Desporto

Ganchinho no seu Everest

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Há e haverá sempre tempo para parar e ver outros protagonistas, outros vencedores. Nesta lógica e com este sentido hoje escrevo sobre o Diogo Ganchinho e os atletas que estiveram em Baku.

Proezas olímpicas são proezas olímpicas. Dá muito gozo ver e rever as imagens que levam os atletas ao podium. Sempre que a bandeira portuguesa se eleva ao alto e o hino nacional se ouve em silêncio, é impossível não sentir um suplemento de emoção.

Neste domingo, Diogo Ganchinho, 30 anos, ginasta do Sporting, venceu a final de trampolim individual sénior do Campeonato da Europa de Trampolins, no Azerbaijão. Portugal teve ali momentos de verdadeira glória. Não só Ganchinho conquistou a medalha de ouro e se tornou campeão europeu, como os atletas nacionais deram cartas em Baku e, em três dias, somaram onze belas medalhas.

Eu sei que no domingo todo o país estava virado para outra competição, suspenso do jogo-título em que venceram os azuis, mas nem apetece o monopólio dos comentários sobre o jogo, nem faz sentido que se fale apenas dos craques da bola, quando há tantas realidades desportivas em que os portugueses são exímios.

Ganchinho venceu e bateu aos pontos duas figuras incontornáveis da ginástica internacional: o bielorruso Mikita Ilynikh e o francês Allan Morante. Mas não foi só ele que se superou neste campeonato europeu, pois toda a selecção teve uma excelente participação em todas as modalidades. No Azerbaijão, graças às performances dos ginastas nacionais, só tivemos motivos de celebração e festa.

Já em Portugal, as coisas não foram bem assim e o Benfica-FC Porto acabou mal, com “graves incidentes que obrigaram a uma carga policial mais musculada e até ao disparo de alguns tiros de balas de borracha”, que levaram à detenção de 7 adeptos e deixaram 6 polícias feridos. Pelas notícias soubemos que choveram pedras, garrafas e petardos sobre as forças policiais e que estas reagiram em conformidade.

Chateia que haja tantos selvagens entre os adeptos de futebol e que estes consigam deixar sempre a sua marca destrutiva numa competição que se pretende fair. Não me esqueço (ninguém se esquece!) do extraordinário fair playdo miúdo português que, no auge das celebrações da vitória nacional, na final do Euro 2016, parou para consolar e abraçar o adepto francês que chorava compulsivamente a derrota do seu país. Na altura o vídeo correu mundo e a Euronews declarou que também por aquele gesto Portugal mereceu vencer.

Voltando a Diogo Ganchinho, a estrela do europeu, é impossível ficarmos insensíveis às suas fabulosas acrobacias, mas também à sua atitude e motivação de fundo, enquanto Global Shaper. Mas antes de ir às suas ideias, vale a pena ver e rever as suas performances, a perfeição dos seus saltos no ar, a leveza e a aparente facilidade com que executa movimentos extraordinariamente complexos. Em slow motionpercebe-se ainda melhor a incrível velocidade e altura das suas acrobacias.

Há um par de meses o atleta escreveu uma crónica neste jornal, falando do ‘desafio da montanha’ que existe em cada homem, no sentido da superação constante. “Em 20 anos ligado ao desporto, aprendi que o verdadeiro crescimento vem da adversidade e do desafio, de nos afastarmos do que é confortável e familiar e sair em busca do desconhecido”.

A coerência de Ganchinho fala tão alto como os saltos que ele dá. Não só pelos everestes que todos os dias escala para conseguir chegar onde chega, mas também por usar a sua voz de vencedor para despertar a consciência dos outros no sentido de perderem o medo de deixar a sua zona de conforto e apostarem numa atitude de descoberta e superação.

O facto de os jogos de futebol e a competição entre clubes e claques esgotarem a atenção de quase todos, sejam os media, as redes sociais, os fãs ou os eternos treinadores de bancada, faz com que pareça que não sobra nada para falar de outros temas para além de golos, penaltis, faltas, jogadores, árbitros, comentadores e misters. Mas sobra. Há e haverá sempre tempo para parar e ver outros protagonistas, outros vencedores, outros escaladores prontos para o desafio da montanha. Nesta lógica e com este sentido hoje escrevo sobre o Diogo Ganchinho e os atletas que estiveram em Baku. Para que também eles tenham o foco e a atenção que merecem.

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