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A generalidade dos comentadores e da imprensa europeia preferiram realçar a derrota “em toda a linha” da Frente Nacional (FN) na segunda volta das eleições regionais no país. É um facto. Marine Le Pen aspirava a vencer o Norte (Nord-Pas-de-Callais-Picardie), em que saíra vencedora há uma semana, perdeu o norte. A sua sobrinha, Marion Marechal-Le Pen, aspirava a vencer o sudeste (Provence-Alpes-Côte de Azur), em que saíra vencedora há uma semana, perdeu o sudeste. E as esperanças na Alsácia-Champagne-Ardenne-Lorraine também se esfumaram. A FN não lidera qualquer região de França.

Esfumou-se em sete dias a grande onda vitoriosa dos nacionalistas franceses, do partido que o patriarca, hoje renegado, Jean-Marie, criou há 43 anos? Bem…

A FN manteve praticamente intacto o número de votantes conquistado na primeira volta destas eleições, podendo por isso dizer-se que fixou o seu eleitorado; foi derrotada pelo efeito conjugado da mobilização adicional de 4 milhões de votantes em relação à primeira volta e das alianças pontuais entre o Partido Socialista (PS) e os Republicanos, que fizeram desaparecer o PS dos Conselhos Regionais de duas grandes regiões, como Marine Le Pen frisou; tornou-se, como também referiu, o principal partido da oposição nas 13 regiões da França metropolitana; é indiscutivelmente o partido do momento, a sua líder (e a sobrinha da sua líder) a figura política do país, o seu programa, nacionalista, xenófobo (embora não tanto como o “velho” partido do pai Le Pen), anti-imigração, anti-euro, anti-Schengen, anti-comércio livre, anti quase tudo, a bandeira que ondula mais alto aos olhos de milhões de franceses e à qual os restantes partidos terão de prestar muita atenção – e utilizar os melhores argumentos.

Entretanto, Manuel Valls, o primeiro-ministro socialista, tentou tirar o melhor partido possível da derrota do PS, suplantado pela união republicana à direita na maioria das regiões, tendo até perdido, quase 20 anos depois, o “coração” do hexágono, Île-de-France. Entretanto, Nicolas Sarkozy lidera um partido, Les Républicains (LR) que sucedeu em 2015 à União para um Movimento Popular (UMP), que por sua vez tinha substituído em 2002 a União para uma Maioria Presidencial criada por Jacques Chirac e Alain Juppé. E embora os estatutos do novo LR tenham eliminado o reconhecimento que a UMP fazia das distintas correntes dentro do partido, designadas movimentos, como acontecia na UMP, centristas, conservadores, gaulistas, liberais, convivem num equilíbrio instável que Sarkozy e os seus sarkozistas controlam com dificuldade; resta saber até quando. Entretanto, o presidente François Hollande, a deslizar numa recém-adquirida popularidade, muito por força dos sangrentos acontecimentos de Paris a que respondeu com responsabilidade, capacidade de mobilização e o tom correctos, procura evitar o caldeirão das polémicas partidárias, mantendo um afastamento “presidencial” e uma calculada “pose de Estado”.

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Em suma, a ter havido derrota da Frente Nacional – que houve –, foi uma derrota de Pirro, se a analogia não parecer forçada. E agora, perguntamo-nos com inquietação?

Há, na França profunda, uma enorme insatisfação com os partidos políticos tradicionais, aquilo a que a líder da FN chama “o sistema”. Uma expressão muito francesa ilustra-o bem: “ras-le-bol”, qualquer coisa como “fartos disto tudo”, transformou-se num sentimento traduzível por “ras-le-bolism”. Numa espécie de spleen que o nosso tradicional pessimismo ontológico facilmente entende, os franceses sentem um profundo raslebolism em relação aos seus partidos, aos seus políticos, ao sistema político. Estão fartos.

Há muito que o fenómeno Le Pen vem consubstanciando, dando forma e corpo visível, assustador mas presente, a tal sentimento. O desemprego. A ameaça crescente das cités, encaradas pelo francês médio como alforjes de radicalismo e pelos habitantes das cités como ilhas de exclusão do republicanismo gaulês apregoado como universal e de que se sentem pura e simplesmente banidos. Os imigrantes, em “hordas” sucessivas e crescimento exponencial. A perda da grandeza da Nação – “há um pacto 20 vezes secular entre a grandeza da França e a liberdade do Mundo”, proclamava De Gaulle em 1941 -, transformada na muleta inerte do domínio germânico da Europa. E finalmente, o medo: a insegurança: o jihadismo: a incapacidade do “sistema” de impedir o ataque feroz e desumano desencadeado no coração das luzes. Em Paris.

Será tudo, afinal, causado pelo medo? O partido xenóbofo, negacionista (do holocausto nazi), quase racista, protagonizado por Jean-Marie Le Pen, foi substituído por um partido muito mais moderado na linguagem, humanizado, ainda que sempre radical no seu programa. Marine Le Pen ultrapassou as barreiras colocadas pelo extremismo de forma do pai e chegou, nestas eleições regionais, a muitos mais franceses do que em qualquer momento no passado o seu partido aspiraria.

As eleições presidenciais estão no seu horizonte. Aspira a ser a primeira mulher Presidente da velha e respeitada República Francesa. E o conjunto do eleitorado agora fixado concede-lhe uma sólida base de partida. Mas não chega: num sistema maioritário a duas voltas, passando à segunda os dois candidatos mais votados, a líder da Frente Nacional teria de obter a maioria absoluta dos votos expressos pelos franceses. Ou seja, precisa de uma percentagem muito apreciável de adesões adicionais; e não é de todo irrelevante saber-se quem será o seu adversário nessa possível segunda volta.

É ainda cedo para especular. Mas estas eleições foram sem dúvida um formidável sinal de alerta. O medo, a irracionalidade – a pusilanimidade, a corrupção, a venalidade – de tantos políticos franceses (e não só) são sem dúvida o principal factor de radicalização dos eleitores. De tantos franceses, de tantos de nós. Cabe agora aos responsáveis da França, da República, das regiões, das municipalidades, dos partidos, assumir o peso dessa responsabilidade.

Para que desta vitória de Pirro da extrema-direita francesa não surja o novo paradigma de uma França, e provavelmente de uma Europa, mais dividida, mais radical, mais intolerante, mais pobre. De uma França menos francesa. Paradoxalmente.