Julho de 2017, incêndio em Pedrógão, 66 mortos. Outubro, pinhal de Leiria, 45 mortos. Manuel Francisco, de 82 anos, perdeu tudo às mãos do fogo, máquinas agrícolas, 132 ovelhas, duas cabras, um cavalo e toda a terra para cultivo. Ao todo foram cerca de 200 mil euros de prejuízo. Naquele outubro prometeram-lhe que em 3 meses teria a sua vida recomposta. Volvido um ano e seis meses o Senhor Manuel Francisco foi ressarcido em seis mil euros (!). Tudo o resto se mantém igual. Em cinzas! O Senhor Manuel faleceu esta semana.

Em Tancos, furto de 1500 balas de calibre 9 mm, centenas de granadas desaparecidas entre elas 44 granadas-foguete antitanque.

Monchique, agosto deste ano, 50 casas consumidas pelo fogo e 300 pessoas desalojadas. 27.000 hectares de área ardida.

Borba, a 19 de novembro, cercado pela atividade da indústria de extração de pedra, o troço de estrada que ligava Vila Viçosa a Borba desaba. Morrem 5 pessoas. Os avisos para os riscos de derrocada eram recorrentes. Ninguém foi capaz de os escutar.

16 de dezembro, Valongo, na serra de Pias e Santa Justa um helicóptero do INEM despenha-se causando a morte dos 4 ocupantes. Em relatório, a Autoridade Nacional da Proteção Civil aponta falhas graves nos procedimentos de diversas entidades públicas.  Após o alerta dado por cidadãos, o Centro Operacional do Norte do 112 não alertou em tempo, como devia, o CDOS do Porto para a ocorrência do acidente. O CDOS do Porto foi, também ele, alvo de 6 tentativas de contacto telefónico, que ficaram sem resposta! O contacto, que deveria ter ocorrido por iniciativa do CONOR (112) com o rescue coordination center da força aérea, não aconteceu em tempo. A demora poderá ter comprometido irremediavelmente o socorro das vítimas? Nunca saberemos. Sabemos, sim, que Luís Vega, Daniela Silva, João Lima e Luís Rosindo eram os quatro ocupantes da aeronave e não sobreviveram.

Ano e meio! Desde julho de 2017 até hoje, mais de 120 pessoas perderam a vida porque o Estado falhou. Foi incompetente e desleixado. Quando se lhe exigia prontidão na resposta, manteve-se ausente, perdido, enredado na sua ineficiência. Quando se esperava dele uma resposta cabal, uma demonstração de força, de meios e de comando, o Estado revelou-se frágil, desorganizado e incapaz.

A confiança dos cidadãos no sistema de segurança e socorro está comprometida. E não é caso para menos! Sempre que dele precisámos, o Estado respondeu com incompetência. Mas o problema não é apenas de confiança, ou de falta dela, nas equipas de coordenação e de socorro. O problema é mais profundo e mais grave porque é transversal, porque parece estar a generalizar-se em diferentes dimensões do Estado, porque as falhas e os incumprimentos sucedem-se. Uns a seguir aos outros. Um ano e meio depois!

“É preciso apurar as responsabilidades”. Há um ano e meio que nos acenam com este desfecho mas até hoje só vimos uma mão cheia de nada.

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