“Greenbook” é um grande filme. E não é apenas porque foi oscarizado, o que ainda o coloca mais acima na lista das grandes obras cinematográficas. Não falo da arte nem da estética da película, mas do argumento e da história que o suporta. “Greenbook” conta a história verídica de dois amigos improváveis, na América dos anos 60, em Nova York. Um famoso pianista de música erudita preto, “Doc” Don Shirley, e um pai de família de ascendência italiana, gingão e esperto, de nome Frank “Tony Lip” Vallellonga. O primeiro contrata o segundo como motorista e a história baseia-se quase completamente numa viagem de digressão do músico pela América profunda. Todos sabemos que esta América sulista da altura tinha grandes divisões a nível racial. Podemos ver como o músico preto é ostracizado neste mundo. O italo-americano, na sua truculência mas autenticidade, se ao início também tinha tiques de racista, ao conhecer o músico, começa a admirá-lo e a conquistar a sua amizade. O seu patrão, também desde o início, sempre lhe reconheceu competência e simplicidade. Apesar de o motorista ser um tipo que se mete em sarilhos, no seu emprego problemático como porteiro de discoteca, o filme dá sobre ele uma visão benevolente. Na verdade, não o canoniza nem o condena e, por isso, prefiro “Greenbook” a filmes que procuram ser panfletários e, por isso, parciais.

Tony é um tipo que “resolve problemas” e é por isso que o músico o procura. Alguém que seja motorista e que, além de lidar com todo o tipo de pessoas, saiba também resolver contratempos. Não há pessoa melhor do que ele para aquele trabalho. Direto, assertivo, mas também simpático quando necessário, amante da vida e da sua família, não podia haver melhor definição do italo-americano desta época, muitas vezes retratado nos filmes num estereótipo injusto de simples mafioso. Ele é troublemaker, come de mais e as regras de etiqueta não são com ele; por vezes conta com métodos, digamos, um pouco drásticos resolver berbicachos, mas não só os resolve, como é um homem que se esforça por prover pela família, ser honesto e bom profissional. Já o pianista é um elefante numa loja de porcelana, no sul dos EUA. Culto, excelente pianista de música erudita, o completo contrário da norma à época e (aparentemente) o completo contrário de Tony.

A história conta que Don começou a ser conhecido na música clássica, mas foi aconselhado a investir na música jazz, “mais do seu tipo afro-americano”. Havia pretos no Jazz e isso era completamente habitual à altura. Afinal, foi na sua cultura que este estilo nasceu e cresceu – mesmo que Nat King Cole já tenha contado que foi agredido por ser preto. Desde Louis Armstrong, Billy holiday, Ella Fitzgerald, Duke Ellington, a Sammy Davis Jr., Ray Charles, etc. Já na música erudita, é diferente. Herdeira de uma tradição clássica, europeia e elitista, um preto solista ser cabeça de cartaz de um estilo destes era uma grande inovação para a época. Ainda para mais no sul conservador e racista. Foi neste contexto de incompreensão que Don constituiu um trio de piano, contrabaixo e violoncelo e formou o Don Shirley Trio, retratado neste filme. Don tirou, além disso, um PhD em Psicologia, falava oito línguas e pintava. Foi elogiado por Igor Stravinsky dizendo que “o seu virtuosismo é digno de deuses”.

Mesmo assim, Shirley vai para o Sul e, como denuncia um dos seus músicos, vai de propósito para chocar e mudar mentalidades. Mas fá-lo de uma forma elegante e subtil. Apenas está presente, toca em grandes salas, mesmo que o enxovalhem mandando-o para casas de banho de pretos, ele mantém-se incólume e digno. Nas grandes cidades, eruditas culturalmente, provavelmente a figura não era assim, mas ali ele era um desafiador à norma. Mas mais do que isso e por isto é que também gosto tanto deste filme, o racismo aqui não é visto da forma convencional, como o preto a ser perseguido pelo branco e, pronto, há um bom e mau. Lembremos, mesmo que um excelente filme, “Mississípi em Chamas”, mais nesta linha.

