072

Todos, a começar pelo director do Público, teremos a qualquer momento o nosso nome inscrito na lista dos que devem ser banidos. A ditadura das causas exige-o. 

Justiça

O azar dos habitantes do prédio Coutinho /premium

Helena Matos
3.757

Todos sabem que não existe interesse público que justifique a demolição. Mas dá-se como adquirido que o Estado vai ganhar. Depois dirão: as vítimas tinham razão. É o síndroma azar dos Távoras. 

Rússia

A síndrome de Istambul chegou a Moscovo /premium

José Milhazes

O Kremlin teria um sério teste à sua popularidade se permitisse a realização de eleições municipais em Moscovo e do governador de São Petersburgo limpas e transparentes. Mas isso não deverá acontecer.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)