Devia ter sido ontem: a Grécia tinha esta sexta-feira um pagamento ao Fundo Monetário Internacional, e esperava-se que não pagasse. Era a bancarrota, o fim da saga. A Grécia, de facto, não pagou. Mas nem por isso houve bancarrota. Mais uma vez. Nos últimos meses, o governo grego lá foi arranjando dinheiro, e os seus credores lá foram arranjando paciência. A saga continua. A nova data é o fim de Junho: é quando, de uma vez, a Grécia tiver de pagar 1,5 biliões de Euros ao FMI (em Agosto, ainda terá que entregar mais 3,5 biliões ao BCE). Vai o Syriza descobrir algum mealheiro esquecido? Irá a UE inventar mais uma negociação sobre os 7,2 biliões de empréstimos pendentes à Grécia, de modo a adiar a bancarrota helénica? Neste momento, cada vez menos gente acredita que isto acabe bem, mas também já poucos acreditam que isto acabe.

Não vale a pena tentar adivinhar os próximos capítulos. Como é típico destes processos de procrastinação e de arrastamento, quando o inevitável acontecer, será sempre uma surpresa. Entretanto, enquanto esperamos, tratemos de desfazer alguns mitos em circulação. O primeiro diz que o governo do Syriza tem um problema com a União Europeia. Não tem. O segundo ensina que a UE tem um problema com o governo do Syriza. Também não tem.

Tsipras e Varoufakis não têm um problema com a UE. Tsipras e Vaourfakis têm um problema com os gregos. E é esse problema que os empréstimos europeus ou mesmo a saída do Euro talvez já não cheguem para resolver. O Syriza prometeu aos gregos que podiam manter o Euro sem “austeridade”. Mentiu. A mentira serviu, no entanto, para Tsipras e os seus camaradas se apossarem do governo, com a ajuda do sistema eleitoral e da extrema-direita. Uma vez no poder em Atenas, calcularam que seriam capazes de assustar e de dividir a zona Euro com a ameaça de uma falência. A chantagem não chegou até agora para obterem todos os empréstimos que pretendem, mas tem bastado para arrastar as negociações indefinidamente. O pior, para o Syriza, é que, dentro da Grécia, a sua chegada provocou a mais perigosa de todas as revoltas: a dos contribuintes e aforradores. Os contribuintes (um terço dos quais são trabalhadores por conta própria, e portanto menos vulneráveis ao fisco), começaram a deixar de pagar impostos, e os aforradores a tirar o dinheiro dos bancos. Bastarão os 7,2 biliões que o Syriza espera dos seus credores para fazer descer esta maré de desconfiança?

O Syriza tem ainda outro problema na Grécia. O Syriza está a tentar substituir as clientelas dos outros partidos pelas suas clientelas, e portanto não pode pôr em causa o sistema clientelar tradicional. O que significa que não é apenas por ideologia que nunca se atreverá a fazer as reformas de que a economia grega precisa para se libertar de todos os grupos de interesse – sindicais, empresariais, corporativos, etc. — que capturaram o poder político e o usam para obter rendas. Por isso, uma saída do Euro significaria certamente desvalorização, mas não talvez uma grande melhoria de competitividade da economia grega. Os precedentes históricos não auguram nada de bom.

Quanto à UE, o seu problema não é a Grécia, mas a sua própria concepção do Euro. A Grécia representa 2% da economia da zona Euro, e não pesa especialmente no comércio de nenhum dos seus membros (para as exportações alemãs, a Grécia é menos importante do que o Luxemburgo). Não deveria ser mais do que um problema humanitário. É um problema político porque os líderes da UE pretenderam, desde a década de 1990, afirmar o Euro como um degrau irreversível na ascensão histórica de uma Europa unida. O grande medo é que uma saída grega comprometa o carácter definitivo que se quis dar ao Euro. Daí, as hesitações acerca da Grécia, e daí também a tentação de compensar uma eventual defenestração da Grécia com mais um aperto do parafuso unitário europeu. Deseja-se aparentemente dar a ideia de que a porta por onde a Grécia sair se fechará para sempre. É uma ilusão.

Uma mesma moeda não fez convergir as economias e as sociedades da união monetária, e um mesmo governo também não o fará. Essas sociedades e economias não se distinguem só pela dimensão, pela especialização ou pelo nível de riqueza, mas também pelos valores e pelas formas de coesão. Mesmo em Estados consolidados, como no Reino Unido ou na Espanha, temos visto a irrupção de nacionalismos separatistas. Imaginem como seria numa Europa unida. Se a união monetária já não funciona bem, a fusão política funcionaria ainda pior. A experiência do Euro deveria ter sido uma vacina. Mais integração só há-de servir para multiplicar as Grécias na Europa.