Aqui a figura mostra-se mais equilibrada e, por isso, justa. O músico não é ostracizado apenas pelo branco, mas também pelo preto. O exemplo disto vê-se bem na cena em que param o carro no meio da estrada e veem vários trabalhadores pretos da apanha do algodão; estes ficam parados atónitos àquela cena insólita, branco motorista de preto. Depois, ainda a cena em que ele está no motel e os pretos pobres se reúnem em convívio na rua, o contraste entre os que jogam na rua e o Dr. Shirley, de fato e gravata e lenço de seda, não podia ser maior. A reação deste grupo é vê-lo como diferente e marginalizam-no. Ele próprio também não se identifica com esta “obrigação” de serem todos iguais. À chuva, Don queixa-se ao motorista da sua angústia e explica-lhe o que ele não percebe. Para brancos, é muito preto; para pretos, é muito branco. Para os brancos, é um ser inferior; para os pretos, não é suficientemente miserável como eles e tem de o ser.

Este limbo em que vive Shirley não acontece apenas neste caso, mas em qualquer inovador que não encontra lugar nem nos adversários que o veem como diferente, nem nos seus semelhantes que não compreendem o desejo de ser diferente. Don procurou cultivar-se e vencer na vida e os seus “irmãos” não aceitam isso. Se havia violência e racismo no branco, também existia este conformismo e repulsão da parte do preto, quase que uma vitimização eterna que o infantiliza e o torna inimputável perante a mudança.

Não será este o papel do revolucionário? Aquele que partilha a dor do seu povo mas arrisca ser ele uma pedrada no charco, o pequeno dominó que derruba outro um pouco maior e assim sucessivamente? Se havia uma injustiça inqualificável perpetrada sobre aquele povo, igualmente alguém tinha de se pronunciar e dar a vida, como fez, aliás, Martin Luther King. Mas alguns revolucionários não foram apenas incompreendidos pelos seus adversários, mas mesmo dentro do seu povo. Curiosa esta vivência na injustiça mas ao mesmo tempo uma vontade de que tudo fique na mesma? Queremos pagar o preço pela mudança, quando sentimos que não somos tratados da forma que merecemos? Conseguimos ter a coragem de apoiar quem defende a liberdade, a verdade e a justiça ou ficamos acobardados à nossa vida cómoda, mas mantemos o mesmo lamento de sempre?

Este filme é um hino à liberdade, à diferença, à possibilidade da felicidade. E não é de uma liberdade que pode fazer tudo, mas uma liberdade que, mesmo com condicionantes, não desiste das suas possibilidades, na busca pela felicidade, dignidade e amor. Um hino à diferença mas não numa perspetiva “multicultural” que anula a possibilidade de diálogo. Quando caímos na conversa do “bom” e do “mau” caímos no maniqueísmo demagógico que vivemos muito nos dias de hoje. O interculturalismo é diferente. Somos todos diferentes, mas se procurarmos encontrar um “chão comum” de entendimento, como o respeito, os valores humanos universais, podemos todos viver juntos e não em guetos vitimizantes que não procuram defender as “minorias” mas infantilizá-las mais e piorar as suas vidas.

Mas ainda é redutor dizermos que “Greenbook” é apenas um filme sobre racismo. É um filme sobre duas pessoas diferentes que se encontram e constroem uma amizade. Porquê? Como tudo o que acontece nas amizades e nos corações grandes, ambos veem no outro o que não têm. Tony vê trabalho, mas também admira o génio e cultura de Shirley. Quem diria? O “estereótipo” de italo-americano não o diria? O Doc., apesar de muito culto, rico e famoso, sente-se só e a cena final é antológica. Ele tem uma mansão incrível, pejada dos mais caros e exóticos artefactos, na cidade que nunca dorme, mas está sozinho na noite de Natal. Tony é básico, mas tem uma família e amigos que o amam. À noite, Shirley junta-se à família de Tony na grande festa da família que é o Natal, em que cabem todos, mesmo que diferentes.