Rádio Observador

Comércio

Guerra Comercial: As instituições fortes são as que se adaptam /premium

Autor

Pode estar a começar uma guerra comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos que bem pode ser o acontecimento mais significativo para a relação transatlântica e para saúde das suas economias.

No passado dia 8 de março, Donald Trump fez um ultimato aos parceiros comerciais dos Estados Unidos: ou negociavam acordos de comércio bilaterais com Washington, ou os EUA passariam a aplicar tarifas alfandegárias de 25 e 10 por cento, respetivamente, às importações de aço e alumínio. Estava declarada a chamada “Guerra Comercial” que Trump vinha a prometer desde os dias da campanha eleitoral.

A princípio, o prazo para efetuar negociações foi fixado a 1 de maio. Mais tarde, Washington veio anunciar que acrescentava 30 dias. Desde então, foram assinados acordos com a Coreia do Sul, a Austrália, a Argentina e o Brasil. Mas, mais importante, a guerra comercial com a China foi suspensa por tempo indeterminado, uma vez que Pequim se mostrou disposta a negociar um acordo que prevê o aumento das importações chinesas de energia e bens alimentares norte-americanos num valor que permite aos Estados Unidos reduzir o seu défice comercial com a China em 377 mil milhões de dólares. Aliás, este é o objetivo último dos EUA: a diminuição drástica do seu défice comercial que era superior a 550 mil milhões de dólares no final de 2017.

Esta semana, além da suspensão da aplicação das tarifas aduaneiras a Pequim, com a finalidade de aliviar a pressão para que as negociações decorram em clima de normalidade, foi marcada por outro acontecimento: a reunião dos ministros da economia da União Europeia para deliberar o que fazer, a uma semana de vencer o prazo.

Sem grandes surpresas não houve consenso. Por uma lado, a Comissária Europeia para o Comércio, Cecilia Malmstrom, pretende manter uma posição inflexível de intransigência em relação aos EUA – e neste aspeto a Comissão tem muito poder dada a cedência de soberania económica dos estados-membros à EU. Malmstrom tem vindo a declarar em várias ocasiões que está em preparação uma lista de produtos americanos a serem taxados, em retaliação, e uma queixa formal à Organização Mundial do Comércio.

É apoiada por diversos estados-membros, destacando-se a França que se tem afastado da sua posição conciliadora para apontar o dedo a Washington por “bullying” comercial. Já Berlim, a princípio tão reticente relativamente a esta (e outras) políticas de Donald Trump tem vindo a suavizar o seu discurso a ponto de apoiar a posição (que teve origem na Bulgária) de negociar um acordo comercial UE-EUA. Alega o ministro da economia, Peter Altmaier, que sem acordo, as tarifas aduaneiras poderão estender-se a outros produtos cruciais para ainda frágil economia europeia.

Poderíamos preferir apoiar a posição de Malmstrom. Mas não é realista. Por quatro razões: a primeira é que uma “trégua” para entre os EUA e a China para negociar um acordo à parte, deixa a Europa muito fragilizada. Arrisca-se a ficar cercada por duas economias vigorosas, ligadas uma à outra e com laços comerciais preferenciais com estados terceiros.

Em segundo lugar, porque, apesar de todas as contrariedades, a relação transatlântica continua a ser crucial para a Europa. Se o espaço comunitário tem uma economia competitiva, em muitas as outras áreas importantes para as relações internacionais tem grandes fragilidades. Em plena crise identitária, com um conjunto de populismos a ganhar cada vez mais poder (contra o projeto europeu) e com a Rússia a aproveitar todas as oportunidades criar divergências no seio da UE, o pior que podia acontecer ao velho continente era entrar em conflitualidade latente com os Estados Unidos. Além disso, tal como a China que terá usado a questão Coreana para entrar nas negociações com mais trunfos, a Europa tem ainda cartas para dar, nomeadamente em relações às questões do Médio Oriente. Trata-se de um janela de oportunidade que deveria ser aproveitada, e que perderá a pertinência se os Estados Unidos conseguirem negociar diretamente com o Irão.

Até porque – este é o terceiro ponto – uma guerra, comercial ou outra, sabe-se como começa, mas não como acaba. Essa é a mensagem do ministro de economia alemão, que não terá feito estas afirmações de ânimo leve. Não é segredo para ninguém que a Alemanha de Merkel tem objeções sérias à América de Trump. Caso não haja tentativa de forjar um acordo, a guerra tenderá a escalar. Washington tenderá a retaliar contra as retaliações europeias. E daí em diante.

Finalmente, a União Europeia não parece disposta a abdicar ordem económica centrada na Organização Mundial do Comércio, que a favorecia nas questões da economia de mercado. Há poucos anos, as economias emergentes queixavam-se que o eixo transatlântico dominava a OMC, o que acabava por diminuir drasticamente as suas possibilidades de transformar a justiça económica internacional a seu favor. Inesperadamente, foram os próprios Estados Unidos que deram a volta ao texto. Mas não é de esperar que as instituições voltem à normalidade, não só porque o presidente americano tem conseguido os seus intentos, como porque estas novas regras do jogo beneficiam os estados emergentes, nomeadamente a China, prestes a tornar-se uma grande potência, mas também países como a Índia, que preferem um modelo mais soberanista. Se atendermos às suas reivindicações que se mantém há alguns anos, é natural que tudo façam para que esta situação se mantenha, depois de Trump. Assim, a Europa acaba por ficar isolada na tentativa de manutenção das instituições e do multilateralismo atuais.

Assim, pode estar prestes a começar uma guerra comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos. Este pode bem ser o acontecimento mais significativo para a relação transatlântica e a saúde da economia dos países envolvidos. Samuel Huntington escreveu nos anos 1960 que as instituições que não se adaptam tendem a pagar um preço alto por isso. E persistência europeia na manutenção de uma ordem que está a desaparecer rapidamente, somada à dificuldade cada vez maior de manter os laços transatlânticos, pedem bem tornar-se uma validação de teoria do cientista político americano. E este é um cenário com consequências negativas, mas também de alcance imprevisível.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Mundo

A política da saudade /premium

Diana Soller

Os sentimentos coletivos ganharam um lugar no pódio político e é uma condição cada vez mais essencial para ganhar eleições saber manipular esses sentimentos a favor de determinada candidatura.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)