Rádio Observador

Crónica

Grandes momentos na história da aviação

Autor

Existe a ideia de que Portugal tem vindo a levantar vôo. O combustível para esse grande momento da história da aviação é a energia renovável mais antiga do mundo: a energia verbal.

‘O meu vinho monovarietal,’ declara um vitivinicultor, ‘é feito de uma única casta’; ‘só numa cidade como esta,’ observa a estalajadeira, ‘poderia haver uma paisagem rural assim’; a Agência Europeia do Desodorizante pode vir a instalar-se na vila de Rexina; e a pintura corre bem. Não são notícias fortuitas ou desligadas entre si. São causas materiais de grandes momentos na história da aviação; devem considerar-se no contexto do apreço que os portugueses crescentemente têm pelo que fazem, e por quem o faz; corroboram a intuição geral sobre o modo como Portugal tem vindo a levantar vôo.

O combustível para os grandes momentos da aviação é a energia renovável mais antiga do mundo: a energia verbal. A energia verbal brota em Portugal com uma intensidade peculiar; é mais pungente que a biomassa, e faz empalidecer o cavalheiro do prólogo do Evangelho de São João. É posta ao serviço de frases que chegam a constituir na opinião de certos autores poesia; mas ao contrário da televisão não produzem efeitos secundários.

Que terão de especial as frases que fazem Portugal levantar vôo? A física ou mesmo a química respondem: têm adjectivos, advérbios, numerais e certos pronomes. As classes de palavras de maior valor calórico são os adjectivos e os advérbios; em terceiro lugar os numerais; em quarto os pronomes da primeira pessoa do plural. Um exemplo de frase comum de valor combustível muito elevado ou máximo, é: ‘Quando somos muito bons somos os melhores dos melhores mais quatro vírgula seis por cento da nossa democracia.’

Há quantidades substanciais de pessoas empregadas na pronúncia de frases combustíveis. Mal acabam ouve-se um tremor mecânico reiterado, que não deixa de lembrar um estômago; das baias dos aeroportos Portugal levanta-se na pista. Irá cumprir-se? Parece à primeira vista que ainda pode cair; mas para surpresa dos muitos que não o conhecem bem ei-lo que, apesar do seu peso, acaba por desaparecer no horizonte. Os oradores descansam; tirada uma última selfie ao avião, dirigem-se para as zonas comerciais dos aeroportos; irão refrescar as gargantas e lavar as mãos. E que confirmações deliciosas encontram lá para o que os move!

Não há de facto aeroporto onde o comércio não ilustre estes momentos, e faça antever momentos destes. Trata-se das lojas através das quais se exportam para Portugal quantidades elevadas de produtos portugueses. Em todas se podem comprar os sabonetes Rica Filha: de coentros, de betão, e de Descobridor. Em várias se podem comer anchovas; e em muitas os ancinhos para o telemóvel despertam cobiça. E que dizer dos azulejos decorativos? São bem entendido decorativos, e revelarão também energia verbal. Mas não é preciso dizer mais nada, visto que são os azulejos que dizem tudo: ‘Em nossa casa até o gato é português,’ ‘Oh ceviche lindo.’

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

Liberdade de Impressão

Miguel Tamen

Na maioria dos casos, as outras pessoas não costumarem ficar impressionadas com as nossas opiniões; ocupadas com o que haverão de dizer, não mostram no geral interesse por aquilo que nós temos a dizer

Crónica

As qualidades das qualidades

Miguel Tamen

Uma acção generosa a que se chega depois de uma análise ponderada tem qualquer coisa de deliberado que a faz parecer-se com a avareza; e pensar em ter coragem é uma variedade de cobardia. 

Crónica

A filosofia pelo fado (IV)

Miguel Tamen

Um grande fado nunca depende dos sentimentos de quem canta: depende de se achar que os outros não têm sentimentos.

Crónica

Museológica da batata /premium

Tiago Dores

Somos um povo com inclinação para a filosofia, com dotes de abstracção tão bons, tão bons, que acabamos por ser mais fortes a discorrer sobre museus imaginários do que a visitar museus reais.

Crónica

O Verão /premium

Maria João Avillez

Quando as coisas “impossíveis” acontecem é como um certificado: sabemos que podem acontecer e por isso, voltar a acontecer. O desconsolo é maior que o consolo.

Política

A rentrée dos artistas /premium

Luís Reis
651

O PS oferece-nos os piores serviços públicos de sempre a troco de um crescimento anémico e da maior carga fiscal de todos os tempos. E proclama que este é o melhor dos mundos e assim devemos continuar

Crónica

Onde é que há gente no mundo? /premium

Paulo Tunhas

Abre-se um jornal ou vê-se uma televisão e só nos deparamos com doses cavalares de virtude a crédito que clama por integral satisfação e danação eterna dos que escapam à sua jurisdição.

Crónica

I love Portugal /premium

Alberto Gonçalves
2.410

Os portugueses lúcidos, coitados, padecem da esperança de que os portugueses restantes acordem para as delícias da liberdade. Sucede que para os simplórios a liberdade não é deliciosa: é uma ameaça.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)