Nos tempos politicamente preocupantes que atravessamos, talvez não seja muito oportuno introduzir detalhes ideológicos de (aparente) menor relevo político. Mas, por vezes — muitas vezes — estes detalhes acabam por ter um impacto político inesperado. E este pode voltar a ser o caso na presente conjuntura política euro-americana.

A leitura hoje dominante sobre as clivagens actualmente emergentes na Europa e nos EUA consiste em dizer que estamos perante uma alternativa entre “globalistas” e “proteccionistas”: de um lado, teríamos os defensores da União Europeia e os democratas norte-americanos; de outro, teríamos os brexiteers no Reino Unido, os nacionalistas de vários outros países europeus, e os republicanos de Trump na América.

Receio ter de dizer que esta dicotomia me parece demasiado simplista, para não dizer francamente ilusória e efémera: por outras palavras, uma “dicotomia infeliz”, como costumava dizer o saudoso Ralf Dahnredorf a propósito da tendência do pensamento político continental para inventar permanentemente intransigentes oposições entre conceitos abstractos, sem fundamento empírico observável.

Por que motivo deveríamos identificar os defensores da soberania dos parlamentos nacionais com a oposição ao comércio livre “globalista”? E por que motivo deveríamos identificar os defensores da chamada “governança supra-nacional” com o comércio livre “globalista”? Por outras palavras, por que motivo deveríamos aceitar a oposição inevitável entre soberania nacional e comércio livre global?

No plano estritamente empírico, esta dicotomia não tem fundamento — a não ser talvez na acanhada (ainda que fatídica) experiência da Europa continental na década de 1930, em que os nacionalismos autoritários foram todos enfaticamente proteccionistas e estatistas. Mas esse não foi seguramente o caso do Reino Unido — em que um forte sentimento de soberania do Parlamente nacional esteve associado a uma política de comércio livre unilateral (isto é, mesmo que o resto do mundo fosse proteccionista). E, antes dessa década fatídica, a prática comum entre as nações europeias soberanas era em regra favorável ao comércio livre.

Esta saudável combinação entre espírito patriótico e abertura ao comércio global foi inesquecivelmente descrita por Winston Churchill a propósito da filosofia política de Sir Francis Mowatt, um alto funcionário público que servira o liberal Gladstone e o conservador Disraeli, os dois líderes rivais da Inglaterra vitoriana:

“Ele [Sir Francis Mowatt] representava a completa visão vitoriana triunfante da economia e das finanças: estrita parcimónia; contabilidade exacta; comércio livre, independentemente do que o resto do mundo pudesse fazer; governo suave e firme; evitar as guerras; apenas pagamento das dívidas, redução dos impostos e poupança; quanto ao resto —ao comércio, indústria, agricultura, vida social — laissez-faire e laissez-aller. Deixemos que o governo se reduza e reduza ao mínimo as suas exigências sobre o público; deixemos que a nação viva de si própria; deixemos que a organização social e industrial tome o curso que quiser, sujeita às leis da nação [laws of the land] e aos Dez Mandamentos. Deixemos que o dinheiro frutifique nos bolsos das pessoas”. [Winston S. Churchill, “Personal Contacts”, in Thoughts and Adventures (London: Thornton Butterworth, Ltd, 1934), p. 54].

Por outras palavras, não há qualquer identificação inevitável entre defesa da soberania política nacional e defesa do proteccionismo estatista anti-comércio livre.

Esta muito simples constatação pode no entanto vir a ter profundas consequências políticas. Julgo ter sentido alguns sinais dessas futuras consequências na minha breve recente visita a Washington, de que aqui dei conta a propósito da celebração dos 30 anos do Journal of Democracy.

Em primeiro lugar, na vasta coligação emergente entre os chamados defensores da soberania nacional. Alguns dos meus interlocutores Republicanos em Washington manifestaram algum mal estar com esta vasta coligação. Foi referido com alguma insistência o livro de Patrick J. Deneen, Why Liberalism Failed (Yale University Press, 2018), em que a defesa do nacionalismo surge associada à crítica do mercado livre. Acontece, foi-me sublinhado, que a simultânea defesa da nação e do mercado livre (associado a um governo pequeno, limitado pela lei geral) faz parte do código genético da tradição liberal-conservadora norte-americana.

Em segundo lugar, observei sem qualquer dúvida um mal estar crescente entre os meus interlocutores Democratas. Obviamente contra Trump, mas também contra o “globalismo estatista” crescentemente dominante no partido Democrata e nos sectores intelectuais que o suportam (e crescentemente minoritário no país, à semelhança do estatismo de Corbyn no Reino Unido). Foi-me insistentemente sublinhado o paradoxo da ala “globalista”: por um lado, opõe-se ao sentimento patriótico, defende a imigração sem limites, bem como todo o tipo de minorias, e a chamada “governação global”; por outro lado, é contra o comércio livre global e a favor do proteccionismo.

Um dos meus interlocutores alvitrou, num momento de particular inspiração: “Dá a impressão de que, em sectores intelectuais da esquerda e da direita, cresce um sentimento favorável a maior controlo governamental sobre a sociedade civil e a ‘mão invisível’ do mercado. Na América, essa amálgama não vai seguramente durar muito tempo…”

Foi nessa altura que me lembrei das palavras de Churchill sobre o consenso liberal-conservador da era Vitoriana:

“Deixemos que o governo se reduza e reduza ao mínimo as suas exigências sobre o público; deixemos que a nação viva de si própria; deixemos que a organização social e industrial tome o curso que quiser, sujeita às leis da nação [laws of the land] e aos Dez Mandamentos. Deixemos que o dinheiro frutifique nos bolsos das pessoas”.