Diariamente, lidamos com emoções no nosso local de trabalho: as nossas e as alheias. Seja da nossa frustração ou euforia, ao papel de confidente nos desabafos de descontentamento de alguns colegas ou à observação de comportamentos misantropos daqueles que estão isolados na sua cadeira de trabalho. As nossas emoções influenciam o clima da organização, afetando diretamente a execução das tarefas, o espírito coletivo e a cultura da organização.

Todos enfrentamos dias mais cinzentos, desde sobrecarga de trabalho, problema complicado com um colega, fechar um contrato com um cliente intratável, pressão do chefe, baixa autoestima e gestão das expectativas em relação a si próprio e à sua organização, entre outros. Isto leva a desabafos do quotidiano, por vezes irritados, por vezes entediantes, mas, normalmente, “cheios de razão” por parte do emissor. Permitam-me um desabafo pessoal: não têm a sensação de que as pessoas reclamam cada vez mais por tudo e por nada?

Mesmo em empresas que, adotando uma “hustle culture, oferecem variados perks e delicatessen saudáveis, como sumos detox, bagas goji e kombucha, de forma a contribuir para a motivação do colaborador, o descontentamento da natureza humana tende a revelar-se sempre.

Sob o fundamento de “detestarem pessoas” – daí a alegoria zoomórfica do título do texto, retirado do filme O Rei Leão -, assistimos a um maior individualismo, a uma cultura centrada no “EU”,  elevando barreiras no que deveria de ser uma estrutura e cultura homogeneizante na empresa.  Não que os desabafos negativos não sejam importantes. Não obstante, a sua frequência não influencia positivamente a organização e, tal como um vírus, acaba contaminando os demais. Isto leva à exaustão emocional, à insatisfação, ao desgaste, à perda do comprometimento de trabalhar coletivamente para alcançarem objetivos comuns. Isto leva à criação de clãs de hienas – metáfora das relações humanas –  onde, apesar de juntos, têm atitudes egocêntricas. E todos temos que trabalhar com as hienas, e precisamos delas!

Demonstrar positividade deve ser uma acção de todos nós e não esperar ou delegar a alguém mais forte do que elas, como são exemplo do reino animal, os leões (aka superiores hierárquicos) a ter essa obrigação.

Estes devem permitir, sim, a existência de canais abertos de comunicação e saber escutar e orientar, mas cabe a todos nós sermos mediadores no controlo emocional: no nosso e no dos outros. Aceitar a multiplicidade de personalidades, aceitar a crítica e a diferença. Ser o alicerce da construção de relações positivas. Tentar ser o exemplo e demonstrar positividade.

Se o colega da equipa teve um comportamento que considerou inoportuno, tente perceber se ele está a passar por algum momento complicado na vida pessoal antes de fazer algum juízo de valor. Analisar o que está a gerar as frustrações e procurar soluções, porque a reclamação, por si só, não irá solucionar.

Peça ajuda. Ofereça ajuda. Seja curioso. Queira aprender todos os dias com os seus colegas, mesmo competências que não façam parte das suas funções. Acredite, quase todos nós nos sentimos bem em transmitir conhecimento e eleva a nossa autoestima. Evite que as emoções sejam incitadas à insatisfação e à ansiedade, mas que sigam a via do entusiasmo, aumentando assim o desempenho dos demais.

Sorria de manhã e diga um “bom dia!” a todos. A alegria e o bom humor contagia!

E naqueles momentos mais complicados de gestão de clima e de mediação interpessoal, lembre-se desta cena do filme mencionado:

Timón: Hienas, destesto hienas…
Qual é o teu plano para distrair estes tipos?
Simba: Um isco vivo…
Timón: Boa ideia, ei…
Simba: Vá lá Timón,
Vocês têm de as distrair!
Timón: O que queres que eu faça? Me vista para o baile e que dance o ula?

Em prol da satisfação e do bem comum, arrisque, por vezes, a ser o isco e a dançar o ula! :)

Rosário Costa é licenciada em Novas Tecnologias da Comunicação, pós-graduada em Multimédia em Educação e Mestre em Gestão da Informação pela Universidade de Aveiro. No estrangeiro, frequentou também cursos de Design Thinking e de Cinema e tem vindo a participar em inúmeros workshops de cinema e realização de pequenos filmes experimentais. Ainda antes do despertar do XXI, em Aveiro, a trabalhar na área multimédia e vídeo, como UI/UX designer, front end developer e editora de vídeo e designer de motion graphics, para companhia de teatro e na empresa Palo Alto. Foi também formadora na área de ergonomia multimédia. No presente, product owner, em Braga, na Seegno. Voluntária como realizadora no Tedx Aveiro e no National Geographic Exodus Aveiro Fest.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.