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Terrorismo

Há terroristas entre nós

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Haverá sempre quem, vivendo entre nós, nos odeie. E, sim, isso mete muito medo. Mas abdicarmos das liberdades que nos definem é ainda mais assustador.

Anglo-saxónico, de sotaque perfeito e com origem provável da zona East End de Londres. É o retrato provisório e inacabado de um homem sem nome, de quem só conhecemos os olhos, a voz e nenhum traço de hesitação. É o retrato do extremista do Estado Islâmico que assassinou James Foley, o jornalista americano que esteve prisioneiro desse grupo terrorista. O que se sabe – sobre o assassinato, sobre o Estado Islâmico, sobre os ocidentais que combatem em seu nome – é relativamente pouco. Mas é o suficiente para os alarmes soarem.

Publicar imagens de um assassinato é, por definição, enviar uma mensagem. É querer impor-se pelo medo. Diz-se que, neste caso, o objectivo é dissuadir a administração americana de intervir militarmente no Iraque. Talvez assim seja. Mas sendo certo que não terá esse resultado, o verdadeiro efeito é outro: reafirmar a percepção de que os nossos inimigos vivem entre nós. Ou seja, o homem que matou Foley, em nome do fundamentalismo religioso e de uma certa ideia de poder, terá crescido no coração da civilização ocidental, terá usufruído das liberdades que são o pilar dos nossos regimes democráticos, terá sido parte das nossas comunidades ou, até, nosso vizinho. E, apesar de tudo isso, odeia-nos. É isto, e não o acto bárbaro do assassinato, que gera medo.

Gera medo porque não se trata de um caso isolado. De acordo com dados citados pelo jornal Expresso (2014.08.23), há 945 ocidentais identificados com ligação a grupos islâmicos extremistas, dos quais cerca de 700 são europeus. Estima-se nesses mesmos registos que um em cada nove desses radicais que regressa a casa (EUA, Europa ou Austrália) tente lançar um ataque terrorista no ocidente. E nem Portugal escapa, estando referenciados pelas autoridades mais de dez cidadãos portugueses. Custa a admitir, mas a realidade é esta: há terroristas entre nós.
Esta realidade não é nova. De resto, há anos que o termo ‘Londinistão’ ficou cunhado para designar a emergência, em Londres, de extremistas islâmicos e de sucessivas operações de recrutamento. O que é novidade é a tomada de consciência generalizada da ineficácia das medidas implementadas para lidar com este problema.

Entre 2001 e 2014, muito mudou no Reino Unido e em outros países europeus – leis mais duras, vigilância mais apertada, liberdades mais estreitas. E, na raiz de tudo isso, nasceu um sentimento de insegurança que, por vezes, provocou a segregação de populações oriundas de países muçulmanos a viver nas grandes cidades europeias. Cada vez mais se desconfiou do “outro”. E, tudo isso, para quê? Se por um lado é difícil avaliar os resultados pelo que não aconteceu (quantos atentados terão sido evitados?), por outro é uma evidência que as ameaças sobre as populações ocidentais permaneceram. Ora, perante essa evidência, torna-se claro que reforçar a dose de um remédio sem efeitos não pode ser a solução.

Essa ideia é particularmente importante de reter nestes dias conturbados, em que ainda lidamos com o choque do assassinato de Foley. A reacção de muita gente, incluindo na classe política, tem sido a de exigir a implementação de medidas mais duras – penas de prisão mais pesadas para quem planeia atentados ou vigilância mais rigorosa, nomeadamente pela violação de registos privados (telefónicos ou compras na internet em sites como a Amazon, por exemplo). E na base dessa reacção está a crença de que teria sido possível prevenir tudo isto caso tivéssemos implementado essas medidas e essas leis mais duras no combate interno ao terrorismo. Só que essa crença assenta numa ilusão. E tudo, até a nossa cedência ao medo, tem de ter um limite. Se há algo que o assassinato de Foley prova é que o endurecimento das medidas não é resposta – porque não funcionou, porque contribui mais para o problema do que para a solução (por via da crispação social), e porque, mais importante, contraria os princípios e os valores em que acreditamos.

A resposta que sobra é mantermo-nos fiéis a nós próprios. Fiéis à defesa das liberdades civis, da igualdade dos cidadãos e da imparcialidade da justiça. Isto é, fiéis ao que tornou o ocidente um refúgio tão desejado por aqueles que, nos seus países de origem, foram perseguidos ou simplesmente recusaram viver sob a arbitrariedade do poder. Parece pouco, mas é muito. Haverá sempre quem, vivendo entre nós, nos odeie por isso. E, sim, isso mete muito medo. Mas abdicarmos das liberdades que nos definem é ainda mais assustador.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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