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Sanções

Foi bom para Portugal mas não foi para António Costa

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A aliança das esquerdas é uma coligação anti-reformista. A partir daí, percebeu-se que estaríamos perante um destino trágico: o o que é bom para a geringonça não é bom para Portugal e vice-versa.

Se Costa colocasse os interesses de Portugal à frente dos seus interesses, no ano passado, teria aceite ser vice-primeiro-ministro de Passos Coelho e ter formado uma grande coligação com o PSD e com o CDS. Não seria uma coligação política ideal, mas a geringonça também não é, como se tem visto. E tempos extraordinários exigem por vezes soluções pouco usuais. Mas haveria uma grande diferença. Uma grande coligação à portuguesa teria capacidade para fazer reformas que o país e a sua economia necessitam. A aliança das esquerdas é uma coligação anti-reformista. A partir daí, percebeu-se que estaríamos perante um destino trágico: o o que é bom para a geringonça não é bom para Portugal e vice-versa.

Este pecado original condenou o mandato de António Costa e Portugal pagará um preço muito elevado, como muitos começam agora a perceber. No meio de tantas más notícias, da economia ao sistema financeiro e à destruição de grandes empresas nacionais durante o consulado de Sócrates, houve uma boa notícia. A Comissão desistiu de propor sanções contra Portugal. Mais do que qualquer governo, este ou o anterior, em primeiro lugar, os portugueses não mereciam as sanções. Depois de tantos sacrifícios, a imposição de sanções constituiria uma agressão por parte da UE. Já disse mais que uma vez, o mérito do cumprimento do programa imposto a Portugal pelo governo de Sócrates e pela União Europeia foi sobretudo dos portugueses. Por isso, cada vez que o actual governo e os seus aliados das esquerdas afirmam que Portugal falhou estão a ofender, acima de tudo, os portugueses.

O episódio das sanções trouxe-nos ainda uma novidade. Pela primeira vez, o actual governo defendeu explicitamente a herança de Passos Coelho e de Paulo Portas. Disse em Bruxelas que o governo da coligação PSD-CDS não merecia ser sancionado. A Comissão Europeia concordou e deixou cair as sanções. Mas manteve as pressões sobre o executivo de Costa para aprovar medidas extraordinárias ainda para este ano e, sobretudo, para apresentar uma proposta de orçamento para 2017 que respeite as regras do Pacto Orçamental. Ou seja, a Comissão disse aos portugueses: o problema não foi o anterior governo; a geringonça é o problema.

António Costa não defendeu a execução orçamental do anterior governo por bondade ou por respeito pelo legado de Passos e de Portas. Defendeu porque um dos tabuleiros do seu jogo politico previa um confronto com Bruxelas. As sanções seriam o pretexto ideal para esse conflito. Juntamente com o “Brexit” e com a situação dos bancos, o PS e o BE teriam o contexto ideal para eleições antecipadas. Os argumentos da campanha já estariam mesmo alinhados. ‘Fizemos tudo para cumprir o nosso programa, mas acontecimentos inesperados, como o ‘Brexit”, que agravaram a economia europeia, a terrível herança do anterior governo nos bancos e o dogmatismo ideológico de Bruxelas não nos permitem fazer mais. Precisamos de um mandato mais forte para confrontar Bruxelas. E esse mandato só nos pode ser dado pelos portugueses e pela força da democracia.’ Seria a conclusão ideal para a farsa da geringonça.

Costa tinha, porém, um obstáculo em Belém. Sabia que o Presidente não quer eleições legislativas antes das autárquicas do próximo ano. Teria assim que forçar Marcelo Rebelo de Sousa a ir contra a sua vontade. Mais uma vez, só as sanções europeias o poderiam ajudar a contrariar Belém. Mas o Presidente percebeu as intenções de Costa e antecipou-se. Convocou os partidos e retirou as eleições antecipadas do calendário político. Costa ainda pode tentar forçá-las, mas agora já não tem qualquer dúvida. Antes do confronto com Bruxelas, terá que derrotar Rebelo de Sousa. Não será fácil. Depois do Presidente, a Comissão Europeia pode ter enterrado definitivamente a estratégia belicista de Costa, deixando as sanções na gaveta. Ironicamente, uma aliança entre o velho PPE, Marcelo Rebelo de Sousa e Juncker, derrotou a estratégia de Costa.

A partir de Setembro, os sarilhos de Costa vão agravar-se. As notícias sobre a economia e a execução orçamental deste ano vão ser más. Já todos perceberam. A discussão sobre o orçamento do próximo ano vai ser penosa. A situação dos bancos vai piorar. Aliás, é provável que Portugal venha a precisar de um programa de ajuda europeu para recapitalizar o sistema financeiro. Tragicamente, os portugueses não podem esperar deste governo as reformas que o país precisa com urgência. Pelo contrário, estão entregues a uma coligação contra-reformista. E o país pagará um preço alto pelas contra-reformas das esquerdas.

Não conseguindo forçar eleições antecipadas, Costa e os seus aliados tentarão ficar no poder o máximo de tempo possível. Um dos tabuleiros dos jogos políticos de Costa tem como título, “a imprevisibilidade da política”. Pode sempre acontecer qualquer coisa inesperada que o salve e lhe dê mais um tempo de poder. A geringonça foi criada para o poder, ficará o máximo de tempo possível no poder e morrerá no poder. O poder e nada mais que o poder é o que conta hoje para as esquerdas nacionais. Reformas, o interesse do país, o bem dos portugueses, isso tudo ficará para o próximo governo.

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