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Há oito anos, quando Obama ganhou pela primeira vez as presidenciais americanas, Tara Wall – mulher, negra e republicana (donde, votante em McCain) – disse na cobertura da noite eleitoral na CNN ‘today you can’t be black in America and not be proud of what Barack Obama has achieved’ (estou a citar de memória – que costuma ser fiável).

Eu não fiz parte da corte de enamorados do discurso, tão evidentemente vazio que até doía, ‘esperança e mudança’ de Obama. Gozei com fartura nos blogues com a semelhança dos discursos de Obama e as tiradas do presidente Bartlett na série televisiva West Wing e não me surpreendi por ver que o supostamente pacifista presidente tornar o mundo mais perigoso (sim, o querido ISIS) retirando a correr do Iraque. (Se lá deviam ter ido ou não depois do 11 de setembro é outra questão.) A melhor parte (para mim) da presidência de Obama foi a espécie de redenção de um país com uma história de escravatura, de segregação racial, da luta pelos direitos civis e de racismo tão entranhado ao eleger para seu representante cimeiro um negro.

As eleições de novembro também vão ter a sua novidade. Pela primeira vez poderão eleger para a presidência uma mulher (Hillary Clinton), um judeu (Bernie Sanders) ou um latino (Marco Rubio ou Ted Cruz).

Destes todos prefiro a Hillary e não escondo que o sexo da candidata é o fator decisivo. E não, por favor não me macem com a conversa ‘não se deve votar num candidato por ser mulher’. Ser mulher é um fator da identidade do candidato como qualquer outro – na verdade mais marcante do que muitos outros – pelo que o argumento de não se valorizar o sexo tem tanto sentido como não valorizar se tem um doutoramento ou se nem sequer frequentou a universidade, se foi Secretária de Estado ou se foi presidente da associação de pais, se era advogada na vida antes de Washington ou se escrevia livros de poesia experimental.

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Claro que se as posições políticas de Hillary fossem terríveis, à Catarina Martins ou à Pablo Iglesias ou à Marine Le Pen, nem o sexo a salvaria. Depois das defesas absurdas que Manuela Ferreira Leite fez e faz do status quo e da espoliação crescente aos contribuintes, não votaria na senhora nem para a administração do condomínio. Mas Hillary, em boa verdade, deve ser consideravelmente menos socialista e socializante do que o candidato médio do PSD. Nada que provoque achaques à minha alma liberal. Nunca a vi a fazer as defesas tristes do socialismo que Marcelo Rebelo de Sousa fez na sua campanha, e tive muitos amigos de direita (que tremem com a possibilidade Hillary) a convencerem-me a votar no candidato apaixonadamente estatista. (Não votei; votaria só numa segunda volta.)

Se, como disse aqui, foi de uma tremenda importância crescer com Margaret Thatcher como primeira-ministra britânica, e como isso introduziu uma normalidade na participação política feminina que não havia até aí, ter uma mulher como presidente dos Estados Unidos seria, de facto, partir o último telhado de vidro para as mulheres. E isto, meus amigos, é um objetivo político em si mesmo e tem tanto valor como saber quais os planos para conter o ISIS ou se pretende ser mais diplomata ou mais beligerante com a China (desde o apoio às intenções independentistas de Taiwan até às negociações das tarifas do comércio mundial).

Não é nada perfeita, a candidata Clinton. Mas também é tempo de parar com a mania – nada inocente – de exigir perfeição às mulheres políticas, enquanto a mediania satisfaz nos políticos masculinos. A mim, irrita-me que Hillary tenha defendido em tribunal um violador de uma menina de 12 anos. É intragável. Mas que candidato com décadas de vida não tem os seus inconfessáveis na consciência?

Também preferia que Hillary não fosse a herdeira do marido. A minha candidata ideal seria uma republicana moderada com carreira política e profissional que só devesse ao marido a ajuda com a ginástica doméstica e familiar que lhe permitisse o tempo para seguir os seus sonhos e talentos. Uma espécie de Assunção Cristas, mas que tivesse como credenciais efetivamente de direita algo mais do que ser católica.

Em todo o caso os Estados Unidos adoram dinastias. Lembremos os Kennedy todos que se dedicaram à política ou os Bush. E há precedentes honrosos. Toda a gente conhece Catarina, a Grande, da Rússia. Se calhar também conhece o nome do seu amante mais famoso, Potemkin. Mas quem se recorda do nome do marido czar que a transformou de princesa alemã em imperatriz russa? O nome do marido de Maria Teresa de Áustria (cujo sacrifício de Lorena permitiu à sua mulher receber enormes territórios como herança do seu pai), anyone?

Fora isto, a maioria das críticas a Hillary ganham tração por ser mulher. Por estes dias, por exemplo, dizem-na demasiado apegada ao dinheiro. Uma mulher decente, como se sabe, é um ser etéreo que só quer fazer os seus felizes e de modo nenhum tem ambições materiais. (Suspiro.) O que é mais um motivo de apoio a Hillary (sobretudo com a derrota no New Hampshire). As fasquias diferentes que se colocam aos homens e às mulheres são muito pouco século XXI.