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Este ano, como esperado, o coronavírus foi o Rei do Carnaval. Aliás, não é à toa que o bicho, todo armadão em bom, tem no nome “corona”, que é como quem diz coroa. De facto, neste Entrudo, o coronavírus brilhou a grande altura, não dando hipótese de protagonismo a mais ninguém. Por cá, não tendo havido os tradicionais corsos em que jovens desagasalhadas bailam, mais em jeito de espasmo de frio do que de sambinha, o vírus da gripe não teve nenhuma hipótese de se propagar como é típico. E, no Brasil, foi toda a sorte de bicharada difusora de doenças sexualmente transmissíveis que, por norma, tem no Carnaval o ponto alto do ano que, desta vez, ficou recolhida em casa, impossibilitada de espalhar a sua magia — e coceira — pelos desfiles clássicos da quadra. Quando se garante que a pandemia afecta quem mais precisa de trabalhar, é muito nestes entraves à regular labuta de vírus, fungos e bactérias que se está a pensar.

Perante o actual cenário de (para não ser alarmista) pré-catástrofe económica e social, para quem olhar em busca de soluções? Para o Governo, claro! Não, estou a brincar. Esqueçam, porque o lema deste executivo é “Não perguntes ao Costa o que ele pode fazer pelo teu país, pergunta aos cientistas como é possível ainda não terem chegado a um consenso sobre o que fazer em relação à COVID, por forma a que o Primeiro-Ministro siga os conselhos deles e, caso se demonstrem errados, lhes coloque as culpas em cima”. O que faltava ao J. F. Kennedy era este tipo de habilidade. O Presidente norte-americano teria inventado lemas muito superiores e, com grande certeza, teria percebido ser má ideia passear-se por Dallas num carro descapotável.

O que importa realçar é que não faz o mínimo sentido pôr as culpas no Governo, por problemas que são clara responsabilidade do Governo. Isso é absurdo. A culpa desses problemas é, antes, da falta de consenso científico. Além do caso da COVID basta ver, por exemplo, o que se passou com o roubo das armas em Tancos. Se não há consenso científico acerca da existência de alienígenas, quem pode apontar o dedo ao Governo por ter andado às aranhas até se descobrir o culpado do furto? O mais provável é o Ministro da Administração Interna ter seguido a pista de que o desfalque havia sido perpetrado por extraterrestres. Mais. Preemptivamente, e para evitar futuros ataques descabidos à acção governativa, fica já o aviso. Até a ciência descobrir uma teoria unificada do universo, que combine lei da gravidade e mecânica quântica, é mera gincana política atribuir a António Costa responsabilidade por qualquer assunto que seja, pois o Primeiro-Ministro carece de informação de base, crucial para a tomada de decisões.

Quem julga que a argúcia do Primeiro-Ministro fica por aqui, desengane-se. A forma como ele aproveita a pandemia para piscar o olho ao eleitorado conservador, ao mesmo tempo que agrada aos votantes progressistas é, também ela, habilidosíssima. É só ver o que Costa faz com a culpa, que, por norma, morre solteira. Mas não com o líder do nosso Governo. Nada disso. Com Costa, das duas uma: ou a culpa é do Passos, ou, a partir de agora, é dos cientistas. Arranja-se, de certeza, parelha para a culpa. Solteira é que ela não fica. Agradando, dessa forma, aos conservadores. Isto se não se enveredar pelo poliamor, juntando a culpa ao Passos e às pessoas da ciência, fazendo assim a delícia dos progressistas.

A bem da nação, o Primeiro-Ministro e o Presidente da Assembleia da República já foram vacinados contra a COVID. O momento decorreu sem câmaras de televisão por perto. Recato que os portugueses agradecem. Não creio que alguém estivesse interessado em ver Ferro Rodrigues de tronco nu. Quer dizer, consta que um daqueles fãs indefectíveis da Guerra das Estrelas terá referido, num comentário de gosto duvidoso, diga-se, “Eh pá. A sério que não vão transmitir a vacinação do Presidente da Assembleia? Que pena. Não vejo o Jabba the Hutt desde o Episódio I – A Ameaça Fantasma”.

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