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De entre os múltiplos comentários sobre a eleição de António Guterres para secretário-geral das Nações Unidos, é oportuno recordar o de Cavaco Silva, no Expresso de sábado passado.

Sucintamente, como é seu timbre, apontou os três factores fundamentais daquela eleição: em primeiro lugar, indiscutivelmente, as qualidades pessoais do candidato e da campanha que promoveu, ancorada na competência com que exerceu as funções de alto-comissário para os refugiados; em segundo lugar, a imagem de Portugal no mundo; em terceiro lugar, a eficácia da diplomacia portuguesa (onde é justo destacar o papel dos Embaixadores Álvaro Mendonça e Moura e José Freitas Ferraz).

Como recordou Cavaco Silva, a imagem de Portugal no mundo constitui o pano de fundo comum em que se verificou esta eleição de António Guterres, bem como a presidência de Durão Barroso na Comissão Europeia e a de Jorge Sampaio como alto representante para a Aliança das Civilizações. “Não há nenhum país da nossa dimensão com tantas personalidades em lugares de particular relevo”, observou Cavaco Silva.

Talvez não seja inútil reflectir sobre esta imagem de Portugal no Mundo. Recentemente, tem sido enfatizado em vários quadrantes a vocação universal da língua portuguesa e a capacidade de diálogo multicultural dos portugueses. Estes são factores distintivos, sem dúvida cruciais. Mas — por serem permanentes e multi-seculares — dificilmente explicam só por si a excelente reputação internacional de Portugal nas últimas décadas (em contraste, por exemplo, com a de décadas anteriores).

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O que, além daqueles factores permanentes, distingue a reputação de Portugal nas últimas décadas é o facto de ter liderado com sucesso a chamada terceira vaga de democratização à escala mundial. A partir do 25 de Abril de 1974, sobretudo do 25 de Novembro de 1975, Portugal não voltou apenas a integrar o concerto das nações democráticas da Europa ocidental. Apontou o caminho a transições semelhantes na Grécia e em Espanha, na América Latina e na Ásia. Como é hoje reconhecido por todos os analistas, essa vaga de democratização iniciada em Portugal culminou na queda do Muro de Berlim em 1989 — e serviu de inspiração às transições democráticas na Europa central e de Leste, antes sob dominação soviética.

Por outras palavras, Portugal desempenhou um papel crucial no alargamento da causa democrática e ocidental que distinguiu uma parte dos vencedores da II Guerra Mundial. Essa parte dos vencedores — a aliança euro-atlântica — estabeleceu as bases do mundo do pós-guerra. Criou as Nações Unidas e a NATO, promoveu a reunião das nações da Europa Ocidental no que viria a ser a actual União Europeia. Liderou a causa do comércio livre e do institucionalismo multilateral, em directo contraste com as políticas autoritárias, expansionistas e colectivistas do comunismo soviético e chinês.

O melhor resumo desta ideia, na altura visionária, de nova ordem internacional continua a ser o discurso de Winston Churchill, a 5 de Março de 1946, em Fulton, Missouri, na presença do Presidente Truman. O discurso ficou famoso pela sua denúncia da “Cortina de Ferro”, quando Churchill era apenas o líder da Oposição no Reino Unido — uma vez que perdera as eleições em Julho de 1945, logo a seguir a ter vencido a guerra em Maio desse mesmo ano.

Aí estão contidas todas as linhas de força, acima mencionadas, do que viria a ser a ordem mundial promovida pelas democracias ocidentais e a sua política de “containment” do expansionismo soviético. Sintomaticamente, Staline acusou aquele discurso de “racista, imperialista e belicista”, numa entrevista publicada no Pravda de 13 de Março de 1946.

A ordem mundial penosamente construída pela aliança euro-atlântica está hoje de novo sob sérias ameaças. Além do terrorismo islâmico, assistimos a um ressurgimento do expansionismo russo e a uma subtil mas persistente penetração da China. Não menos grave, todavia, é o crescimento de vozes isolacionistas e proteccionistas, algumas de tonalidade autoritária, no seio do próprio Ocidente.

Neste contexto, é importante recordar e reafirmar os valores que presidiram à liderança ocidental após a II Guerra e após a queda do Muro de Berlim. E é importante recordar que a projecção internacional de Portugal cresceu quando o nosso enraizamento no Ocidente foi reafirmado — não quando foi esbatido numa vaga vocação multicultural.

PS: A ordem internacional após a II Guerra estará certamente em debate na II Palestra-Jantar Winston Churchill, que o Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica promove, na próxima quarta-feira, no Palácio da Cidadela de Cascais — sob o alto patrocínio do Presidente da República e presidida pela Embaixadora do Reino Unido. David Reynolds, da Universidade de Cambridge, falará sobre “Churchill’s Sense of History”. Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional da Madeira, recordará a visita de Churchill à Madeira, em Janeiro de 1950. Conto poder voltar a este tema na próxima segunda-feira.