Ainda não vai na segunda linha e o seu cérebro já está a reagir como se de uma alergia se tratasse: “Oh não, outro artigo sobre coronavírus”.

E se eu lhe disser que está ao nosso alcance ir jantar fora, ir ao cinema, deixar os filhos na escola, conviver entre amigos e família, tudo isto com uma enorme sensação de segurança e tranquilidade face à Covid-19? Espero que este argumento seja suficiente para me ceder uns minutos da sua atenção. É que a solução para poder fazer um estilo de vida à la 2019 passa também por si.

E o que tem de fazer para isso? Nada de extraordinário. Apenas ler, reflectir e, se concordar com a essência do texto, incluir o tema nas suas conversas do dia-a-dia.

Como podemos, então, retomar a maioria das actividades sócio-económicas em segurança e muito antes de estar disponível uma vacina? Simples: com muitos mais testes. Provavelmente, já estou a perder a sua atenção novamente, mas peço-lhe um pouco de fé e de paciência. Prometo que valerá a pena.

E se existisse um teste de saliva, que custasse 1€, demorasse 10 minutos para obter o resultado e este indicasse se o sujeito infectado transmite o vírus ou não (Ao invés do teste actual, que detecta a presença do vírus, mesmo que este se encontre já inactivo)?

Já pensou no que poderia mudar nas nossas escolas, nas empresas, no sector da hotelaria e da restauração, assim como nas actividades culturais, se esse teste imaginário existisse? Consegue imaginar o impacto de tal tecnologia se ela estivesse disponível no nosso país?

Na verdade, não precisa de muita imaginação, pois o dito teste já existe e com sensibilidade suficiente para ser o maior game changer na estratégia nacional contra a pandemia. Considerando, pelo menos, um espaço temporal que nos permita manter alguma esperança, enquanto assistimos a esta tortura que é o lento desmoronar da economia e do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Se existe esta solução, porque não está ainda implementada? Pergunta você, com toda a razão.

A resposta não é simples. Em parte, a explicação é política – a Casa Branca implementou este tipo de rastreio o que gerou cepticismo (1) -, em parte, científica – faltavam estudos que confirmassem a viabilidade -, em parte, metodológica e ideológica – abordamos a saúde pública duma perspectiva clínica – e, em parte, económica – não é fácil para as empresas investir na comercialização de uma tecnologia cuja fiabilidade foi anunciada como de 50 por cento.

50 por cento de fiabilidade, leu bem. Pergunta você, e de forma pertinente: e para que serve tal teste?

Um teste com 50 por cento de fiabilidade, não quer dizer que detecte metade dos casos de forma aleatória. A fiabilidade do teste está directamente relacionada com a carga viral e, adivinhe, a carga viral é um excelente indicador da capacidade de transmitir o vírus (2).

Este gráfico ajuda a explicar a diferença entre a tecnologia utilizada pela Direcção-Geral de Saúde (DGS), o “altamente preciso” PCR, e a tecnologia do teste que pode mudar a nossa realidade, conhecido em termos técnicos como Loop-mediated Isothermal Amplification (LAMP).

O teste que recorre à tecnologia LAMP (a roxo), é sensível numa janela temporal inferior ao teste de PCR (rosa), mas isso é praticamente insignificante para medidas de reabertura das actividades sócio-económicas, pois a diferença dá-se quando a carga viral é menor e, muito provavelmente, quando a pessoa ainda, ou já, não é capaz de transmitir o vírus.

No caso da fase ascendente da carga viral, a diferença entre o PCR e o LAMP chega a ser apenas de horas de vantagem para o PCR, pois o crescimento da carga viral é de tal forma exponencial, que em relativamente pouco tempo é também detectável através do teste de saliva (3).

Ou seja, neste momento, a tecnologia predominantemente utilizada é cara, logisticamente complexa, pois requer uma recolha por parte de um técnico e consequente análise em laboratório e, sendo assim, é totalmente inviável de se aplicar à generalidade da população.

Para além disso, a regularidade e velocidade necessárias para limitar ou impedir a transmissão comunitária, utilizando apenas testes PCR, é uma batalha inglória entre a realidade da dinâmica de contágio e as limitações dos recursos existentes, quer estas sejam medidas em tempo, recursos humanos, tecnológicos ou financeiros.

A tecnologia LAMP, apesar da sua fiabilidade ser ligeiramente inferior, a frequência e amplitude com que se pode aplicar o teste, compensam a diferença para o PCR. Isto vai totalmente de encontro às necessidades do nosso país (e de quase todos os países) para controlar a pandemia.

Repare nas recentes palavras de Pedro Froes: “Se queremos resolver a pandemia, temos de ter uma política mais agressiva de testagem (…) e procurar activamente os indivíduos assintomáticos”. Ainda de acordo com o pneumologista, “a elevada percentagem de assintomáticos, confirma a importância destes indivíduos na perpetuação da actividade viral e na manutenção de cadeias de transmissão na comunidade”. Conclui, então, da seguinte forma, o médico, que é também consultor da DGS: “À semelhança de outros países, só diagnosticamos 15 por cento dos casos. Este valor baixo de diagnóstico dos casos justificou a manutenção de cadeias de transmissão mesmo no período de confinamento e a impossibilidade de baixar a curva de planalto. Achatámos a curva, mas não conseguimos esmagar a curva durante o confinamento.”

Se a tecnologia LAMP estiver disponível em Portugal de forma complementar à actualmente existente – que passa pela utilização do PCR em contexto clínico e no rastreio de contactos -, podemos entrar num paradigma de controlo pandémico quase absoluto, ambicionando, inclusive, esmagar a curva.

