Um dos capítulos das memórias de Winston Churchill enquanto jovem – o meu favorito, para dizer a verdade – intitula-se: “As Sensações De Uma Carga De Cavalaria”. Nele, aprimoradamente, Churchill descreve todo o momento hípico, épico e militar como alguém que, de facto, esteve a cavalo numa frente de batalha. Eu, que no que toca a galopes nunca passei da praia, confirmo a adrenalina e a velocidade de uma boa montada. “O evento pareceu passar no mais absoluto dos silêncios”, escreveu o inglês. Havia demasiado barulho para se ouvir qualquer coisa. A política e o Brexit, ultimamente, pecam pela mesma surdez.

O senhor Johnson, que, como eu, foi formado no jornalismo tabloide, é um homem de palavras, sim, mas também de revisionismos. A sua biografia sobre Churchill, que soma todas as histórias que se querem ouvir à mesa de jantar sobre o dito, é um exemplo assumido da característica. O que vem dizendo desde que se tornou primeiro-ministro do Reino Unido também.

Boris, que já teve, no seu percurso político, mais sucesso eleitoral do que Winston Churchill e, provavelmente, maior amor dos seus contemporâneos partidários, vive para um dia ser lembrado. Essa é uma pressão permanente, que não devemos necessariamente condenar, até porque quem vive para ser lembrado dificilmente quererá ser lembrado pelos seus erros, isto é, dificilmente desejará errar. Churchill, apesar da justificadíssima glorificação – tão contrastante com os seus anos antes da Segunda Guerra – errou e muito.

O seu maior fracasso foi militar e estratégico – envolvendo também cargas de cavalaria –, e causou sérios efeitos políticos e até globais. Falo, naturalmente, de Gallipoli (1915-1916). Governos, impérios e carreiras caíram após a infame derrota dos Aliados contra o já decadente Império Otomano. Australianos e neozelandeses foram massacrados, num episódio que ainda hoje é recordado anualmente por ambos e dado como fundador das suas identidades nacionais. Churchill foi afastado do Almirantado e impedido de se sentar no Conselho de Guerra durante anos. Quando se tornou primeiro-ministro, décadas depois, na Guerra Mundial seguinte, alguns conservadores próximos de Halifax não se coibiram de relembrá-lo. O seu mais célebre discurso – “We Shall Fight On The Beaches” – começa, aliás, considerando a evacuação em Dunquerque “o maior desastre militar” da história do Reino Unido, quando o prévio dono do título era, afinal, também obra sua.

A Segunda Guerra, apesar de Dunquerque ter sido, efetivamente, um desastre, foi ganha e os fracassos iniciais de Winston, como Gallipoli, foram assim esquecidos, desvalorizados ou relativizados. “We shall never surrender” é uma frase que certamente ecoa diariamente nos ouvidos de Boris Johnson e dos demais defensores do Brexit. Mas será a saída da União Europeia, realmente, um momento Dunkirk do Reino Unido? Tenho, confesso, a maior das dúvidas.

Em primeiro lugar, porque os britânicos, hoje mais orgulhosamente sós do que esplendorosamente isolados, não estão a enfrentar a barbárie do Reich mas antes uma confederação diversa, defeituosa, regulada e livre: a UE. Em segundo lugar, porque as palavras de Churchill – que foram de tal modo fundamentais para o esforço de guerra que lhe valeram o Nobel da Literatura – não venceram a guerra sozinhas. E em terceiro lugar, porque os cidadãos britânicos que atravessaram o Canal da Mancha em lanchas de recreio, há 80 anos, para resgatarem os seus compatriotas fizeram-no em nome de algo unânime: casa. E se há coisa que o Brexit não é, hoje, é unânime.

O senhor Johnson, por quem nutro a gratidão de ter juntado os ofícios parlamentares e jornalísticos, seria sábio em não repetir Gallipoli enquanto almeja Dunquerque. Nem que seja pelo pobre do cavalo – e pelo seu rico país.