Não vi o debate entre Trump e o snowflake Biden.

Mas com relatos e comentários de amigos, desamigos e consultores de vária pinta, nacionais e estrangeiros, cujos artigos me chegam via internet, foi como se tivesse visto.

Fiz bem em entreter-me com outras coisas. Que é humano, compreensível e inevitável ligar à empatia que têm ou não os candidatos. E o meu candidato é tão transparentemente grosseiro e primário, que se torna difícil defendê-lo e um sacrifício ouvi-lo.

A famosa pergunta “compraria um carro usado a este homem?” foi, parece, usada para castigar Nixon na campanha eleitoral que levou à eleição de Kennedy. E quando, muito mais tarde, o mesmo Nixon chegou à presidência, veio a confirmar com o caso Watergate que comprar-lhe um carro usado era um negócio de alto risco. De Trump, realmente, pode-se legitimamente suspeitar que até o seu handicap no golfe seja uma vigarice, de modo que comprar-lhe um carro também não parece uma ideia muito atilada.

Sucede que Kennedy ficou na memória como o cabeça de uma casa real que os tão igualitaristas americanos nunca tiveram, e o autor de frases grandiloquentes mas ocas (“ask not what your country can do for you – ask what you can do for your country”), ou de desafios espectaculares e empolgantes, significando muito e realizando nada (“Ich bin ein Berliner”). Deixou saudades e, fossem outros os tempos, tinha perfil para um D. Sebastião americano. Já Nixon ninguém recorda com saudade, mas foi um excelente presidente.

Mas isto que nos interessa, a nós portugueses? Seja o presidente o Francisco ou o Manuel, estamos condenados a estar do lado americano porque isso é do nosso interesse e quem quer que seja o ungido, sempre as instituições americanas defenderão, com maior ou menor lucidez, o deles. Portugal, um vago país situado algures no Norte de África, se é que não está lá para o meio do continente negro, ainda por cima com menos autonomia que a Lusitânia no tempo dos Romanos, significa, quando muito, a necessidade de insinuar aqui uma ameaça pouco discreta e ali um aceno com uma mão-cheia de dólares. Os locais borram-se com a primeira e são muito sensíveis à segunda.

Porém. Porém.  Trump é o candidato do anti bem-pensismo. Não dá nada para o peditório do MeToo, do Antifa, da destruição das universidades americanas pela rasoira do conformismo progressista, da importação de uma imaginária social-democracia nórdica que lhe mataria o dinamismo económico, nem das discriminações positivas que vão instalando, em nome da igualdade, um sistema de apartheid. Nenhuma dessas coisas nem das outras que compõem o ramalhete do esquerdismo travestido de progresso da humanidade, que entre nós tem o seu principal representante nos dementes do Bloco e, edulcorado, no PS.

De modo que Biden é o candidato da esquerda portuguesa, acolitada no caso por uma mole de idiotas úteis que julgam que não lhe estão a fazer o jogo; e Trump, dentro do campo democrático, o contrário disso.

É assim, que quem, por detestar compreensivelmente o homem, precisar de boas razões, poderá talvez lembrar-se de que: não ganhou o Nobel da Paz, mas não bateu o recorde, que detém Obama, de assassinatos políticos selectivos em países longínquos;  não iniciou guerras nem andou pelo mundo, como os neocons, a despejar bombas com o louvável propósito de converter os bombardeados à democracia; estabeleceu boas relações com ditadores que não deixariam de o ser se as relações fossem más; identificou a ascensão da China como o principal problema do futuro, com isso alertando salutarmente as democracias; deu passos sérios para a paz no Médio Oriente e na península coreana, ignorando os avisos de peritos em geoestratégia fajuta; tentou desvalorizar a Covid, que cedo intuiu não ter a perigosidade que vários interesses racionais e medos irracionais lhe conferem, procurando evitar que os danos colaterais fossem maiores do que os propriamente ditos; e combateu o Estado regulamentar, um cancro que mina as economias.

Era melhor se abandonasse o Twitter, não falasse de improviso, contratasse uma boa equipa para lhe redigir discursos, guardasse as gabarolices para o grupo de amigos em Mar-a-Lago e jogasse mais golfe.

Mas é o que há. Podia ser pior. Como Biden, por exemplo.