Seguramente, a tecnologia LAMP não é infalível quando utilizada uma única vez, mas a sua utilização regular em locais propensos a surtos e à perpetuação da transmissão comunitária de forma descontrolada em escolas, fábricas, ginásios, bares, discotecas, restaurantes etc. compensa a sua menor fiabilidade em relação ao PCR. Pois falsos negativos em pessoas que, muito provavelmente, não podem transmitir o vírus, não são o problema.

Repare que, de qualquer forma, passaríamos de medidas ineficientes e bastante questionáveis, como por exemplo o controlo de temperatura corporal (quantos assintomáticos acha que esta medida detecta?), para um paradigma incomparavelmente superior.

Antes que o leitor se questione como é que um qualquer Rogério possa apontar uma solução com tanto potencial, aproveito para fazer o disclaimer que a ideia não é de todo minha.

Este movimento está a ser dinamizado nos EUA por Michael Mina, da Universidade de Harvard, e pelos seus colegas de investigação, tendo sido recentemente apoiado pela agência norte-americana Food and Drug Administration (FDA).

Eu limitei-me a aferir o potencial da ideia com o critério mais rigoroso que me foi possível. Após cuidada análise e ponderada reflexão, não encontro desvantagens nesta medida, antes pelo contrário, pelo que sinto o imperativo moral de divulgar esta tecnologia num país que, por vezes, parece um sonâmbulo em direcção a um abismo.

Espero que, se você estiver de acordo com a essência do texto, sinta a necessidade de fazer o mesmo.

É que se não formos pioneiros na implementação desta ideia na Europa, certamente não será por motivos de incapacidade tecnológica, ou pela falta de capital humano. Estes testes requerem a mesma tecnologia que os testes de gravidez, o que neste caso, de forma simplista,são tiras de papel com um preparado químico.

A comunidade científica nacional terá de ter um papel chave na revisão e dinamização dos elementos técnicos desta promissora solução, pelo que tenho esperança que este texto provoque um debate público aberto, transparente e célere, o que em Portugal arriscaria ser mais inovador do que a própria tecnologia LAMP.

No entanto, o mais importante de tudo, é não perdermos a oportunidade que temos diante de nós pelos motivos de sempre: falta de liderança, falta de visão estratégica e falta de ambição por parte de quem nos governa.

Quero acreditar que, em democracia, há uma parte deste caminho que depende essencialmente da pressão exercida por cada um de nós. Falemos disto! Temos uma excelente oportunidade de controlar a pandemia causada pelo SARS-CoV-2 e assim começarmos o mais cedo possível a tão necessária recuperação económica, de preferência antes que a época da gripe comece.

A tecnologia LAMP tem de ser escrutinada como solução com a máxima urgência pelas nossas autoridades de saúde e pelo Governo. As vantagens seriam incontáveis. Já referi algumas e tenho a certeza que na sua cabeça, em pouco tempo, já conseguiu imaginar muitas outras. Teriam acontecido surtos no IPO com esta tecnologia disponível? Os lares teriam sido tão afectados? Quantos recursos médicos teriam estado disponíveis para outras necessidades sem todos esses surtos?

Por isso, faço novamente o apelo: se concorda com a essência deste texto faça disto também uma agenda sua. Peça ao seu patrão, fale com os seus amigos, com os seus colegas de trabalho e até na escola dos seus filhos. Peça ao Pedro Simas, à Sonae, à TAP, ou mesmo ao Novo Banco. Mas não se cale até este assunto estar na ordem do dia.

Se estiver à espera da iniciativa da DGS, será como a história das máscaras e da app: quando já for evidente o benefício para a maioria do planeta, nós estaremos ainda a começar a discutir a utilidade de debater o tema.

Lembre-se: esta é a única solução que de alguma forma depende de si, da sua insistência. Não é como a vacina em relação à qual, você, e Portugal, não tem qualquer controlo. Nem é como a imunidade populacional, que, se atingida de forma natural, pode sair muito cara em todos os sentidos.

Está disposto a esperar e a arriscar? É que, caso a vacina não chegue num futuro próximo, o único caminho disponível é o de atingirmos os longínquos números de 43 por cento a 66 por cento da população nacional com presença de anticorpos. Em Portugal, o último estudo nacional aferiu, que nem em 4 por cento da população eles foram detectados.

Bruxelas cedeu-nos 45 mil milhões de euros para fazer face a esta crise de saúde pública, 15 mil milhões dos quais a fundo perdido. Exija que uma parte, que é sua na verdade, seja canalizada para a resolução da causa do problema e não para tapar os buracos negros da economia portuguesa, beneficiando sempre os suspeitos do costume: aqueles que gravitam em torno do poder ou que o sustêm.

O Estado pode e deve alocar recursos financeiros para disponibilizar e implementar esta tecnologia à escala nacional, pois esta tem o potencial necessário para recuperarmos as nossas vidas.

De qualquer forma, o que julga que vai acontecer a esse dinheiro se não o exigir para algo concreto e fundamental?

(1) “To protect Trump, White House among first to use rapid coronavirus tests sought by communities” 

(2) “SARS-CoV-2, SARS-CoV-1 and MERS-CoV viral load dynamics, duration of viral shedding and infectiousness: a living systematic review and meta-analysis” 

(3) De salientar que os assintomáticos manifestam cargas virais no período ascendente similares aos pré-sintomáticos.