Conhecia o Gastão, o jovem músico de 24 anos que perdeu a vida de forma brutal na madrugada de domingo, quando o prédio onde morava ruiu sobre o seu peito e o sufocou enquanto dormia. Conheci-o ainda novo e já então era um rapaz fora de série.

Muito vivo, muitíssimo inteligente, prodigiosamente eloquente e extraordinariamente criativo era, acima de tudo, muito divertido. Fazia-nos rir com as suas piadas e os seus modos. Acreditávamos facilmente nos seus argumentos e pasmávamos com a sua visão sobre as coisas.

Era um espírito livre e cultivava múltiplos interesses. Não se levava demasiado a sério e podia ser o primeiro a rir de si próprio. Compassivo e sensível, ajudava os amigos em tudo porque os compreendia e nunca lhes falhava. Jamais os julgava, mesmo quando estava em desacordo com eles, e não lhe passava pela cabeça impor a sua verdade. Muito menos a sua vontade.

Certamente por isso foi muitas vezes chamado pelos pais dos amigos a fazer pontes com eles. Pais de jovens adolescentes em idades difíceis, que pediam ajuda ao Gastão, igualmente adolescente, por não conseguirem comunicar com os seus próprios filhos. E ele ajudava sem esconder nada de uns e outros. Compreendia todos, pais e filhos, e tinha um dom natural para dar conselhos sem moralismos. Conseguia dizer sempre palavras boas e encorajadoras. Era uma espécie de voz da consciência, sem censuras, sempre leve e com graça.

Pragmático e responsável, observava, ouvia e agia sem tomar partido. Era, simplesmente, um rapaz lúcido, autêntico e sem artificialismos. A autenticidade do Gastão era adorável, aliás. Desarmante e iluminante. A sua marca era a alegria, com uma certa dose de loucura. Vivia a rir e a fazer rir, sempre com os olhos a brilhar. Tinha paixão por tudo o que era novidade. Era um líder nato e tinha um ascendente natural sobre os outros, mas não abusava do poder de influenciar.

Agora, que partiu de forma dramática e ainda ninguém consegue pôr as ideias em ordem perante uma morte tão inesperada como chocante, nem dá para acreditar na vontade que o Gastão tinha de viver, na sua sede de existir, na sua capacidade de fazer acontecer. Deixou tanto por fazer, quando tinha ainda tudo para dar e para receber.

A sua partida abalou-nos terrivelmente e a sua asfixia impede-nos de respirar como respirávamos. Custa perder alguém como o Gastão, tão jovem, tão talentoso, tão original.

Sensato, mas não de mais, era um filho muito amado. Morava com os pais alternadamente, ora em casa de um ora de outro, e estava em casa do pai, no primeiro andar do prédio que ruiu com a explosão. Tinha uma cumplicidade invulgar com a mãe e o pai, de tal forma que dois dias antes do acidente ambos foram com ele assistir a um concerto em que tocou com outra banda.

Os amigos falam deste amor com admiração e antecipam o sofrimento do pai, ainda internado no hospital, sem saberem como sobreviverá às queimaduras que atingiram 95% do seu corpo, mas acima de tudo à perda do seu querido Gastão.

A inteligência dos outros marca-nos sempre e Salvador Seabra, músico e baterista dos Capitão Fausto, fala do Gastão começando pela inteligência. Ficaram amigos quando trabalharam juntos e gravaram na mesma editora. Impressiona a forma superlativa como o Salvador define o amigo.

“O Gastão era super criativo, superinteligente, tinha imensa energia e era muito bom no que fazia. Era um baixista surpreendente mesmo. Um autodidata a compor e a tocar. Toquei com ele, era muito trabalhador e sempre muito divertido. Mas sabia ser sério na maluquice dele, era muito responsável e fazia a Zarco mexer, ensaiar e trabalhar.”

Era um dínamo humano. Pelos vistos sempre foi, mesmo quando puxava discretamente pelos outros, sem se fazer valer.

“Tocámos juntos e neste ano de 2020 fizemos o disco CucaVida com a nossa editora, a Cucamonga, à distância, todos a trabalhar em casa. O Gastão deu contributos incríveis, ele era mesmo muito bom.”

Quem acompanha as novas bandas de rock portuguesas sabe que a Zarco tinha qualidade e era promissora. Salvador Seabra define-a melhor que ninguém.

“O Gastão e os outros músicos adoravam ouvir rock progressivo dos anos 70, mas também ouviam muita música portuguesa, de Zeca Afonso e José Mário Branco, entre outros. Eles tocavam uma música muito interessante que tanto podia soar a Frank Zappa como a Sérgio Godinho. Nos Zarco, o Gastão era uma peça fundamental. Compunha, escrevia letras e músicas, era muito talentoso.”

Dons e talentos não faltavam ao Gastão, mas quem o conhecia de perto e partilhava o dia-a-dia, diz que o melhor nem sequer era a capacidade de escrever, compor e tocar música. O melhor era a sua sensibilidade, a sua atenção aos outros. Gilda, que trabalhava em casa de grandes amigos, contou que sempre que o Gastão apanhava o mesmo autocarro que ela, fazia tudo para conseguir sentar-se ao seu lado para conversar, saber como estava e contar as suas graças.

Gastão foi vítima de uma derrocada aparentemente provocada por uma explosão no prédio onde morava. Morreu soterrado nos escombros e dói pensar na forma como tudo aconteceu. A sua perda é uma dor que o tempo não vai curar nem apagar, mas talvez conforte saber que será para sempre lembrado e amado pelo dom de continuar a dar vida ao melhor que há em cada um de nós.